As fotos mais legais da Copa não foram feitas em campo

Fotógrafos e artistas, sem credenciais, estão registrando o maior evento esportivo do mundo do conforto de suas casas

As fotos mais legais da Copa não foram feitas em campo
Foto: Florence Pernet

Prometo que não quero ser monotemático, mas a Copa do Mundo tem dado muito o que falar. São os memes, as torcidas, os resultados inesperados, as estéticas, e claro, as polêmicas. Há quem diga que nem as Olimpíadas de 1938, realizadas na Alemanha nazista, foram tão restritivas quanto essa edição da Copa, já que os Estados Unidos decidiram barrar jogadores, árbitros e profissionais da comunicação e mídia. O que pouca gente esperava é que essa restrição geraria algumas das imagens mais legais da competição.

A história começou quando a fotógrafa francesa Florence Pernet não conseguiu credenciais para fazer seus registros em campo. Florence é conhecida pelos trabalhos nas Olimpíadas, Roland Garros, campanhas esportivas para a adidas, entre vários outros projetos absurdos. Só que mesmo com um currículo de dar inveja, ela não conseguiu a tão desejada autorização. Como já tinha um olhar diferente para captar os momentos mais importantes dos esportes, ela colocou a criatividade pra jogo e decidiu fazer as fotos direto de casa, pela televisão.

E não foi um esquema qualquer, dessas fotos borradas de tela de celular que a gente tira sem querer quando esquece o flash ligado. Florence montou um verdadeiro estúdio improvisado na sala. Papo de telas 4k, câmera posicionada no ângulo certo, iluminação controlada, tudo para garantir que o resultado tivesse o mesmo peso de uma foto feita dentro do estádio. O detalhe é que capturar o jogo através da tela trouxe várias outras camadas como a textura do pixel, a distorção de cor, o reflexo do ambiente da sala… tudo isso vira parte da composição. Estamos falando do jogo visto à distância, como a maioria de nós já está vendo, mas com um olhar treinado.

O resultado é tão foda que transforma o jeito que enxergamos o esporte que tanto amamos. O primeiro post já foi uma pedrada de imagens de jogos da França, Portugal, Brasil, Espanha e Inglaterra. Tinha lance de gol, comemoração, olhar de técnico aflito na beira do campo, tudo com uma estética meio saudosista, quase de VHS, que conversa direto com a nostalgia de quem cresceu vendo futebol na televisão de tubo. Daí, o sucesso estava garantido: o perfil oficial da Federação de Portugal postou em colaboração com a fotógrafa, e até o camisa 11 da França, Michael Olise, conhecido por ter de marra o que joga de bola, e ser muito low-profile, usou as imagens de Florence para atualizar seu perfil, que até o momento não tinha nenhum post.

E a repercussão não parou por aí. Marcas de material esportivo começaram a repostar as imagens em suas redes, veículos de comunicação esportiva fizeram matérias tentando entender o fenômeno, e outros atletas passaram a comentar publicamente que gostariam de ter suas conquistas registradas daquele jeito. Se a gente parar para pensar, tem algo de democrático nisso, já que o glamour de ser fotografado por uma profissional renomada depende só da tela certa e do timing certo.

Mas o interessante é que isso não é exatamente uma novidade. O fotógrafo Matthew Johnson criou há alguns anos o que ele chama de "Screen Time", no qual ele registra shows, desfiles de moda, eventos esportivos e acontecimentos históricos, mesmo que já ocorridos, através de telas. Fotos como a premiação de Michael B. Jordan no Oscar desse ano, o show do Bad Bunny no Super Bowl, ou mais recentemente a ação dos ativistas de performance Beerkus e Angela no Empire State Building, ganham novos contornos pela ótica do fotógrafo. Johnson costuma dizer que existe uma poesia particular em fotografar o que já foi fotografado, em documentar a documentação, em criar uma segunda camada de memória sobre um momento que, para a maioria de nós, só existiu através de uma tela mesmo.

É quase um exercício filosófico, na real. O que é mais "real", a cena original ou a forma como ela chegou até você? Pra maioria das pessoas que não estava no estádio, a imagem transmitida sempre foi a única versão possível daquele momento. Fotografar a tela é, de certa forma, reconhecer isso com honestidade, em vez de fingir uma proximidade que nunca existiu.

A partir disso, uma pessoa inspira a outra: Florence, que se inspirou em Johnson, ganhou destaque na Copa e inspirou mais uma leva de outros fotógrafos a fazerem o mesmo e apresentarem sua visão, mesmo que à distância. O fotógrafo oficial da Seleção Senegalesa, Sidy Talla, por exemplo, não conseguiu visto para entrar no Canadá, onde foi realizado o jogo contra o Iraque. Resultado? Botou seu coletinho de imprensa, ligou a câmera e mandou ver nos cliques durante a transmissão. A cena virou meme na hora. O profissional, uniformizado como se estivesse à beira do gramado, sentado na cadeira do quarto de hotel, câmera na mão, lente tele, fotografando a televisão como se aquilo fosse o campo. Chega a ser comovente no mesmo nível que é engraçado, essa coisa de uma resistência bem humorada que combina com o espírito de quem faz cobertura esportiva.

Outros fotógrafos menores, sem o mesmo alcance de Florence ou de Talla, também começaram a compartilhar suas versões, uma espécie de comunidade improvisada de gente driblando a burocracia com criatividade. Teve gente que fotografou de bares lotados, com o reflexo de luzes coloridas na tela, teve quem fotografasse de dentro do carro, parado em algum posto de gasolina só para acompanhar o jogo.

Se a moda ainda vai se manter eu não sei te dizer, mas posso afirmar que a limonada que saiu desses limões tem sido das mais legais dessa edição. Em uma Copa cheia de problemas, de decisões questionáveis da organização a barreiras impostas a profissionais que só queriam fazer seu trabalho, ver a criatividade de pessoas que colocam seu olhar à disposição da arte e do esporte, é não só inspirador como transformador. É um lembrete de que restrição, por mais injusta que seja, nem sempre consegue matar a vontade de criar. Às vezes ela só empurra a criatividade para um caminho que ninguém tinha pensado antes.

Quando estiver cansado dos anúncios de bet que atravessam as transmissões, ou irritado com mais uma polêmica, dê um pulo no perfil dessa galera e se apaixone de novo pelo jogo bonito. Porque, no fim das contas, o futebol sempre encontra um jeito de ser bonito, mesmo que seja através de uma tela, refletido, pixelado, e fotografado por alguém que só queria estar lá.


ISMO
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