Os fandoms levaram a cultura pop para a política

De Beyoncé e Taylor Swift ao BTS, comunidades de fãs usam sua experiência de organização coletiva para participar de mobilizações sociais e eleitorais

Os fandoms levaram a cultura pop para a política

No último domingo, 11 de outubro, a Avenida Paulista recebeu uma manifestação política que também reuniu integrantes de fã-clubes de artistas como Taylor Swift, Beyoncé, Lady Gaga e BTS. Organizados em torno do movimento Fandoms com Lula, esses grupos participaram da Marcha pela Democracia, levando para as ruas cartazes, referências musicais e uma linguagem bastante familiar para quem acompanha a cultura pop na internet. Nas redes sociais, a hashtag #FandomsNoMasp ajudou a divulgar o encontro.

Manifestação na Av. Paulista dia 11/10 puxada por fandoms

A presença desses grupos em um ato eleitoral pode parecer curiosa para quem ainda associa fã-clubes à admiração por artistas. Mas basta acompanhar o funcionamento de uma fanbase para perceber que existe uma estrutura considerável por trás de atividades aparentemente simples, como divulgar um lançamento ou votar em uma premiação. Há pessoas responsáveis pela comunicação, pela criação de materiais, pelo acompanhamento de resultados e pela coordenação de ações coletivas. Tudo isso, muitas vezes, realizado de forma voluntária.

Essa experiência começou a ganhar espaço em causas sociais e debates públicos muito antes das eleições brasileiras de 2026. Nos últimos anos, fãs participaram de campanhas contra o racismo, ações ambientais, projetos de educação eleitoral e manifestações de rua. Para entender como chegamos até aqui, é preciso olhar para a história dessas comunidades e para uma mudança importante na relação entre público, artistas e participação cultural.

A organização dos fãs vem de longe

Muito antes das redes sociais, fã-clubes já funcionavam como espaços de convivência e produção cultural. Ao longo do século XX, admiradores de músicos, atores e outras figuras públicas criaram revistas independentes, organizaram encontros, trocaram correspondências e desenvolveram maneiras próprias de acompanhar seus ídolos. Eram redes que dependiam de dedicação, circulação de informações e relações construídas entre pessoas que compartilhavam os mesmos interesses.

A internet ampliou essas possibilidades. Fóruns, blogs e, posteriormente, plataformas como Twitter, Instagram e TikTok facilitaram o contato entre fãs de diferentes países. Também transformaram a velocidade com que informações circulam. Uma notícia sobre o lançamento de um álbum, por exemplo, pode ser traduzida, comentada e distribuída por centenas de perfis em poucas horas, muitas vezes antes de chegar aos veículos de comunicação tradicionais.

O pesquisador Henry Jenkins estuda esse comportamento a partir do conceito de cultura participativa. Em vez de enxergar o público apenas como consumidor, ele observa como as pessoas também produzem conteúdos, reinterpretam obras e participam ativamente da circulação de produtos culturais. Seus estudos sobre comunidades de fãs ajudam a explicar práticas que se tornaram ainda mais visíveis com a popularização das plataformas digitais.

Na música, essas atividades ganharam formatos bastante elaborados. Fanbases organizam traduções, acompanham premiações, criam materiais gráficos e administram perfis informativos. Algumas também coordenam campanhas de arrecadação e projetos sociais. O trabalho envolve pessoas com habilidades diferentes, da edição de vídeos à administração de recursos, e costuma acontecer sem uma estrutura profissional formal. Em determinados projetos, o fã-clube acaba funcionando como uma pequena organização independente.

Em 2022, fãs do BTS incentivaram jovens a tirar o título de eleitor

No Brasil, uma das experiências mais conhecidas dessa relação entre música e participação pública aconteceu durante a preparação para as eleições de 2022. O Army Help The Planet, coletivo criado por fãs brasileiros do BTS, iniciou em março de 2021 a campanha Tira O Título Army, voltada principalmente a adolescentes de 16 e 17 anos. A proposta era explicar como emitir o primeiro título de eleitor e incentivar os jovens a participar do processo democrático.

A campanha utilizou referências ao grupo sul-coreano para construir uma comunicação próxima de seu público. Publicações nas redes sociais reuniam informações sobre prazos, documentação e procedimentos necessários para o alistamento eleitoral, enquanto hashtags e materiais gráficos ajudavam a divulgar as orientações. Também foram realizadas intervenções em espaços físicos, ampliando a presença do projeto para além das plataformas digitais.

Fandom do BTS incentivando jovens a tirar o título de eleitor

A iniciativa aconteceu em um período de crescimento expressivo do alistamento eleitoral de jovens brasileiros. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, 2,04 milhões de pessoas entre 16 e 18 anos emitiram o título entre janeiro e abril de 2022, um aumento de 47,2% em comparação com o mesmo período de 2018. Esse resultado não pode ser atribuído ao Army Help The Planet, já que diversas instituições, artistas e organizações participaram das campanhas de incentivo. Ainda assim, o projeto mostra como uma comunidade ligada à música conseguiu atuar na divulgação de informações sobre cidadania, alcançando jovens por canais que já faziam parte de seu cotidiano.

Dos protestos antirracistas às ruas de Seul

A atuação política dos fãs também apareceu em outros países. Em 2020, durante os protestos do Black Lives Matter nos Estados Unidos, comunidades de K-pop participaram de ações digitais em apoio ao movimento antirracista. Entre as iniciativas que ganharam repercussão estavam o uso de vídeos musicais para ocupar hashtags associadas a discursos racistas e campanhas de arrecadação. Naquele mesmo período, fãs do BTS organizaram contribuições para causas relacionadas ao combate à discriminação racial.

Quatro anos depois, outra cena chamou a atenção internacional. Em dezembro de 2024, após a declaração de lei marcial pelo então presidente sul-coreano Yoon Suk Yeol, milhares de pessoas foram às ruas exigir sua saída do poder. Entre cartazes, bandeiras e palavras de ordem, manifestantes carregavam lightsticks, os bastões luminosos utilizados por fãs de K-pop durante apresentações musicais.

Fandoms nas ruas de Seoul

Esses objetos costumam ter formatos e cores associados a cada artista ou grupo. Nos shows, ajudam a construir uma identidade visual compartilhada entre o público e os músicos, chegando a formar grandes imagens luminosas nas arquibancadas. Durante os protestos, passaram a integrar uma cena bastante diferente daquela para a qual foram criados. Grupos de manifestantes também cantavam músicas de K-pop, incorporando referências do entretenimento à experiência de ocupar as ruas.

A presença dos lightsticks não explica, por si, a dimensão dos protestos sul-coreanos, que envolveram diferentes setores da sociedade e tinham causas políticas específicas. Mas oferece um exemplo de como os repertórios culturais acompanham as pessoas em outros espaços de convivência. Quem cresce participando de comunidades musicais não deixa necessariamente essas referências de lado ao se envolver em discussões sobre seu país.

Em 2026, os fandoms passaram a dialogar diretamente com a política institucional

A participação de fãs nas eleições brasileiras deste ano trouxe um elemento diferente para essa história. Além de iniciativas criadas pelas próprias comunidades, passaram a ocorrer encontros entre representantes de fanbases e integrantes do governo e da campanha presidencial. Em outubro, fãs de artistas como Beyoncé, Taylor Swift, Lady Gaga, Anitta e BTS participaram de uma reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin, em meio às articulações do segundo turno.

Dias depois, a manifestação na Paulista reuniu integrantes dessas comunidades em uma ação conjunta. A aproximação entre públicos de artistas diferentes é um aspecto curioso do movimento. Quem acompanha as disputas entre fandoms sabe que rivalidades relacionadas a premiações, posições nas paradas musicais e números de reprodução podem provocar discussões bastante intensas nas redes. Naquela ocasião, porém, grupos habituados a defender seus artistas em espaços separados participaram de uma mesma articulação política.

É preciso considerar, no entanto, que uma fanbase não representa automaticamente todos os admiradores de um artista. Fãs podem compartilhar referências musicais e divergir profundamente em suas opiniões sobre política. Da mesma forma, o posicionamento de um coletivo não corresponde necessariamente à opinião de quem ele acompanha. Essa distinção importa especialmente quando grupos organizados passam a participar de campanhas eleitorais, que têm seus próprios interesses e estratégias de comunicação.

Outro ponto envolve as condições em que esse trabalho acontece. Fã-clubes dependem de pessoas que dedicam tempo à produção de conteúdo, à administração de perfis e à realização de projetos. Em alguns casos, essas atividades exigem competências semelhantes às de profissionais de comunicação, produção cultural e gestão de comunidades. Quando uma campanha eleitoral se aproxima dessa estrutura, também cabe perguntar como são tomadas as decisões, quem assume as responsabilidades e quais são os limites da colaboração entre os envolvidos.

O que permanece depois das eleições?

A relação entre fandoms e política acompanha transformações mais amplas na maneira como as pessoas constroem vínculos e participam da vida pública. A experiência de acompanhar um artista pode abrir caminho para amizades, projetos coletivos, aprendizado de novas habilidades e contato com questões sociais que antes não faziam parte do universo de determinado grupo. Isso acontece de maneiras diferentes em cada comunidade e nem sempre resulta em participação política.

Os exemplos dos últimos anos também mostram que essas iniciativas surgem em circunstâncias distintas. A campanha Tira O Título Army tinha um objetivo de educação eleitoral; os protestos da Coreia do Sul responderam a uma crise política nacional; já a articulação de outubro de 2026 está diretamente relacionada a uma disputa presidencial. Colocar essas histórias lado a lado ajuda a entender o repertório dos fã-clubes, mas não significa tratá-las como manifestações equivalentes.

Depois que as eleições terminarem, essas comunidades continuarão acompanhando lançamentos, discutindo música, produzindo conteúdo e mantendo relações construídas ao longo de anos. Algumas poderão seguir envolvidas em causas sociais, outras terão prioridades diferentes. A questão que fica para acompanhar é como a aproximação com a política institucional poderá afetar sua autonomia, suas relações internas e as atividades que já desenvolviam antes de serem convidadas para esse espaço.


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