Muito além das chuteiras rosa - a estética da fase de grupos da Copa
Como o calor do hemisfério norte, collabs variadas e a cara das torcidas de países considerados zebras moldaram a estética da Copa na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026
A rodada da fase de grupos da Copa do Mundo FIFA de 2026 já passou. A gente estava ansioso pra Copa começar e já se foram 72 partidas num piscar de olhos. Mas ao fechar a pálpebra e abrir na sequência, a gente conseguiu captar estéticas muito interessantes que só o maior evento esportivo do mundo pode proporcionar. Bom, pelo menos a cada 4 anos, de formas singulares, porque o fato de acontecer em locais diferentes permite também que as culturas se mesclem.
Mexicanos são experientes, Americanos tentam, Canadenses um dia chegam lá
A estética das torcidas nessa Copa é bastante variada. Na primeira Copa do Mundo realizada em três Países-sede, a distância não é só geográfica – é cultural, em todos os sentidos, inclusive quando se fala em futebol. Mexico, Estados Unidos e Canadá tem visões diferentes do esporte, lugares históricos distantes na relação com a bola chutada e importâncias diferentes na história do esporte.
Enquanto o Canadá nunca foi sede de uma Copa do Mundo masculina (já foi anfitrião do torneio feminino em 2015), Estados Unidos e México já vibraram com edições em seus países - e em ambos locais, o Brasil já foi campeão. Os canadenses tem uma relação de recém apreço com o esporte, nunca tendo de fato tido grandes ídolos ou nomes que foram importantes em times históricos. O país é mais tradicional no futebol feminino do que no masculino, mas não necessariamente isso faz dos canadenses grandes torcedores de futebol. Os jogos no país tiveram torcida animada, porém deixando o protagonismo para torcedores estrangeiros.
Nos Estados Unidos, até antes mesmo da Copa começar, o país se viu num protagonismo tanto de números de estádios (é o país com mais jogos e locais de partidas), quanto na tentativa de se criarem torcidas e tradições atreladas ao esporte. Enquanto vídeos de gritos de torcida circularam na internet, às vezes até virando meme pela criatividade meio infantil, a torcida norte-americana fez questão de lotar estádios e levar seu jeito “viral e amostradinho”, como é no basquete e no baseball, por exemplo, pra dentro dos estádios de futebol.
Já no México, a história é outra. Tradicionais no futebol, o País já sediou a Copa outras duas vezes, tendo Pelé campeão em uma delas e Maradona em outra – pesada a história? Imagina! Mas a história da relação do México com futebol vai além de ser sede de edições anteriores; o esporte é o mais tradicional do país, tendo uma liga forte, a Liga MX, tendo times que já participaram de Libertadores, craques que já despontaram fora do País, filmes que falam de futebol… E uma torcida única e apaixonada. Com a tradicional “ola”, versões de músicas como a “Cielito Lindo” e estéticas locais, como sombreros e bigodes, os mexicanos estão muito à frente de seus co-sediadores no assunto torcida.



O México nasceu pra sediar Copas (fotos: REUTERS)
Tatuagens à mostra
Verão no hemisfério norte, um calor insano dentro de campo e os times estão com cada vez menos roupas nos treinos e nos jogos. Se antes a gente estava acostumado a ver jogadores de golas altas e mangas compridas durante a temporada toda na Europa, agora os craques colocam regatas nos treinos e mangas curtas nos jogos, deixando a gente ver tatuagens que antes estavam escondidas.
Jogadores como o Raphinha, por exemplo, são muito mais tatuados do que a gente imaginava. O sueco Victor Lindelof tem um santuário nas costas, algo que na Europa, jogando pelo Aston Villa, a gente jamais teria noção, já que no verão inglês, os jogos não acontecem.

O calor é notável nos jogos, tendo a pausa de hidratação, que foi testada no Mundial de Clubes, ano passado, um caráter questionável – muitos criticam por esfriar o jogo enquanto alguma das equipes estão mais presentes no ataque, enquanto outros enxergam como uma pausa para ajustes táticos. Fato é que, para alguns países, o calor é intenso e a gente pôde ver até jogadores da Noruega com coletes com gelo para dar uma esfriada no corpo. A seleção da África do Sul entrou no jogo contra o México com um casaco que também trazia gelo esfriando o corpo.
Gelo no pescoço - mas não o citado acima
Outro fato que chamou atenção esteticamente nesse começo de Copa do Mundo foi a alta adesão por colares, de prata, ouro e outros materiais, pelos jogadores. Seja nas entrevistas coletivas ou nos momentos pré-jogo, essa moda masculina vai além de pingentes religiosos (apesar de serem maioria) – o Lamine Yamal, por exemplo, tem sua comemoração cravejada na corrente; o ganês Kwasi Sibo tem o continente Africano na corrente de ouro; Leandro Bacuna, de Curaçao, tem uma camisa 10 e seu nome na corrente; Nico Williams, da Espanha, traz também o 10 na corrente.



Sibo. Yamal e Bacuna (fotos: instagram dos jogadores)
As torcidas mais legais são as de países com menores tradições no futebol
Enquanto torcedores da Alemanha e da França tem cantos tímidos e apoios poucos carismáticos durante os jogos de seus países, considerados potências por títulos e pelo poderio de seu time atual, outras torcidas se destacam, não por sua história no futebol antigo, mas por sua presença vibrante, cantos únicos e a alegria de estarem vivendo o maior evento esportivo do mundo.
Os congoleses trouxeram uma tradição a campo: Michel Kuka Mboladinga, que ficou conhecido por representar Patrice Lumumba, líder da independência da República Democrática do Congo, chegou no segundo jogo da fase de grupos e viu seu país fazer história pontuando na competição. Os noruegueses remaram a classificação, em um gesto que lembrava os vikings de sua terra, unindo jogadores e torcida em um só movimento.
A coisa fica mais divertida quando o Brasil entra na brincadeira. O país com mais tradição em copas do mundo é historicamente apoiado por países menos afinidade com o esporte, como Jamaica e Paquistão, mas nessa copa o inverso também acontece e nós, brasileiros, não contentes em passar nervoso assistindo os jogos da própria seleção, também nos envolvemos emocionalmente e esteticamente com as torcidas menos tradicionais.
Essa união do “terceiro mundo” pouco tem a ver com futebol, já que As zebras e azarões da copa do mundo costumam ser seleções de países com histórico de colonização, assim como nós, e com marcas sociais, políticas e econômicas diretamente ligadas à essa condição. Torcer pelo mais fraco até pode ser algo comum em alguns momentos (hoje, com as bets, cada vez menos), mas não consigo ver outro forte motivo para justificar essa união terceiro-mundista.
O resultado? Memes, camisas trocadas entre torcedores de diferentes países e hinos cantados a plenos pulmões por pessoas que dificilmente conseguiriam manter uma conversa, já que falam idiomas muito diferentes entre si. A união que o futebol proporciona vai além das linhas do campo e ressoam bem forte na caixa do peito de cada um que ama esse esporte.

Grandes marcas olham para a Copa como uma vitrine de produtos
Outra grande competição nessa Copa é para ver qual fornecedora de material esportivo tem os kits mais fresh, não só no momento do jogo. Coletivas, viagens, pré e pós partida, todos viraram lugares para jogadores e comissão técnica apresentarem kits novos, quase todos os dias. Nike e Jordan, por exemplo, viram na seleção brasileira uma oportunidade de soltar produtos novos quase em todos os momentos: só de treino, são dois kits; no jogo contra o Haiti, apresentaram um casaco novo; fizeram um Nike Shox especial para as viagens da seleção; e muitos outros itens que não se limitam só as chuteiras e camisas.
Se o Brasil colaborou com a Jordan, Nigeria teve collab com a Slawn, Holanda com a Patta e a Inglaterra com a Palace. Esses são só exemplos, mostrando que a Nike está trazendo sua veia streetwear pra dentro da Copa do Mundo também.




Nike e suas várias collabs para as seleções da Copa
A Puma, por sua vez, trouxe mais uma colaboração com o KidSuper, agora na chuteira especial que o Neymar usara em campo pelo terceiro jogo da fase de grupos do Brasil, contra a Escócia. A adidas trouxe uma coleção com a Chavarria para o time mexicano de futebol.
No período pré-Copa, quem é fã de moda se deliciou com as fotos dos jogadores desfilando pelos aeroportos com suas bolsas de grife, malas de viagem assinadas e looks que foram do streetwear à alta-costura. Isso era algo mais comum em outros esportes como o basquete da NBA, mas agora os boleiros também têm stylist e precisam andar na estica. Legal que dá espaço para mostrarem um pouco do seu estilo pessoal.
Outro uniforme que não é o de jogo e nem os de treino, são as roupas sociais de cada federação que, por mais institucionais que sejam, também carregam muito da estética e cultura de cada país. Alguns, inclusive, são assinados por grifes e designers locais. A Hugo Boss assinou os kits dos Estados Unidos, Loewe os da Espanha, mas quem brilhou mesmo foram as seleções africanas, principalmente a República Democrática do Congo e a Costa do Marfim. Enquanto geral decidiu apostar em ternos que se tirar o logo ninguém sabe de quem é, os caras apostaram em cores, estampas e modelagens muito próprias. Até broche especial rolou, pra se ter uma ideia. Brabos demais.
Outro item que teve um grande destaque nas viagens das seleções foram as bolsas de mão. De variados tamanhos e marcas, tivemos Cristiano Ronaldo de Gucci, Kylian Mbappé de Dior, Noah Lang e David Alaba de Hermes, Vini Jr. de Chrome Hearts e por aí vai. Estilo, personalidade e, claro, uma demonstração de poder financeiro pessoal além do que cada material esportivo propõe.




Exclusividade, estilo e poder nas bolsas de viagem (fotos: Vogue, Getty Images e REUTERS)