Quanto tempo dura uma personalidade?

Do matcha ao Labubu, alguns gostos ganham rapidamente o poder de dizer quem somos (e perdem essa função quase na mesma velocidade)

Quanto tempo dura uma personalidade?

Abra o Bumble por alguns minutos e existe uma boa chance de sair com a impressão de que todo mundo na sua cidade gosta mais ou menos das mesmas coisas. Viajar, bichinhos (geralmente os próprios bichinhos) e, aparentemente, pagar mais do que deveria em cafés. Os “cafés superfaturados”, como já virou categoria dentro do próprio aplicativo.

Nas redes, a repetição também virou piada. Em 2025, no auge simultâneo dos Labubus e dos livros de colorir da Bobbie Goods, circulou a frase “amiga pra mim do grupo vc é a mais labubônica bobbiegoodiana”. A graça estava justamente na precisão: duas referências eram suficientes para imaginar uma pessoa inteira. Com ou sem um Labubu, “labubônica” já conseguia funcionar como descrição de personalidade.

Não acho que isso prove que estamos vivendo uma epidemia de gente sem personalidade. Me interessa mais entender como um objeto, um hábito ou um gosto consegue acumular significado social rápido o bastante para começar a comunicar quem alguém é. Porque o Labubu continua sendo um boneco, matcha continua sendo chá e perfume árabe continua sendo perfume. Só que, em certos momentos, essas coisas passam a carregar uma informação adicional sobre repertório, estilo de vida, grupo social e até sobre a pessoa que gostaríamos de parecer.

Também não é exatamente uma novidade. A gente sempre usou roupa, música, comida, lugares e objetos para encontrar semelhantes e marcar diferenças. O que parece novo é a velocidade com que esses códigos hoje aparecem, se tornam reconhecíveis e perdem parte da força. Se antes um gosto podia acompanhar uma cena por anos antes de escapar dela, agora às vezes bastam alguns meses entre “quem é, sabe” e “meu Deus, todo mundo tem isso”.

O gosto também é uma linguagem social

No começo do século XX, Georg Simmel já descrevia uma contradição bastante familiar: a gente imita porque quer pertencer, mas também procura alguma diferença porque não quer desaparecer completamente dentro do grupo. É essa tensão entre identificação e distinção que ajuda a movimentar a moda. Um código precisa ser compartilhado para criar pertencimento, mas não compartilhado demais a ponto de deixar de diferenciar. Deu para entender?

Décadas depois, Pierre Bourdieu aprofundou essa discussão ao mostrar que aquilo que chamamos de gosto pessoal também é atravessado pela posição que ocupamos no mundo. Nossas preferências não se formam de maneira isolada, mas nas relações que estabelecemos e nas oportunidades que temos de conhecer, experimentar e valorizar certas coisas. A gente aprende o que considerar bonito, sofisticado, cafona, interessante ou desejável em contato com as pessoas e os ambientes ao nosso redor.

Isso não quer dizer que pedir matcha exige uma tese sociológica. Às vezes você só queria tomar matcha. Mas a bebida mostra bem como um gosto pode ganhar sentidos que vão além do sabor. Nos últimos anos, ela passou a circular junto de um imaginário de wellness, pilates, rotina matinal, cafés fotogênicos (superfaturados?), copos transparentes e estética clean. Nenhum desses elementos precisa necessariamente andar junto, mas a repetição cria uma imagem reconhecível.

É exatamente por isso que o Bumble funciona como uma espécie de laboratório dessa lógica. Quando temos poucas fotos e frases para explicar quem somos, escolhemos elementos que outras pessoas consigam interpretar rapidamente. Seu cachorro pode sugerir afeto, corrida pode indicar disciplina, viagem pode apontar curiosidade ou dinheiro (depende bastante da viagem) e café pode comunicar desde interesse gastronômico até uma tentativa desesperada de encontrar um assunto para começar a conversa. Não é que esses gostos sejam falsos, mas eles funcionam justamente porque são compartilhados o suficiente para serem entendidos.

O problema é quando todo mundo aprende o código

Se determinados gostos ajudam a localizar alguém dentro de um grupo, conhecer certas coisas antes dos outros também pode gerar status. A socióloga Sarah Thornton chamou isso de “capital subcultural” ao estudar clubes e cenas musicais: saber quais artistas ouvir, onde ir, como se vestir ou quais referências reconhecer também cria posição dentro de uma comunidade. É o velho prazer de conhecer uma banda antes de ela ficar grande, descobrir um restaurante antes de aparecer em todas as listas ou saber qual tênis procurar quando quase ninguém ainda está falando dele.

A internet facilitou enormemente o acesso a esse repertório, mas criou uma contradição curiosa. Hoje, quem conhece primeiro pode ganhar alcance justamente ensinando todo mundo a conhecer. “Cinco perfumes árabes que você precisa conhecer”, “como preparar matcha em casa”, “guia para começar a colecionar Labubu”. O conhecimento vira conteúdo, o conteúdo circula, e aquilo que funcionava como informação de um grupo pequeno pode se tornar linguagem comum em poucas semanas.

Labubu talvez seja o exemplo mais engraçado porque completou esse percurso muito rápido. O personagem existia antes da explosão recente, mas passou de objeto de colecionador a acessório de bolsa, item de celebridade, blind box disputada, falsificação e meme. Quando chegamos à personalidade “labubônica bobbiegoodiana”, o símbolo já estava tão disseminado que podia ser usado sem o objeto, em si, presente. Todo mundo tinha aprendido a ler o código.

Com os perfumes árabes, o mecanismo aparece de outra forma. A tradição da perfumaria no Oriente Médio é muito anterior ao TikTok, mas termos e referências que antes circulavam em públicos mais específicos passaram a fazer parte de uma conversa bem maior: oud, projeção, fixação, layering, Lattafa. Isso pode significar mais acesso, descoberta e interesse por uma cultura olfativa que muita gente não conhecia. Ao mesmo tempo, mostra a facilidade com que uma tradição complexa pode chegar às redes já transformada em uma categoria de consumo imediatamente reconhecível (e pasteurizada, né?!).

Quando pertencimento vira produto

E olha onde está o interesse do mercado nisso tudo: quando um gosto começa a funcionar como identidade, vender o objeto também significa vender acesso a parte daquela imagem. Hoje é relativamente fácil descobrir quais elementos compõem determinada estética: existe tutorial, starter pack, Pinterest, vídeo de referências, lista de compras e link na bio. O tênis, a bolsa, o perfume, a garrafa, o chaveiro, a câmera, o café. Não se compra uma personalidade inteira, mas se compram vários sinais que ajudam a torná-la legível.

Mas não entenda que as pessoas estejam simplesmente fingindo ser alguma coisa. Identidade sempre foi construída em relação aos outros. A gente copia quem admira, rejeita aquilo com que não quer ser associado, muda de gosto, descobre coisas por meio de amigos e encontra comunidade em interesses compartilhados. O consumo participa desse processo porque objetos circulam socialmente junto com significados.

A diferença é que o mercado contemporâneo ficou muito eficiente em identificar esses significados e transformá-los em produtos para diferentes bolsos. Existe o perfume caro e o inspirado, o Labubu e o Lafufu, o tênis raro e o take down, o café especial e a versão da grande rede. O acesso material continua desigual, mas os códigos estéticos circulam muito mais facilmente do que os próprios objetos originais.

E aí aparece um problema para qualquer símbolo que dependa de distinção: quanto mais fácil fica comprar, copiar e reconhecer aquele código, menos exclusivo ele se torna. E não é que o gosto desapareça! Quem realmente gosta de perfume pode continuar gostando depois que outra categoria dominar o TikTok. Quem toma matcha pode continuar tomando quando a bebida deixar de ser atalho para um estilo de vida. O que envelhece mais rápido é a capacidade daquele objeto de comunicar novidade, repertório ou pertencimento.

Quanto tempo dura uma personalidade?

Talvez “identidade volátil” seja uma boa maneira de nomear este momento, mas não porque estejamos necessariamente mudando de personalidade a cada nova tendência. O que parece muito mais instável são as ferramentas usadas para tornar essa personalidade visível. A vontade de pertencer continua, assim como a vontade de preservar alguma diferença. O uniforme é que muda.

Também existe alguma ironia em viver numa época obcecada por individualidade e, ao mesmo tempo, tão eficiente em transformar indivíduos em categorias reconhecíveis. Matcha girl, sneakerhead, pessoa do café superfaturado, labubônica bobbiegoodiana. De repente a gente gosta dessas classificações porque elas facilitam encontrar os nossos - e gosta também de abandoná-las quando começam a caber em gente demais.

Então, para além de perguntar quanto tempo dura uma personalidade, acho que vale perguntar quanto tempo um objeto consegue continuar dizendo alguma coisa interessante sobre ela antes de seu significado ficar óbvio demais. Porque, quando gosto vira categoria, a categoria já pode ser organizada pelo algoritmo, transformada em produto pelo mercado e reconhecida por qualquer pessoa que passe alguns minutos no feed. A próxima novidade não aparece quando a gente para de gostar da anterior, não é simplório assim. Ela aparece porque, para continuar distinguindo, é preciso continuar encontrando novas maneiras de dizer “eu sou daqui”.


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