João Carlos Cauduro moldou a paisagem de São Paulo

Arquiteto e Designer Gráfico é responsável pela identidade visual de muito do que define a capital paulista

João Carlos Cauduro moldou a paisagem de São Paulo
Foto: Paulo Liebert/Estadão

Quem mora na cidade de São Paulo é bombardeado de informações visuais o tempo todo, ao ponto de ter dificuldade em filtrar o que realmente carrega informação de verdade. João Carlos Cauduro (1935 - 2023) é um desses caras responsáveis por criar coisas tão ligadas ao nosso cotidiano e, ao mesmo tempo, tão invisíveis, que pode não receber os devidos créditos pelo que produziu. Ao cruzar a formação em arquitetura com a prática em projetos gráficos, ele ajudou a desenhar boa parte da paisagem da metrópole durante o século XX, e da modernidade brasileira, principalmente a partir dos anos 1960.

Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), onde ingressou em meados da década de 1950, Cauduro fez daquele espaço seu lugar de formação intelectual, de construção de carreira, pesquisa e de agência também. Na época, a arquitetura era vista como uma responsabilidade social, e o arquiteto, como um intelectual com papel organizacional na vida humana. É importante lembrar também que o país passava por uma forte política desenvolvimentista, e que tinha na industrialização e na modernização infraestrutural das cidades, suas principais bandeiras.

Foi nesse caldeirão que Cauduro desenvolveu uma visão que carregaria para o resto de sua vida: ele gostava de enxergar o design gráfico como um possível desdobramento lógico e funcional da arquitetura. O papel em branco era o terreno, a tipografia era a estrutura, e as cores, os materiais de revestimento.

Outro ponto muito importante e, de certa forma, básico para as concepções estéticas de Cauduro, é que ele tratava os projetos em que trabalhava como resposta para necessidades práticas, ou seja, era o design como resolução de problemas, sejam eles de legibilidade, circulação ou representação institucional. Então os desenhos focavam na clareza, sem deixar o senso estético de lado. Ao se formar em 1960, o arquiteto se viu pronto para colocar em prática a sensibilidade desenvolvida.

Foto: Paulo Liebert/Estadão

Ao olhar para alguns dos seus trabalhos mais conhecidos, dá pra perceber que existia ali um perfil funcionalista, que bebia muito da Escola de Ulm (sucessora da Bauhaus), mas também rolava uma compreensão de que a identidade visual era instrumento de organização e de construção de memória afetiva. Os desenhos que produziu, estavam em contato direto com o modernismo brasileiro e com uma vanguarda das tipografias. Tudo junto e misturado, fez seu trabalho atravessar gerações, tanto nas entregas corporativas, como nas institucionais.

A produção de Cauduro inclui identidades visuais, sinalização e projetos para empresas e organizações de variados setores. Entre os nomes e marcas com que se associou, figuram desde bancos e empresas de engenharia até instituições culturais e projetos urbanos. Sua obra mais conhecida provavelmente é a identidade visual e sinalização do Metrô de São Paulo, entregue no final dos anos 1960, assinado por ele e por seu parceiro de escritório, Ludovico Martino.

Para quem pega o Metrô todos os dias em São Paulo, pode parecer banal o logo, as fontes, cores e afins, mas a magnitude do projeto, quando se olha com calma, é impressionante. Primeiro que a ideia de andar no subsolo dentro de uma caixa de metal em alta velocidade não era uma ideia tão comum na cabeça dos trabalhadores. Ou seja, o desafio não era só entregar algumas placas bonitas, já que o sistema precisava transmitir segurança, tecnologia e clareza para o fluxo de pessoas. O design era ferramenta de gestão comportamental.

As duas setas contrapostas são geniais justamente por serem simples: você vai e vem. Geometria rígida mas com movimento, fluidez, é a essência do sistema. Já na tipografia, a queridinha entre os admiradores do design modernista europeu, Helvética foi a escolhida para dar leitura fácil, mesmo quando lida em movimento.

Um trunfo criado por Cauduro para o sistema de Metrô em São Paulo, foi o de ambientação e orientação por cores, que complementava as setas e textos. Na época, a execução considerava as duas primeiras linhas (Azul e Vermelha), e o objetivo era o de que qualquer cidadão, independente do grau de instrução, pudesse navegar de boas pelos túneis. O projeto é um exemplo perfeito dessa visão conectada entre arquitetura e design gráfico, apagando a fronteira que poderia existir entre as duas disciplinas. 

Outro trabalho icônico, que pode passar batido, é o da TV Cultura, que pode ter várias interpretações, mas no fim visava humanizar a produção do canal que acabava de ser comprado pelo Governo do Estado de São Paulo. A Fundação Padre Anchieta foi criada e um conselho de representantes da educação e da cultura ficou responsável pela programação do canal.

Durante muitos anos, eu diria que até hoje na real, a TV Cultura foi sinônimo de programação plural. Entrevistas, debates, esporte, música, artes visuais, tudo sempre levado muito a sério. A programação infantil também é conhecida de muitas gerações, seja pelas animações, a edição brasileira de Vila Sésamo, e pelas produções próprias como Cocoricó e Castelo Rá-Tim-Bum. Cito todos esses programas para lembrar que o logo parece fazer muito sentido dentro de cada um dos temas, até porque, no fim é sobre gente.

Eu poderia ficar escrevendo por uma semana para listar todos os trabalhos que Cauduro contribuiu de alguma forma: Banco Banespa, Sinalização da Avenida Paulista, Zoológico de São Paulo, Banco do Brasil, Playcenter (!!!), Sebrae, entre outras.

Essa versatilidade, de trabalhar para empresas industriais, instituições financeiras, parques de diversão e organizações culturais, exige um repertório muito grande. Criar sinais gráficos capazes de traduzir valores tão diferentes entre si, sintetizar e entregar algo que é legível, aplicável em suportes e memorável, é impressionante.

Cauduro ainda atuou como docente na FAU-USP e também ficou conhecido por transmitir questões mais subjetivas como a importância do rigor analítico, estudo de necessidades do cliente e do público, responsabilidade social e ética. São vários elementos que juntos só contribuem para um legado que ainda é muito vivo. Até a idade avançada ele participou de bancas, seminários, projetos de extensão e ajudou a articular a FAU com o mercado e com políticas públicas.

O legado de João Carlos Cauduro se manifesta em várias frentes, mas acredito que a principal realmente seja na produção material, nas identidades visuais, sinalizações e peças que compõem a paisagem de São Paulo e de outras localidades. Em alguns casos, esses trabalhos funcionam como marcas de uma época, daquele espírito de modernização, mas em outros continuam presentes, em uso e atuais.

Em uma época em que a cultura visual é onipresente e identidades visuais são produzidas em massa via Inteligência Artificial, revisitar a obra de Cauduro tem utilidades práticas. Além disso, o repertório formal que Cauduro ajudou a consolidar ainda alimenta a sensibilidade visual contemporânea: tipografias, grids e estratégias de identidade continuam a ser referências para quem pensa marca e sistema visual. Vez ou outra algum de seus projetos viraliza nas redes, apresentando seu processo para novos públicos. Cauduro é um dos grandes nomes do design brasileiro e exemplo de como a prática pode ser, ao mesmo tempo, técnica e cultural.


ISMO
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