Câmeras digitais com jeitinho analógico

O boom das câmeras que focam mais na experiência de fotografar do que na resolução final das imagens

Câmeras digitais com jeitinho analógico

Comprar uma câmera-chaveiro de 1.6 megapixel vendida em blind box, onde nem a cor do aparelho você escolhe, claramente não é uma decisão baseada na busca por qualidade técnica. E não tem problema nenhum nisso. Quando a Kodak apresentou a Charmera, pouca gente previu que aquela caixinha se transformaria em um fenômeno global, formando filas enormes, cópias piratas e uma comunidade ao redor. Esse exemplo mostra uma parada que vem se desenhando já há alguns anos: existe demanda para produtos intencionalmente "imperfeitos".

Ao invés da otimização que a indústria da imagem promoveu nas últimas décadas, ou seja, foco perfeito, resolução máxima, velocidade e processamento digital, o apelo está no oposto. O público quer uma experiência mais tátil, telas ausentes ou limitadas e a possibilidade de não precisar lidar com a imagem logo depois de apertar um botão. Essa dinâmica nasceu no analógico, migrou pro digital, quase morreu na segunda onda das películas e agora busca caminho em dispositivos propositalmente limitados.

Para entender esse movimento, vale dar uns passos pra trás, no começo da década passada. Lomography, Holgas, Polaroids ressuscitadas pela Impossible Project e Instax como lembranças de festa de aniversário ressurgiram como estética e como ritual. Era a reintrodução do erro e da espera como parte do processo para obter imagens. Uma geração que cresceu com smartphones nas mãos, decidiu que queria experimentar outra coisa, que só conheciam de ouvir, que é essa imprevisibilidade, e a ansiedade de não saber como a foto ficou até a revelação.

A Impossible é a responsável pela Polaroid ainda existir Frame do filme An impossible Project (2020)

Segundo estimativas de mercado, esse movimento começou a crescer e nunca mais parou. O setor de filmes fotográficos vinha aquecido pela nostalgia, pelas redes sociais e por uma estética específica. O problema é que esse crescimento esbarrou na própria estrutura, que era frágil, cara de manter e pequena demais para dar conta da demanda que criou.

A produção de filme fotográfico depende de uma série de fornecedores de químicos e de base de poliéster que só sobreviveu porque marcas como Kodak e Fuji ainda mantiveram uma linha de produção pequena e limitada. O problema é que escalar essa produção para atender a demanda é diferente de abrir mais uma fábrica, já que custa muito mais caro, é lento e a matéria-prima também estava escassa.

Na prática, quem entrou na fotografia analógica sem uma necessidade técnica ou compromisso profissional, sentiu no bolso e precisou procurar outra brincadeira, já que um hobby que já era de nicho, ficou ainda mais difícil de sustentar. E foi aí que a crise empurrou parte da geração de volta pro digital, só que agora exigindo algo que não entregava antes.

Kodak Charmera

A resposta da indústria e de estúdios independentes foi tomar o caminho contrário. Ao invés de entregar nitidez e acessibilidade, ou recriar a estética analógica com filtros mil, coisa que já existe há anos nos aplicativos de celular, optaram por reintroduzir a experiência física do filme, sem depender do próprio filme. 

Daí começaram a surgir câmeras sem tela, sensores de baixa resolução, interfaces que forçam atenção e outras características que fogem do “modo-foto” automático. O celular otimiza cada etapa para garantir que a imagem saia o mais próxima da realidade no menor tempo possível, enquanto uma câmera profissional quer dar o máximo do controle técnico. Esse novo nicho não quer nenhum dos dois caminhos, e o do meio é algo que existe no digital mas se comporta como o analógico.

A já citada Kodak Charmera é o caso mais visível e comercial dessa porta que se abriu. É uma câmera inspirada na Fling, dos anos 1980, não pesa quase nada, tira fotos com toda a estética vintage e ainda vem com aquele gatilho de dopamina que é comprar sem saber qual design virá na caixa secreta. Virou item colecionável que as marcas começaram a copiar e servir de brinde de ativação em mega festival.

Mas o legal é que desse mesmo contexto, outros projetos começaram a surgir, alguns mais interessantes do que a câmera-chaveiro da Kodak. Um deles é a Godox C100, primeiro produto de imagem da marca de flashes profissionais, e que se resume à uma câmera com um viewfinder gigante. É basicamente um quadradinho com uma janela que te indica informações básicas e te ajuda a enquadrar sua foto. Essa câmera também funciona como fotômetro, caso você queira usar com alguma câmera analógica, mas a ideia aqui é ter algo menos sério, que cabe no bolso e te permite fotografar sem muita coisa para pensar.

Godox C100

Por aqui no Brasil a gente tem a ALT, uma marca da FFV, que por sua vez nasceu como loja e coletivo analógico. A ideia é ser uma câmera digital sem tela e com filtros embutidos, pensados para emular a sensação de disparar com rolo. Como não existe a possibilidade de ver a foto, você precisa clicar com intenção. Ou não também. O ponto é que a imagem só vai aparecer depois, quando chegar em casa e descarregar as imagens no celular ou PC. Como é um produto que surgiu de dentro da comunidade de fotógrafos analógicos, ela carrega um pouco daquelas sensações e experiências que só quem já clicou com filme, sente.

Alt 1.0 da FFV

E falando em comunidade, alguns projetos de código aberto estão conquistando fãs pelo mundo ao promover experiências diferentes em relação à imagens, além de fazer do usuário um agente de produção do próprio equipamento. Um exemplo é o da reFrame, um projeto do artista búlgaro Kaloyan Kolev, que desenvolveu uma câmera com tela e-paper, aquela do Kindle, sabe? Ao apertar o botão do obturador, ela carrega aos poucos a imagem na tela a partir de partículas de até seis cores e, se você quiser tirar outra foto, precisa apagar a anterior da tela. É um experimento que surgiu para atender uma demanda do Kaloyan, mas que hoje está disponível gratuitamente para quem quiser construir em casa, de qualquer lugar do mundo.

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reFrame

Algo parecido foi feito com a Pixela, projeto de um brasileiro que construiu uma câmera artesanal que produz imagens com limites de pixels. Parecida com a reFrame, as fotos não focam em resolução, mas na experiência de construir seu item de captação de imagens. O projeto também é gratuito, disponível todo online, inclusive com os modelos 3D para impressão da carcaça, mostrando que existe uma ideia de retroalimentação dessa comunidade que busca novas formas de experienciar a produção de imagens. 

Eu poderia deixar a explicação desses projetos na conta do preço do filme, mas seria simplificar demais, já que vejo uma camada mais comportamental rodando debaixo disso tudo. 

Projeto 3D da Pixela

A câmera do celular virou um instrumento tão automático e autônomo, que antes de te mostrar a imagem ele já aplicou HDR, corrigiu luz, estabilizou movimento e, mesmo depois de feita a imagem, você ainda pode mudar ângulo ou escolher um momento antes ou depois da foto. Antes isso impressionava, mas agora esse controle todo já está tão fixado em nossa cabeça que, ao ver uma foto no feed do Instagram, dificilmente você para e olha com atenção nos detalhes. A “fotografia lenta”, definida pelo teórico David Campany, busca justamente valorizar o processo e a presença, no lugar da documentação barata e sem intenção.

Faz sentido, então, que hoje muita gente esteja buscando por experiências mais táteis e analógicas, mesmo em contextos digitais. Até câmeras de uso profissional têm buscado introduzir elementos diferentes, como é o caso da Sigma BF, com um corpo super minimalista, ou a X Half, da Fuji, que resgata as clássicas câmeras de meio-frame que dobravam um filme de 35mm.

Essa nostalgia que não é bem a saudade de algo que se viveu, não rejeita o digital e nem quer reintroduzir modelos anteriores de produção e consumo, mas tentar achar um caminho com mais fricção. Tem marca que entendeu isso e lança produto e tem coletivo que prefere o caminho do “faça você mesmo”. O que importa é que a câmera voltou a ser uma ferramenta para contemplação e não só de arquivamento. Numa época em que qualquer celular produz imagens com a mesma resolução de uma câmera de 10 anos atrás, a régua virou outra. Agora é tempo, presença, e a disposição de topar não saber como vai ficar até o momento certo de olhar.


ISMO
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