Ernie Barnes pintou suor, ritmo e movimento

O ex-jogador de futebol americano representou a comunidade afro-americana com sorriso no rosto e corpo livre

Ernie Barnes pintou suor, ritmo e movimento
The Sugar Shack, 1971

Um jogador de futebol americano de quase 2 metros de altura, que joga na linha defensiva, se for bom, vai ser lembrado pelas jogadas que fizer. Ernie Barnes fazia isso nos anos 1960 pelos campos da American Football League, mas tinha um hobby que aparecia fora dos estádios e a crítica demorou um pouco para conhecer. Entre uma partida e outra ele levava tudo o que via nas quadras, os corpos correndo, o suor e o movimento, para as telas de pintura. Décadas depois, uma dessas telas foi leiloada por mais de 15 milhões de dólares, valor que fez muita gente questionar o porquê dele não ter sido reconhecido antes.

Barnes jogou pelo Baltimore Colts, New York Titans, San Diego Chargers e Denver Broncos antes de pendurar as chuteiras, em 1965, para viver da arte. Nascido nos EUA da segregação, chegou a ser draftado pelo Washington Commanders (Redskins na época), mas foi dispensado porque era negro. Só essa história de origem já renderia muita coisa, mas que escolhi falar do que veio depois, já que a obra dele continua em movimento.

Ernie Barnes em 1996 | Reprodução/Internet

Por ter passado bons anos dentro de campo, Barnes aprendeu a ver o corpo humano na lógica do esporte. Na posição em que jogava, ele via de perto aquele bololô de músculos contraídos, a transferência de peso de uma perna pra outra, os movimentos de contato… Enfim, todo um repertório foi se construindo para que depois ele pudesse pintar, mesmo que o resultado final não aparecesse nem estádio e nem uniforme. 

Apesar de parecer uma virada muito brusca na carreira, Barnes veio de formação artística, estudou artes na faculdade, com a bolsa de atleta. Aliás, foi na universidade de Durham que ele começou a se questionar sobre a falta de artistas negros nos museus e galerias. Boa parte do que fez depois, em alguma medida, foi para tentar preencher essas lacunas e vazios, com representações dignas de pessoas negras do Sul dos Estados Unidos.

Durante o período que passou jogando na liga, ele fazia rascunhos do que via nos vestiários e nos treinos, e então, quando decidiu parar de jogar, aproveitou a visibilidade que conquistou pelo esporte para tentar ganhar espaço. Logo depois de se aposentar, foi convidado pelo dono do New York Jets para continuar recebendo salário de atleta, mas ao invés de jogar, ficou responsável pelas artes oficiais do time e da liga. Anos depois, em 1984, chegou a ser um dos artistas oficiais das Olimpíadas de Los Angeles. Só honraria foda.

Uma das características mais perceptíveis do trabalho do Barnes são as figuras alongadas. Perna, braço, pescoço… tudo é muito esticado, com proporções pouco realistas e gestos que parecem querer sair dos limites do quadro. Durante as pesquisas, encontrei algumas comparações do trabalho dele com o de artistas do maneirismo europeu do século XVI, só que ao invés de pintar santos, ele pintava dançarinos e boxeadores.

Olhando as imagens de quadros dele, dá pra sentir a velocidade, quando uma figura sozinha ocupa o espaço inteiro, de ponta a ponta. Obrigatoriamente a gente precisa seguir o fluxo do corpo representado, meio que acompanhando o movimento, como uma coreografia. Tem todo um ritmo também, os pés não aparecem tocando o chão, os ombros não são fixos, e se a pintura é de mais de uma pessoa, todo mundo se mistura em uma grande massa.

Outro detalhe muito comum são os olhos fechados. Em várias pinturas as pessoas aparecem com as pálpebras abaixadas, mesmo em contextos mais frenéticos como de uma dança ou de uma luta. É como se fosse um transe, uma tentativa de bloquear um dos sentidos para que os outros fiquem mais sensíveis, tipo quando a gente escuta música no escuro, ou dança de olhos fechados. O corpo é quem define o caminho. 

A pintura mais conhecida dele é The Sugar Shack (1971). A cena pintada foi inspirada em um salão de dança da cidade em que nasceu, e que ele ia quando era adolescente. O quadro mostra corpos de pessoas negras dançando ao som de uma banda, mas ninguém está olhando pra ninguém, cada um parece estar curtindo a própria vibe, inclusive os músicos. Uma segunda versão, pintada alguns anos depois, foi o quadro que citei no começo do texto, vendido no leilão por alguns milhões de dólares. O original, hoje, está na casa do Eddie Murphy. 

Mas essa imagem ganhou visibilidade mesmo em 1976, quando apareceu na capa do disco I Want You, do Marvin Gaye. O músico pediu autorização para usar a pintura como capa do álbum, e Barnes não só liberou como fez algumas alterações, ampliando a cena e incluindo elementos que se relacionavam com o som do disco. Na mesma década, a imagem foi utilizada na abertura e créditos finais da série Good Times, um sitcom sobre uma família negra de Chicago. Assim, para toda uma geração, a arte de Barnes virou referência do que era a arte negra contemporânea nos EUA.

Também é possível olhar para o quadro e perceber o cuidado que Barnes tinha ao retratar a comunidade afro-americana. Mesmo em um contexto super excludente e racista, ele fazia questão de representá-los alegres, e isso era o jeito dele denunciar as violências que sofriam. Para ele, um corpo negro dançar e sorrir era uma afronta ao sistema. 

Como parte do movimento “black is beautiful”, Barnes organizou a exposição itinerante “The Beauty of the Ghetto”, que rodou por instituições americanas nos anos 1970, e levou suas pinturas a pessoas que nem sempre tinham possibilidade de entrar em museus. A ideia era reconhecer a beleza e dar dignidade para pessoas que viviam em bairros que só apareciam na imprensa quando em situações de desgraça.

Com o tempo, as peças de Barnes começaram a ser comercializadas, só que não necessariamente pelo mercado de arte tradicional. Pessoas comuns compravam para colocar em casa, em barbearias, até em igrejas. Hoje em dia, para um artista chegar no mainstream e aparecer na TV, antes ele precisa ganhar o coração dos galeristas, mas o caminho aqui foi justamente o contrário. Primeiro ele apareceu em capa de disco, em série de TV, e só então as instituições e o mercado decidiram investir.

Hoje em dia tem quem diga que o boca-a-boca é a melhor forma de se fazer conhecido e foi justamente o que ele fez, meio como a circulação musical na época. Os discos circulavam de mão em mão, tocavam nas rádios, eram assunto de bar, e ele pintava para esse público, que curtia funk, soul, jazz…

Claro, o esporte também aparece com frequência só que raramente em tom de vitória. Em telas como Fumble in the Lines (1990), o objeto mais importante do futebol americano, a bola, mal aparece em cena. Na série de pinturas sobre boxe, a trocação franca aparece até em quem está do lado de fora do ringue.

A música também aparece em vários momentos. Em The Maestro (1978), pintura que foi usada na capa do disco Ghetto Blaster (1984), do The Crusaders, um jovem aparece regendo dentro de casa o som que sai do rádio. E já que citei uma capa, as artes dele ainda estamparam discos do Curtis Mayfield, BB King, e Donald Byrd.

Barnes morreu em Los Angeles em 2009, aos 70 anos. Na época, apesar de tudo que escrevi aqui, ele ainda não tinha recebido um reconhecimento institucional na mesma altura do reconhecimento popular. Mas, na última década, alguns artistas negros americanos passaram a ser revisitados pelo mercado e, o leilão que comentei antes, rolou em 2022. O valor alcançado fez com que outras obras menos conhecidas voltassem a aparecer.

A ideia de pintar a vida comum de comunidades negras com cor saturada, corpos em movimento não é ideia exclusiva dele, e se repete em artistas de várias gerações. Mas existe uma influência. Até hoje algumas capas de discos, cartazes e campanhas publicitárias se referenciam na coisa dos corpos aglomerados e alongados.

Para nós, brasileiros, essa imagem é muito familiar, já que qualquer pessoa que tenha pisado em uma roda de samba ou campinho de várzea, vai identificar a mesma energia que Barnes pintou. Existem diferenças históricas e geográficas, claro, mas ainda estamos falando da diáspora africana, que vive nesses espaços fundamentais para nossa cultura coletiva.


ISMO
Cultura em movimento

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