A virada de chave de OGermano
Novo disco do rapper carioca mistura o boombap novaiorquino com o samba em rimas e produções afiadas
VIRADA DE CHAVE é o mais novo disco de OGermano, rapper original do Andaraí, Zona Norte do Rio de Janeiro, lançado no começo do mês passado pela OGEF Records. O projeto chega dois anos depois do seu álbum de estreia, As Crônicas De Um Neguin, e conta com rimas e batidas do próprio Germano, além de colaborações com Aori, LEALL, Luiz Barata, Douglas Lemos, Matchola, Pedro Mizutani, Jenni Rocha e $amuka.
Com uma trajetória em ascensão no rap underground nacional, OGermano explora, nesse novo disco, a mistura do boombap novaiorquino com o samba – trilhando novos caminhos sonoros sem abrir mão das características que vêm compondo a sua identidade artística nos últimos anos.
O estilo divertido e descontraído de OGermanin – alterego que aparece com o tapa olho e representa uma versão nostálgica do artista, que reflete sobre as vivências enquanto menino no subúrbio carioca no começo dos anos 2000 – divide o espaço com rimas mais sérias e introspectivas de um Germano maduro e em evolução, em faixas que exploram aquela mistura de gêneros de maneira múltipla e criativa.

Ao longo dos últimos anos, OGermano tem construído a OGEF Records – gravadora criada no começo da sua carreira que acabou ganhando reconhecimento e se popularizando enquanto marca, e que agora retoma o seu papel na música com VIRADA DE CHAVE, segundo lançamento do selo, vindo na sequência de ZERO BALA, de Matchola.
Trocamos uma ideia com o Germano – que segue na íntegra – para entender mais sobre essa mistura do rap com o samba, num papo sobre música, trajetória, games e amadurecimento.
A gente pode começar falando sobre o desenvolvimento do disco – quais foram as principais referências e processos para o nascimento de VIRADA DE CHAVE?
O disco tem muitas referências que eu já vinha trazendo no meu primeiro disco – As Crônicas De Um Neguin –, de um hip hop bem novaiorquino, o famoso boombap. Eu trouxe bastante a raiz no meu primeiro disco, e tiveram alguns outros projetos – as mixtapes – que eu segui um pouco nessa linha. No VIRADA DE CHAVE, que é o que a gente tá agora, eu queria trazer ideias diferentes, mas sem fugir dessa linha.
E aí que entra a música brasileira – a MPB, a bossa e principalmente o samba – que me jogou muito nesse universo de fazer batidas. Eu fui produzindo o disco e levando para alguns músicos – Matchola deu algumas texturas, mixou, masterizou, produziu algumas faixas – mas, em tese, eu produzi o disco todo. No processo, como sempre, escutando muito rap, principalmente novaiorquino – Q-Tip, Native Tongues, A Tribe Called Quest, Wu-Tang –, mantendo muito a raiz do último disco, e juntando com o samba.
Escutando muito o próprio Marcelo D2, não tem como negar, que é o precursor do movimento do samba com hip hop. A gente, que é do Rio de Janeiro, tem muito na nossa veia essa questão do samba, da música popular brasileira. Eu queria juntar o famoso boombap com algo do nosso cotidiano, algo brasileiro – e eu acho que o samba tava muito estampado na minha face, na minha vida.

O começo da energia do disco veio muito da minha primeira faixa com o Pedro Mizutani – ele tava vindo pro estúdio, e eu tava escutando o disco do Sérgio Mendes e Brasil 77. Eu já tava com essa ideia de fazer o boombap com samba, daí eu flipei esse sample, fiz a bateria bem embrionária e ele já veio com a ideia. Ela trouxe a energia pra eu tocar o projeto.
Essa mistura aparece com muita força na skit "VOCÊ VAI GOSTAR", na qual você lista uma série de referências do rap e que funciona como introdução para a faixa que sintetiza a identidade do álbum. O que norteia o disco conceitualmente e como ele se relaciona com esses movimentos que já exploraram essa fusão do samba com o hip hop?
O Marcelo tá trazendo muito essa ideia do Novo Samba Tradicional, que em vez do bumbo, ele tá trazendo essas baterias mais modernas, o 808. O VIRADA DE CHAVE não é um Novo Samba Tradicional – ele é bem novaiorquino mesmo, bem SP, MPC. Mesmo não tendo feito com as máquinas, eu emulei bastante na produção.
Eu não diria que o norte dele é o "novo samba" – ele é o boombap bem ‘90, ‘2000 novaiorquino, junto com o samba. Uma parada super que o Dilla ou o DOOM fariam se fossem brasileiros. O Q-Tip, por exemplo, cresceu numa família que escutava jazz pra caralho e ele era apaixonado por hip hop – o cara fez a fusão. O Dr. Dre, por exemplo, cresceu escutando funk pra caralho, e os caras fizeram o G-Funk. É um caminho que realmente é do Brasil, né, cara? A junção desses ritmos.
“MEU CORAÇÃO NÃO SENTE DOR” também foi uma das que me deu um norte pra caraca do projeto, de falar: “tô no caminho certo – dá pra amarrar o conceito da música brasileira, do samba, junto com o hip hop”. É o tipo de música que, no momento que você escuta o sample, tu já sabe que vai ser uma música foda, que vai dar pra trabalhar em algo.
E ela amarra muito bem o conceito do disco, sabe? Ela fincou, tipo: "esse é o projeto, esse é o conceito, essa é a estética". Ela tem um peso bem importante pro desenvolvimento do projeto. Eu tava seguindo muito na ideia do boombap com o samba, e ela tem essa importância de mudar um pouco, mas não fugir do conceito, sabe? De manter a visão.

As participações ajudam a expandir esse universo, com grandes nomes da cena do rap nacional – o Aori, por exemplo, que também conta com uma participação sua no último disco dele. Qual foi a importância desses feats para a construção do projeto?
Não sei se a galera tem noção da dimensão do Aori, mas ele é o criador da primeira batalha de rima do Rio de Janeiro. Ter ele no meu projeto é um peso grande. Na semana que eu lancei As Crônicas De Um Neguin, eu fiz o meu primeiro show no Iboru, e o Aori sempre acreditou bastante no projeto e botou pilha da gente fazer algo junto.
Sempre vai existir o Marcelo nisso, porque ele é o precursor desse movimento do samba com o hip hop, e não tem como deixar de falar dele. Em A Arte Do Barulho, na primeira faixa, tem o Aori, que faz o papel de apresentar o disco. Eu sempre escutei essa introdução e quis fazer uma parada parecida. Foi muito natural – aquilo ali foi de freestyle, não teve roteiro. Ele chegou no estúdio e saiu falando. Eu gravei tudo no home studio, e depois regravei todo o disco no estúdio profissional, mas esse daí não tinha como regravar, foi muito a energia do momento, freestyle. Muito foda ter essa apresentação do Aori.
Depois dele, a gente vem pro LEALL. É uma faixa que foge um pouco do conceito de samba, mas eu acho que é uma pegada importante pro disco. Eu sei da importância de ter o LEALL no disco, porque eu falo isso abertamente – pra mim, ele é, se não o melhor, um dos melhores da nossa geração. Ter esse reconhecimento dele como produtor, primeiramente, e depois como rapper, é um bagulho muito importante pra mim.
Eu tava indo muito nos shows dele, vendo como funcionava o 808, que não é algo que eu explorei muito na minha discografia até então – e que daqui pra frente eu quero explorar mais, dar uma modernizada nas minhas baterias. Até então, a minha discografia é basicamente SP1200, 404, MPC, os drumkit bem ‘80, ‘90, então essa foi a faixa que eu mais me arrisquei – como rapper e também produtor, saí um pouco da minha zona de conforto.
Ela representa essa 'virada de chave', mesmo, na sua trajetória?
Sim, cara. Sem spoiler, mas é isso. Daqui pra frente, eu penso em modernizar as minhas baterias. Não vou deixar de ter baterias orgânicas no meu trabalho, mas eu quero modernizar.
Depois a gente vai para a faixa com o Luiz Barata – que eu fiz ali por volta de 2025, mandei pra ele, ele fez o refrão e ficou na geladeira até março, que foi quando eu consegui fazer o verso. O Luiz é, pra mim, um dos maiores expoentes dessa nova geração – eu boto muita fé no trabalho dele. Moleque genial, com uma veia muito forte da MPB e que puxou esse lado do boombap. Fico muito feliz dele ter vindo no meu projeto, também. É uma faixa que eu acredito demais.
Também tem os feats da Jenni Rocha, que fez as dobras de algumas faixas – ela tem um peso forte, de ter botado essa musicalidade sinistra. Depois teve Douglas Lemos e Matchola. O Douglas é um cara do samba, muito respeitado aqui no Rio de Janeiro – ele tem esse peso cultural e essa representatividade do movimento do samba da “nova geração”. É bem o disco, né? Ter uma pessoa da raiz do samba que acredita em puxar o hip hop – é foda demais. E o Matchola fez muito bem feito essas dobras de refrão. Eu amo esse moleque, ele tá com a gente na OGEF – coproduziu comigo algumas faixas, mixou e masterizou o disco todo.
Também não posso deixar de falar dos músicos – Antônio Neves; Gabriel Duarte; Bruno Mamed, que fez sax em três faixas; a produção do Samuka e o Donny J, que é um DJ muito respeitado aqui no Rio, ele fez os riscos em quase todo o disco. Teve muito scratch no disco. Eu não produzi sozinho, é muita gente envolvida pra fazer um bagulho foda de verdade. Não tem como fazer 100% sozinho, tá ligado?
A capa ajuda bastante a enxergar esse universo todo. Qual foi a ideia por trás desse trabalho visual?
A capa vem muito da ideia do João Moura, que me trouxe muitas referências. A roupa foi feita pelo Francisco Brasil, artista plástico – aquilo é uma roupa 2D, de papelão, desenhada. A foto foi tirada pelo Yan Carpenter e complementa muito essa ideia do disco – no disco todo, eu tô conversando com o meu pai, que é um cara que sempre escutou samba. O meu irmão foi mais do hip hop, e eu decidi fazer essa fusão – essa parada da aceitação.
O tapa olho representa o meu personagem, Germanin, que é meio que a minha visão infantil da parada. Me pegou muito também pintar o fundo de verde – porque representa muito a minha infância no subúrbio. Nas casas que eu ia, tinha muito esse tom de verde em algumas paredes, não sei se é do subúrbio no geral ou se eram as casas dos parentes do meu pai.
O disco tem uma veia muito emotiva, mesmo. Como foi o começo da sua trajetória na música, e como é olhar para trás agora, com o lançamento desse disco?
Eu comecei a produzir no fim de 2017, começo de 2018, com zero intenção de botar voz – a ideia era realmente produzir e mandar as batidas pra alguns amigos. Eu acho que essa parada, de dar uma certa inovada, às vezes não bate muito bem pra quem não tá na mesma energia que você. Nesse tempo de dois anos, eu fiz uns 500 beats, e se duas pessoas rimaram, foram muitas. Eu tava fazendo muito beat – muito rap, sampleando muito.
E aí, em 2020, eu decidi começar a botar a voz. Foi o meu disco “debut”, o Mundo Virtual, que não é um disco que eu curto muito, mas eu tenho esse apego com ele porque foi o primeiro projeto que eu botei voz. Eu sempre rimei, na escola, com os amigos, mas eu não botava voz em beat. Nesse meio tempo, eu lancei a merchandise desse disco – que eu comecei a divulgar no TikTok e meio que viralizou –, e foi quando eu lancei a OGEF. Só que a galera não pegou a visão que era um merch, e começou a ver a OGEF como marca.
E a OGEF sempre existiu enquanto selo?
Sempre foi OGEF Records – esse disco já saiu pelo selo. Só que eu fui divulgar a merch do disco, o TikTok tava no começo e viralizou absurdo. E aí eu também não fui bobo e segui mais nessa ideia de marca, mas eu nunca deixei de produzir, nunca deixei de lançar as paradas. Depois de três anos trabalhando na marca, lançando bastante drop, eu tava lançando alguns singles, mas sem muita direção.


Em 2023, tudo mudou. Eu tava no YouTube e comecei a escutar a música de um moleque, um tal de Caio Ocean. Era um menor que estudava na minha escola, bem mais novo que eu – eu falei: "cara, não é possível que seja esse menor". Ele já tinha vários sons que tavam estourando, e eu puxei ele pra OGEF e comecei a produzir muita coisa pra ele. Acabou que nunca saiu, mas foi a maior escola pra mim. É muito foda essa parada que tá rolando, porque eu já tava vendo o Puma e o Sono, mas muda muito quando tu vê alguém de perto dando certo, sabe?
Eu lancei umas paradas, comecei a ter um pouco de relevância no cenário e a galera começou a fazer o link da OGEF com as músicas. Do nada, um moleque baiano me mandou uma mensagem falando que as minhas músicas tavam foda – esse moleque era o Matchola. Ele tinha 300 ouvintes e eu fui escutar a discografia dele. Eu trouxe ele pro Rio, e a gente fez Caça & Recompensa. Ele voltou pra Bahia e trabalhou em ZERO BALA, que foi quando o selo, de fato, virou concreto – foi o primeiro disco distribuído pela OGEF Records, oficialmente. E o segundo é o VIRADA DE CHAVE.

Um bagulho que eu falo muito pros meus parceiros é que, quando você tá trabalhando num projeto, independente de qual seja, tu tem que pensar em tu com 50 anos olhar pra trás assim e falar: “aquilo representa muito aquele momento que eu tava vivendo e é foda". Eu sinto um pouco de medo, quando eu tô trabalhando num projeto, de olhar para trás e sentir vergonha. Com a minha discografia, eu olho pra trás e sinto orgulho para caralho – VIRADA DE CHAVE não vai ser diferente.
Eu quero ter orgulho disso. Eu quero que minha filha, meu filho, meu neto, vejam com orgulho as paradas que eu faço. Olhar pra trás, pra mim, é isso – orgulho. Tenho orgulho pra caralho do que tô construindo até então.
Você fala bastante sobre ser nerd, e existe uma interseção muito grande do universo nerd com o hip hop. Como você enxerga a relação entre esses dois universos? O que significa ser nerd, pra você?
Hoje existe nerd de vários nichos, né? Eu venho de uma geração em que o nerd era o cara que tirava nota boa e era viciado em jogo e, talvez, quadrinho. A minha escola foram os games, pra caralho – foi isso que me apresentou muito pro hip hop, também. Quando eu entrei no mundo dos games, jogando muito NBA, AND 1 Streetball, Need for Speed, os bagulhos de gringo, eu comecei a pegar a visão da música – mas meio que foda-se ao mesmo tempo. Eu comecei a ficar nerd de música mais velho, e falo isso com tranquilidade.
Eu tenho um irmão mais velho, então eu sempre escutei muito hip hop por conta dele, mas o meu bagulho eram os games. E eu falo isso com orgulho – peguei a Golden Era de ‘90, 2000. Peguei o Super Nintendo, Nintendinho, joguei 007 Goldeneye, todos do Mario, joguei tudo. Meu pai me deu, em 2008, o PS3 – joguei The Last of Us, God of War, muito FIFA, NBA, Modern Warfare. Mas tudo muito casual. E o interessante disso tudo é que o background era sempre um rap – cada game tem uma trilha sonora ao fundo, e eu lembro vividamente de qual disco eu tava ouvindo. Mais velho eu fui entendendo.
E foi esse universo que te levou à produzir? Quando você chegou no PC e começou a fazer beats?
A história é doida, e trágica. Era 2013, os meus pais saíram pro mercado, eu saí correndo do banheiro molhado e escorreguei na tomada do PlayStation – e ele queimou. Eu venho de uma geração que as coisas eram mais difíceis, e sempre dava merda.
Aí eu não queria mais ver videogame, me dediquei aos estudos, virei uma pessoa melhor. Nesse ano, meus pais ficaram muito felizes comigo, só tirei notão. Tinha um computador lá em casa, e eu comecei a fuçar – foi quando eu fui introduzido no YouTube. Comecei no Windows Movie Maker, Cinema 4D, comecei a jogar Minecraft, a fazer arte no PhotoShop, editar no Vegas, Premiere. Depois de um tempo, eu falei: "será que consigo aprender a fazer isso na música também?” Baixei o FL tarde, em 2017, e comecei a produzir.

E quando foi o momento que você passou a querer se ouvir rimando? O processo de se ouvir deve ser mais difícil do que fazer um beat, né?
Pra caralho. Quando eu lancei “Amigos Que Eu Nem Queria" foi quando eu acho que encontrei a minha sonoridade. Foram três anos entendendo como eu usaria a minha voz, e nessa faixa eu entendi, não como eu devia produzir, mas como as pessoas iriam digerir melhor a minha produção – e eu encontrei a forma de usar a minha voz nisso. Hoje, a galera me caracteriza um pouco como experimental – eu não sei se eu me vejo tanto dessa forma, mas eu acho que era super experimental, antes.
Esse primeiro mês do disco tem sido muito legal – a forma que tá chegando, organicamente, o projeto. Muito legal ver pessoas novas chegando, abraçando, pessoas da antiga recebendo. Ver o público recebendo também tá sendo muito gratificante. Eu fiz o show no Circo Voador com o Matchola e a galera já tava cantando as faixas. É gratificante, mesmo, ver a galera abraçando.
Ainda mais depois dessa trajetória de rejeição, da galera não rimar nos beats, não dar o valor do projeto, de sempre ver de forma estranha. Eu sempre quis fazer uma parada que eu gostaria muito de ouvir e de ver alguém fazendo – então eu tô fazendo isso.
É um processo, pra me entender como voz, como produtor, como imagem – eu uso o tapa olho, tem toda essa parada do alterego, do visual, das eras. A galera consegue entender bem que As Crônicas era uma parada, e o VIRADA, agora, já é outra – e o próximo, eu já penso em fazer tipo a morte do Germanin, algo assim. Então é isso aí. Saudades do meu Play 3, cara.
Ouça VIRADA DE CHAVE, já disponível nas plataformas digitais