Zudizilla fala sobre autoestima em novo single: Carne Dura
O rapper mais elegante da geração transforma o dandismo em manifesto sonoro e visual
Na cena de artistas musicais, principalmente no rap, tem gente que rima, e tem gente que constrói universos ao redor da própria obra. Zudizilla é dos que se encaixa melhor na segunda descrição. No dia 2 de julho o rapper de Pelotas lançou Carne Dura, novo single que funciona como mais um tijolo nessa pesquisa estética contínua que ele alimenta desde o começo de carreira.
O trabalho nasce no mesmo fluxo criativo do EP Le Fauve (2024), e alonga as linguagens tradicionais do rap, principalmente o nacional. O titulo da faixa nasce inspirado em uma frase de Elen Oléria — “conhece a carne fraca? Eu sou do tipo carne dura” —, e desde o primeiro verso já se apresenta como um manifesto de autoestima, tema comum nos trabalhos de Zudizilla.
O rapper sempre levou muito a sério os beats sobre o quais rima, e aqui não foi diferente. Em um momento de transição criativa, Zudizilla mergulha mais fundo na produção musical como extensão de sua linguagem. O single é fruto de algumas experimentações e viagens em uma nova MPC. O movimento vai na direção de um controle maior sobre a própria sonoridade e, bom, em outras oportunidades o cara já mostrou que domina os botões, samples e texturas.
Musicalmente a track foge do território conhecido do rap. Zudi sabe que a cultura de rua é viva e mais ampla do que a gente pensa, então aproveita isso para conversar diretamente com o jazz, o boombap e até o trip-hop. Não é de hoje que ele reverencia o legado da música negra universal como o jazz e o soul. Aliás, um de seus melhores shows é com banda completa. Mas em Carne Dura ele entrega um instrumental leve, que contrasta com a letra densa e de mensagem pesada. Como o próprio explica em citação:
O domínio da poética e da produção são muito genuínos das minhas vontades e também muito opostos ao que se desenha pra alguém do meu gênero musical. É um instrumental mais leve, que pode indicar uma poesia mais sutil, mas não. E a letra, mesmo sendo subjetiva, é combativa
A autoestima negra é sobre estética, claro, mas é cultura, é política, é segurança e é a forma que esses corpos circulam pela sociedade. O lançamento traz um videoclipe que se cruza com moda, no qual Zudizilla experimenta a alta costura da DOD, com Juba Tenório, e resgata o conceito do dandismo, ferramenta histórica de inserção e afirmação social. Se vestir bem também é um ato de subversão.
Se em trabalhos anterior, como a trilogia "Zulu", a caneta escreveu reflexões raciais estruturais, agora esse discurso é mais subjetivo, mas nem por isso menos direto. Carne Dura fala sobre se manter firme em contextos adversos, sobre ter uma autoestima protegida e sobre saber o próprio valor. O som já está nas ruas e com certeza vale seu play.