“Virei meu lar”: THAMI transforma feridas em estrutura em RELEVURAS

No novo álbum, a cantora transforma marcas que permaneceram em música, imagem e afirmação da própria voz

“Virei meu lar”: THAMI transforma feridas em estrutura em RELEVURAS

O que acontece quando uma cicatriz deixa de ser ferida, mas continua organizando a maneira como alguém se move?

Em RELEVURAS, novo álbum de THAMI, a resposta não passa por apagar o que aconteceu, fingir que já não dói ou tratar toda experiência difícil como uma etapa obrigatória de superação. Algumas coisas permanecem. Mudam de função, ocupam outro lugar e passam a sustentar aquilo que, antes, pareciam ameaçar.

Foi dessa percepção que nasceu a palavra inventada pela cantora e compositora, apresentada ao público durante uma audição realizada no dia 4 de agosto, na Casa Pretal, em São Paulo. O disco chega às plataformas no dia 7.

“Durante muito tempo, eu olhei pras minhas experiências como feridas, como coisas que eu precisava curar, superar, deixar pra trás”, conta THAMI. “Mas, com o tempo, eu comecei a perceber que muitas dessas ‘feridas’ não tinham ido embora… Elas tinham virado estrutura.”

RELEVURAS reúne feridas e relevos em um mesmo nome. A primeira palavra carrega a dor, a segunda trata da forma adquirida por uma superfície depois de atravessada pelo tempo. Juntas, elas nos lembram que há marcas que deixam de doer, mas continuam moldando nossos contornos.

“Nenhuma palavra existente dava conta dessa ambiguidade, de algo que dói, mas também sustenta”, explica. “Eu precisava de um nome que definisse bem esse sentimento e desse conta da complexidade que isso traz.”

Cria de Nilópolis, na Baixada Fluminense, e hoje vivendo em São Paulo, THAMI chegou profissionalmente à música depois de uma longa formação que partiu do movimento. Antes de assumir o centro do palco como cantora, passou cerca de duas décadas como bailarina. A presença do corpo, portanto, não parece casual em um trabalho que a própria artista define como algo que precisa ser visto tanto quanto ouvido.

Foto: Gabryel Sampaio

Uma música que precisou ganhar corpo para ser terminada

A faixa mais difícil de concluir foi justamente a que dá nome ao álbum.

THAMI já sabia o que queria dizer, mas ainda não havia encontrado uma forma capaz de carregar a sensação de libertação que procurava. A música precisou esperar por um tempo de maturação que envolveu outras linguagens além do som.

“Esperei construir a identidade visual, fizemos o editorial, tive uma reunião com o diretor criativo, Guile Farias, de três horas, onde aprofundei muito na minha história e no que eu tava sentindo e queria passar”, relembra. “Fomos na raiz da coisa pra chegar nessa profundidade que a música pedia.”

Foto: Gabryel Sampaio

Foi apenas depois desse processo que ela conseguiu escrever a segunda parte da faixa e encerrá-la. A imagem, aqui, participa da composição. As fotos, os vídeos e a direção criativa ajudaram THAMI a compreender o que a própria música ainda precisava dizer.

“RELEVURAS não é um disco que termina na música. Ele pede imagem, corpo, textura”, afirma. “Desde cedo eu sabia que esse projeto precisava ser visto tanto quanto ouvido.”

Parte do conceito visual já acompanhava o álbum desde o início. Outras ideias foram surgindo à medida que a artista e a equipe aprofundavam as noções de camada, superfície, exposição e ocultamento presentes nas faixas.

“A gente construiu uma estética que não é sobre perfeição, é sobre camada. Sobre o que é exposto, o que é escondido, o que marca.”

A frase também ajuda a compreender o disco para além de sua identidade visual. Em RELEVURAS não há grande interesse por uma versão polida ou resolvida da própria história. THAMI parece mais disposta a observar o que ficou, inclusive aquilo que não cabe em conclusões muito limpas.

Diferentes vozes dentro da mesma história

Musicalmente, o trabalho parte do neo soul e mantém diálogo com o pop, sem abandonar a formação de THAMI dentro da black music. O álbum também amplia a experiência da cantora com colaborações, ainda pouco frequentes em sua discografia.

Em “Fiquei Assim”, lançada em fevereiro como primeiro single do projeto, a composição já estava pronta quando THAMI percebeu que a história pedia outra perspectiva.

“Eu senti a necessidade de uma segunda voz ali, dando contexto à história que tava sendo contada, e assim surgiu a ideia de mandar para o Rashid”, explica. “Pra mim, é uma das canetas mais inteligentes do rap masculino.”

A participação ajuda a construir uma narrativa de término que desloca alguns papéis frequentes no R&B. Em vez da mulher abandonada ou presa à culpa, THAMI canta a posição de quem decide partir. Rashid entra para oferecer o outro lado de uma conversa que já existia dentro da faixa.

Com Luedji Luna, a colaboração ganhou uma dimensão diferente. A relação passa menos pela necessidade narrativa de uma segunda voz e mais pelo encontro com alguém que THAMI reconhece como referência.

“Ela me toca num outro lugar. Um lugar de referência mesmo, alguém que me inspira”, diz. “Posso dizer sem medo que foi o maior presente que a música poderia ter me dado. Ter Luedji Luna dentro de uma obra minha, dividindo a composição de uma faixa, isso me emociona.”

Foto: Gabryel Sampaio

O disco também colocou a cantora em contato com produtores com quem ainda não havia trabalhado, entre eles Duda Raupp, Shimodaira e Marcelo Delamare, além de músicos responsáveis por ampliar as texturas e os arranjos das faixas.

Em “Ainda é Pouco”, segundo single do álbum, a produção de Duda Raupp foi construída à distância. A canção reúne metais ao vivo e elementos ligados à música gospel para falar da exaustão de quem tenta sustentar uma carreira independente enquanto convive com a sensação de que todo esforço ainda pode ser considerado insuficiente.

Não por acaso, a independência aparece em RELEVURAS como uma condição material. Fazer música sem uma grande estrutura por trás envolve liberdade, mas também impõe decisões que deixam de ser apenas estéticas.

Quanto custa permanecer reconhecível para si mesma?

THAMI costuma falar sobre autenticidade e sobre a recusa de adaptar sua criação à pressa dos algoritmos ou às expectativas comerciais. Em um mercado no qual “ser autêntico” também virou uma qualidade facilmente transformada em legenda, interessa entender o que essa escolha exige na prática.

Ela conta que já recebeu propostas que pareciam vantajosas no papel. Havia promessa de alcance, números, visibilidade e investimento financeiro. A contrapartida seria diminuir partes de sua identidade artística (e, segundo a cantora, aceitar até uma inversão de valores).

“Dizer ‘não’ nesses momentos não é simples. Porque você sabe do que está abrindo mão, você sabe que, de certa maneira, está fechando uma porta”, diz. “Mas, ao mesmo tempo, eu sempre senti que, se eu cedesse demais, eu perderia algo que não tem como recuperar depois. Que é a minha voz. Em todos os sentidos.”

A decisão ajuda a retirar a autenticidade do campo abstrato. Para THAMI, ela não representa apenas fidelidade a uma estética ou a um discurso, mas a disposição de recusar dinheiro e estrutura quando o preço é se tornar menos reconhecível para si mesma.

Foto: Gabryel Sampaio

“Autenticidade nunca foi um discurso bonito. Foi uma escolha prática, às vezes difícil, às vezes solitária”, resume. “Mas é o que sustenta a minha caminhada até aqui.”

A noção de sustentação reaparece. Primeiro, nas feridas que se tornaram estrutura. Depois, na voz que precisa ser protegida para que a caminhada continue. Em ambos os casos, RELEVURAS parece interessado em investigar aquilo que permite permanecer (mesmo quando permanecer exige mudança).

Um disco apresentado por camadas

Antes da chegada do álbum completo, THAMI lançou “Fiquei Assim” e “Ainda é Pouco”. As duas canções funcionaram como entradas para o universo do projeto, sem revelar todas as suas direções.

“Eu quis criar um caminho até o disco”, explica. “Elas apresentam camadas importantes do projeto, mas não entregam tudo.”

A escolha acompanha a própria lógica de RELEVURAS. Em vez de apresentar a obra como uma resposta imediata e fechada, THAMI permitiu que o público entrasse aos poucos em suas diferentes superfícies. Primeiro, pela ruptura afetiva. Depois, pelo cansaço e pela insistência de continuar criando. Agora, pelo conjunto.

O álbum também encerra um período que a artista entende menos como como fechamento de um ciclo. “A gente, quando faz um trabalho, deseja que ele seja alcançado pelas pessoas. E hoje é tudo que eu desejo. Que meu trabalho alcance as pessoas, que ele invada não só os ouvidos, mas o coração de quem escuta”, afirma.

Ao desejar que o público também reconheça suas próprias “relevuras”, THAMI não promete que a escuta eliminará as marcas ou resolverá aquilo que ainda permanece em aberto. Seu desejo é outro: que seja possível sair delas sem culpa e sem medo.

“Eu não enxergo esse disco como algo que começa. Vejo ele como um fechamento de porta, um ciclo que se encerra para que as pessoas possam seguir sem medo do fim.”

Talvez por isso o verso que melhor resume o álbum, para ela, seja: “Eu venci o tempo, só por ficar / ele passou, virei meu lar.”

A vitória, aqui, está em permanecer até conseguir habitar a própria história. A cicatriz deixa de ser apenas uma lembrança da ferida. Torna-se relevo, estrutura e parte da arquitetura de quem sobreviveu ao tempo sem precisar sair de si.

RELEVURAS, de THAMI, chega às plataformas digitais no dia 7 de agosto.

Ouça o álbum e acompanhe THAMI nas redes sociais. Enquanto o álbum não sai, você pode fazer o pré-save.


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