Ciça e a revolução diária de ser mulher no rap

Com ‘NEPOBABY’, a rapper rebate haters e afirma que o rap feito por mulheres nasce politizado

Ciça e a revolução diária de ser mulher no rap
Foto: Mateus Aguiar (@mateusaguiar)

Com os seus recém-completados 18 anos, a rapper mineira Ciça lançou em 25 de setembro seu primeiro EP, ‘NEPOBABY’. Em tom irônico e debochado, o projeto responde a comentários no X (antigo Twitter) segundo os quais ela só estaria onde está por ser filha de dois nomes do rap underground: o pai, Slim Rimografia, e a mãe, Bárbara Sweet. 

Capa do EP reinterpreta o clássico “Ready to Die” (1994) de Notorious B.I.G. / Foto: Mateus Aguiar

O que o rótulo ignora, no entanto, é que Ciça teve uma criação dentro da cultura hip-hop e que talento e vivência não se compram. A artista cresceu em meio às batalhas de rima de Belo Horizonte, sob o Viaduto Santa Tereza, coração da cultura underground e periférica da capital mineira. “Eu ficava brincando com outras crianças, correndo por lá. A batalha tava rolando e eu não tava nem aí, saía correndo. Eu ficava pichando com os pichador, ixe, eu ficava bagunçando. Dormia perto das caixas de som lá do [coletivo] Família de Rua”, relembra. 

A relação com o rap, porém, não foi linear. Ciça diz que não lembra muito da infância, mas que foi “uma menina rebelde”, e foi justamente a rebeldia que a afastou desse ambiente por um tempo. “Se minha mãe tava nas batalhas de rima, eu não queria estar. Eu queria fazer outra coisa”, conta dando risada.

Ao retornar para o rap, Ciça conta que a influência mais forte veio da convivência com os pais: “estar sempre com meu pai ou com minha mãe, os dois rimando, acompanhar meu pai no estúdio, ver meu pai nos shows. Foi mais essa vivência que eu levei”.

Com rimas ácidas e uma rebeldia que transparece também na postura e nos looks coloridos, ‘NEPOBABY’ reúne desabafos sobre bases clássicas de boom bap, todas mixadas e masterizadas pelo pai, que, como produtor musical, assina Bruce Slim Beats. 

A parceria vem desde a primeira música gravada por Ciça. “A gente briga bastante, discute bastante, mas se entende super”, diz. Para ela, a confiança é o que sustenta o trabalho entre os dois: “Ele já sabe as coisas que eu gosto. Eu falo: ‘Ah, minha voz tinha que ser mais pan’. Ele já sabe o que é o meu pan, entendeu?”.

A artista ainda presta homenagem ao legado do pai com a faixa 'Segura a Bronca pt 2', uma continuação da música 'Segura a bronca', do disco Financeiramente Pobre de Slim Rimografia, lançado em 2003.

Ciça e o pai, Slim, rapper e produtor musical / Foto: Reprodução Ciça

Entre as colaborações do EP, a cantora baiana Agnes Nunes é o único feat. Na produção, além do pai, estão o amigo IKNOWFELIPE, em duas faixas, e os mineiros Coyote Beatz e Pepito. Ainda tem a DJ Miya B, que soma como participação especial. “Foi um EP feito de um jeito mais íntimo. Eu fiz com pessoas que vi que acreditavam e iam fazer valer. Deu o resultado que deu, eu gostei bastante, e todo o processo foi muito bom por causa disso”, explica.

O outro lado de Ciça

Neste primeiro projeto de maior fôlego, vemos muito da Ciça direta e combativa que já aparecia nos singles ‘tranquila & Calma’ (2025) e ‘MINA QUENTE’ (2026), mas há espaço também para Cecília, nome de batismo da artista. Essa é a faceta mais pessoal do disco, em que ela aborda vulnerabilidades, inseguranças, entre outros assuntos que queria dizer há algum tempo. “Acho que essa foi a parte mais difícil para mim, real”, explica a rapper.

Foto: Mateus Aguiar

‘Não fale de amor comigo’, última faixa do EP, era uma música que ela não queria lançar, por falar de uma relação conturbada com um homem anos mais velho. Já ‘Apenas Cecília’, que decidiu lançar depois, foi, para ela, a mais difícil de gravar. “Eu gravava e ficava meio: ‘Ai, será que as pessoas vão gostar? Será que as pessoas vão entender?’”, relata. Mesmo assim, achava necessário.

“Mostrar esse lado meu tirou um peso das minhas costas, sabe? Me libertou de muita coisa. Foram músicas que eu lancei para mim, não foi pensando no público nem nada. Então fez toda a diferença. As músicas do projeto que eu mais gosto são essas.” – Ciça

Além das respostas aos haters e da autoafirmação nas letras, o EP traz uma crítica à indústria e à cena atual do rap.

A faixa ‘Boom Bap não vende’, segundo ela, nasceu como um questionamento: “de pensar até quando a gente precisa ser só bom para ter sucesso, até quando a indústria acolhe a gente. Até quando algo precisa ser só bom para ser vendível. E acho que isso se aplica a tudo”.

Ciça nota que a pressão é muito maior para as figuras femininas. “Como mulher, você tem que se destravar muito para vender, enquanto um homem talvez não precise disso”, diz.

"Rap de direita", mulheres na cena e posicionamento político

A conversa ganha outra camada em meio ao período eleitoral que estamos vivendo no Brasil, quando se discute, dentro do próprio rap, se a cultura tem ou não lado político e quem é cobrado a se posicionar.

“Não tem nenhuma mina do rap que não se posicionou, que eu não vi postando nada sobre. Agora, mano do rap que não postou nada sobre, eu tenho vários”, afirma.

Ela própria diz ter sido cobrada por seguidores e concorda com a ação. “Tem uma galera me mandando mensagem: ‘E aí? Você não vai falar nada? Tem que se posicionar’. E não que essas pessoas estejam erradas, elas estão muito certas, inclusive. Tem que fazer isso mesmo”.

Para ela, a questão é que a cobrança pesa mais de um lado. “Quando a gente é mulher, a gente meio que é obrigada a fazer essas coisas. Não tem como não fazer. E os homens ficam num lugar meio relaxado”. Ciça diz ver isso de dentro, ao conviver com colegas de cena e vê-los no palco, e perceber que ainda assim eles “tão ganhando 10 vezes mais que a gente”.

Para a artista, posicionamento político não é novidade entre as mulheres do hip-hop. “Toda mulher que faz rap sempre foi assim. Eu nunca vi uma mulher que faz rap não se posicionar e não dar a cara a tapa. Se você não tem coragem de se posicionar e dar a cara a tapa, a última coisa que você vai fazer como mulher é virar rapper”, afirma. 

“Ser mulher no rap é perceber que todo dia você tem uma revolução nova para fazer e que todo dia vai ter um cara escroto achando que é melhor que você. E sempre vai ter um hater no Twitter falando que o seu rap é horrível, que homens fizeram isso há muito tempo atrás e que não tem nada de revolucionário nisso”, define.

No olhar dela, ser uma pessoa posicionada politicamente é uma postura inerente à arte de fazer rap – principalmente sendo uma mulher na cena. “A gente tem que ser essa pessoa já para querer entrar nisso e fazer acontecer. E mesmo que você queira entrar e não seja esse tipo de pessoa, você vai sair”.

Esse mesmo peso aparece no rótulo que dá nome ao EP. Associado em geral a famílias de grande projeção e poder, o termo "nepobaby" recai sobre uma jovem que cresceu em batalhas de rima, filha de artistas do circuito underground, e que, além da cobrança sobre a origem, enfrenta a que já pesa sobre quem é mulher no rap.

Ouça 'NEPOBABY':


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