Hipgnosis: o estúdio que transformou capas de disco em parte da obra

Entre surrealismo, fotografia, design e obsessão pelos detalhes, o coletivo britânico expandiu universos sonoros em imagens

Hipgnosis: o estúdio que transformou capas de disco em parte da obra
O porco inflável e a capa expandida de Animals do Pink Floyd (1976)

É difícil olhar para uma capa clássica do Pink Floyd hoje sem pensar que ela nasceu num mundo completamente diferente. Um mundo em que parte da experiência de ouvir música era também passar um tempo imerso com um objeto físico em mãos. O disco ficava na sala, no quarto, jogado sobre a cama. Você ficava viajando nas imagens e nos detalhes da capa enquanto a agulha percorria os sulcos do vinil e, muitas vezes, era impactado pela força dessas artes antes mesmo de ser impactado pelas músicas e letras. E, se você estivesse sob o efeito de alguma substância, daí a viagem era ainda mais profunda.

Foi nesse contexto que surgiu o Hipgnosis, coletivo de design criado em Londres por Storm Thorgerson e Aubrey Powell no fim dos anos 1960 e que anos mais tarde agregou seu terceiro elemento, Peter Christopherson. Talvez seja impossível contar a história deles sem falar primeiro sobre esse momento. Porque o que estava acontecendo ali não era só uma transformação na música. Bandas e artistas começavam a pensar seus discos como obras completas, capazes de criar atmosferas, personagens, símbolos. Uma forma própria de ver o mundo e de se colocar nele.

O trio Hipgnosis analisa teste de capa do 10cc

O fato é que essa galera do Hipgnosis estava dentro desse universo desde o começo. Conheceram integrantes do Pink Floyd ainda na universidade e cresceram ao lado de músicos em uma época em que desafiar o estabelecido era necessário. A música daquele período não era só música, era manifesto, era transgressão, era ritual. E foi justamente nesse contexto que o Hipgnosis encontrou um terreno fértil para criar.

Pink Floyd "Atom Heart Mother" lançado em 1970

Suas capas raramente funcionavam como ilustrações da música. Em vez de traduzir letras ou explicar conceitos, elas criavam novas camadas para o que já estava acontecendo dentro do disco. Ao invés de um retrato da banda, uma vaca malhada ocupando toda a capa de um álbum. Um homem em chamas apertando a mão de outro executivo na frente de um estúdio de cinema. Crianças peladas escalando uma formação rochosa. Um porco inflável voando sobre uma zona industrial. As imagens pareciam vir de um lugar distópico, nasciam do inconformismo, do absurdo. E o mais curioso é que quase tudo ali era construído de verdade.

Pink Floyd "Wish You Were Here", de 1975

Hoje é difícil não olhar para essas capas pensando em quanto Photoshop (ou mais recentemente, IA) teria sido usado. A resposta é simples: nenhum, até porque a primeira versão da ferramenta da Adobe só seria lançada em 1987. Então, se a ideia envolvia atravessar um deserto, alguém atravessava um deserto. Se exigia uma locação remota, a equipe viajava. E se a cena pedia um homem pegando fogo, eles encontravam uma maneira de tacar fogo em alguém diante da câmera (reza a lenda que o dublê perdeu uma sombrancelha e parte do bigode nessa brincadeira).

Talvez isso explique por que tantas dessas imagens continuam funcionando décadas depois. Você olha e pensa: pera, isso é real. Aquela pessoa tava mesmo lá, no calor, no meio do nada, esperando a luz ficar boa. Não importa o quão absurda seja a situação. A luz é real. O cenário é real. O vento que atravessa algumas fotos também é. Dá pra perceber.

The Dark Side of the Moon do Pink Floyd (1973), uma das capas mais icônicas da história

A capa de The Dark Side of the Moon acabou virando o símbolo máximo dessa trajetória. O prisma com o feixe de luz é tão conhecido que parece ter escapado da história do disco pra ganhar vida própria. Mas, curiosamente, ela diz pouco sobre o conjunto da obra do Hipgnosis. Enquanto aquela imagem aposta na simplicidade, boa parte do trabalho deles era movida por uma vontade constante de transformar ideias improváveis em cenas concretas. Quase o oposto.

Ao longo dos anos 1970 e início dos 1980, produziram capas icônicas para Pink Floyd, Led Zeppelin, Black Sabbath, AC/DC, Peter Gabriel, 10cc e uma longa lista de artistas fundamentais daquele período. O legado não está só na quantidade de clássicos acumulados. Está no fato de que muitas das relações que hoje consideramos naturais entre música e imagem ainda estavam sendo construídas ali naquele momento.

Quando vemos um artista cercado por uma identidade visual consistente, um universo próprio, uma estética reconhecível à primeira vista, existe uma boa chance de que parte dessa lógica tenha sido moldada naquele momento. O Hipgnosis não inventou essa linguagem sozinho, mas ajudou a empurrá-la com uma liberdade difícil de imaginar dentro da indústria fonográfica atual.

Muitas dessas capas criadas lá atrás nos longínquos anos 1970, por algum motivo, cinquenta anos depois de lançadas, ainda incomodam, fazem você parar e tentar entender o que está vendo, e nem sempre oferecem uma resposta.

E provavelmente essa sempre foi a ideia.

A polêmica capa de House of the Holy (1973), do Led Zeppelin

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