A CENA.art quer fazer a internet ser legal de novo
Uma plataforma 100% brasileira, focada em arte e cultura, que não quer te deixar viciado. Parece um sonho?
Sabe aquela sensação de que a internet deu o que tinha que dar e já está tudo saturado? Para quem trabalha com arte e depende das redes sociais e sua constante exigência por novos formatos e engajamento, essa sensação é ainda maior. A ferramenta que deveria servir como portfólio ou canal de conexão com a comunidade, hoje reduz arte a objeto para ganhar atenção e tempo de tela, que é cada vez mais disputado. Nesse contexto de algoritmos confusos e desleais, só o independente pode fazer diferente, e um desses respiros nasceu por meio da CENA.art, uma rede social brasileira focada em arte e cultura, e que tenta subverter a lógica das big techs.
A história começa com o SELO Coletivo, projeto que já existe há cinco anos e atua na democratização e acessibilidade do mercado de arte. Agora, esse time mega enxuto decidiu dar um salto maior e criar a CENA.art para se livrar das amarras do algoritmo. Para entender um pouco mais sobre a ferramenta, objetivos e tamanho da empreitada, troquei uma ideia com João Cantarella, um dos criadores e porta-voz dessas plataformas.
Antes de comprar essa briga, João e sua sócia, Beatriz, passaram alguns anos entendendo as dores e burocracias dos artistas independentes. Formado em artes visuais, João uniu esses dois mundos para criar uma ponte entre quem produz e quem consome. Assim nasceu o O SELO Coletivo.
“Como eu não sou um artista muito bom, acabei vendendo o trabalho dos meus amigos, né? Tinha que ter alguém organizado pra fazer isso pela galera.”

Hoje a operação do SELO trabalha com cerca de 65 artistas que fazem parte do catálogo curado da plataforma. A empresa pega pra si a parte chata, operando por demanda e cuidando da produção, emolduração, embalagem, envio e atendimento ao cliente. João resume bem a ideia: “deixar o artista fazendo a arte, que é o principal, e a gente fazendo essa parte mais chata de distribuição”. Assim, o criador recebe os royalties, tranquilo no ateliê, sem precisar lidar com as dores de cabeça logísticas de trocas ou problemas de envio.
Em cinco anos, o SELO vendeu mais de 10 mil obras e realizou mais de 20 exposições. Apesar disso, o modelo baseado em curadoria limitava o acesso, indo, em alguma medida, na contramão do desejo inicial de promover a coletividade. Para superar essa barreira, decidiram criar uma nova plataforma, muito mais abrangente.
"Eu sempre tive essa preocupação de agregar o máximo de pessoas possível porque, pra mim, essa é a solução. A arte tem que unir mais do que separar. Só que aí você cai numa encruzilhada quando trabalha com curadoria. Porque, se existe uma curadoria, existe uma seleção. Em algum momento eu pensei que poderíamos agregar mais pessoas aos projetos."
Criar uma rede social do zero, ainda mais hoje em dia, parece uma tarefa de Davi contra Golias, como o próprio João brinca. Mas a motivação não é dominar o mundo ou fazer uma parada que atinja um público tão gigante, e sim criar um refúgio.


Exposição SELO Coletivo | Fotos: SELO Coletivo / Fábio Ayrosa
Para quem usa minimamente as redes sociais sabe que elas funcionam numa lógica doentia de busca por engajamento que consome todo mundo, fora que a boa performance de um post não depende da qualidade dele. Tem toda uma engenharia por trás do sucesso por lá. Para a arte então, que precisa de um tempo para ser consumida, esse tipo de ambiente não faz o menor sentido. Ao invés de ajudar, rola uma disputa entre as redes sociais e artistas que tentam utilizá-la para potencializar seus trabalhos.
"A gente quer construir uma plataforma onde os números não sejam a coisa mais importante, mas sim a forma como a pessoa está se expressando. Quando você está nas outras plataformas, a sua arte está concorrendo com foto de praia, futebol, briga de trânsito... fica tudo misturado. A gente queria criar um ambiente mais puro, pensado para as pessoas apresentarem seus trabalhos artísticos."
O primeiro post da plataforma não foi uma provocação, mas funcionou bem e bateu legal em muita gente. A CENA.art "Não foi criada por nenhum bilionário nem BigTech. É nós, mano. A gente é uma equipe de cinco, seis pessoas competindo com uma galera que tem bilhões e bilhões". O lema não oficial do projeto resume bem esse sentimento: “tentar fazer a internet ser legal de novo”. Parece utópico, e falamos sobre como era legal acessar a internet há dez, quinze, vintes anos.



O primeiro post da CENA.art, que viralizou no Instagram
A resposta mostrou que existe demanda. Quando começaram a definir as primeiras metas, a ideia foi compartilhada com amigos e artistas próximos, para que em um ano alcançassem a marca de 3000 usuários. Depois do primeiro post, o resultado foi alcançado em dois dias.
"A gente fez aquele post e, em dez horas, já tinha alcançado milhões de pessoas. Ultrapassou tudo o que a gente imaginava."
Para mim não tem muito segredo: tem muita gente cansada com a forma que nos acostumamos a usar as redes sociais e que sabe que apoiar iniciativas contrárias a isso é fundamental. A CENA.art foi pensada para fugir da obrigação de um celular e incentiva o uso no computador, até para facilitar a visualização de obras horizontais, por exemplo. Vamos combinar, é um saco assistir um vídeo ou ver uma foto pela telinha hoje em dia. E para garantir a sustentabilidade, o ecossistema se organiza em três tipos de perfis:
- Perfil Gratuito (Curador): O usuário comum que pode navegar, criar pastas de referências e montar sua própria curadoria. Eles pretendem que, no futuro, essa curadoria seja gamificada e monetizada. Por exemplo, se uma venda for realizada pela seleção de um curador, ele ganha estrelas que poderão ser trocadas por dinheiro ou cupons dentro do site.
- Perfil de Artista: Existe uma taxa administrativa para que o artista ganhe o direito de subir um portfólio completo, documentar processo criativo e abrir sua própria loja. O valor da assinatura é revertido integralmente para cobrir custos de armazenamento de servidores e anúncios para atrair novos usuários e compradores para a plataforma.
- Perfil de Marcas: Focado no universo do design, mobiliário e acessórios de casa.
Comento que se estamos falando de arte hoje em dia, não dá para escapar do tema “Inteligência Artificial Generativa nas artes”. O legal é ouvir que tanto para a CENA.art, quanto para o SELO Coletivo, esse boom da I.A. reforçou o valor da arte humana. Essa banalização da imagem gerada por prompt tem valorizado o trabalho manual, o erro e o traço autoral. Coisa que já falamos por aqui, inclusive.
"Muita gente achava que a inteligência artificial seria o nosso calcanhar de Aquiles. No fim das contas, fortaleceu o nosso discurso. A I.A. acabou tornando o processo artístico ainda mais raro. Se hoje qualquer pessoa aperta um botão e gera uma imagem, imagina o valor de quem faz aquilo na mão, na unha. O trabalho artístico ficou ainda mais precioso."









Sobre os próximos passos, a equipe ainda está bem pé no chão, mesmo batendo a meta de um ano tão rápido. No final do dia, o objetivo é garantir uma boa experiência para quem já está e para quem entrar.
"A nossa maior meta é que quem estiver usando tenha uma boa experiência. Seja com 200, 50 mil ou 100 mil usuários. O que importa é que quem esteja lá goste de estar ali e se divirta usando a plataforma. Se isso acontecer, o crescimento vem como consequência. A gente está muito mais preocupado em oferecer um bom serviço do que em correr atrás de números."
Para alguém que, como eu, tem assistido em tempo real essa pasteurização da internet, é animador ver iniciativas como a da CENA.art. No final do dia, é tipo oferecer uma casa limpa e disponível para que outras pessoas possam se expressar livremente e sem os vícios do algoritmo. Tem gente que escolhe criar imagem com um clique, tem quem prefere fazer tudo na unha, e a CENA escolheu ajudar quem tá no segundo caminho. Se a meta é "fazer a internet ser legal de novo", temos um novo espaço para tentar isso de verdade.
