Como a tecnologia reescreveu a cultura da tatuagem no Brasil
Da corda de violão ao AliExpress, passando pelos tutoriais do YouTube, a cultura da tatuagem passou por mudanças que impactam quem tatua e quem é tatuado
O que muda nas culturas quando o acesso deixa de ser um obstáculo? Prometo que este não é um texto que defende o “gatekeeping”, mas, em alguma medida, culturas, principalmente as subculturas, existem e se mantêm fortes porque rola uma certa defesa das condições que a formam, e isso passa por criar algumas barreiras para quem entra em contato pela primeira vez. Na tatuagem, esses limitadores foram vários, e que aos poucos, têm caído.
Durante décadas tatuar foi sinônimo de improviso. Motor de toca-fitas, corda de violão, prestobarba derretido, fuligem de plástico queimado misturada com Novalgina e vaselina… Quem queria tatuar ou ser tatuado precisava fazer um corre absurdo. Hoje, uma pessoa de 16 anos compra uma máquina pronta no AliExpress e recebe em duas semanas, ou entra em um estúdio de porta pra rua, escolhe um flash e faz. A pergunta que começa o texto não é se isso é bom ou ruim, mas o que essa mudança fez com a cena.
Conversei com três nomes que enxergam esse processo de posições diferentes: Fabio Matias, cofundador da Corun, marca de máquinas artesanais fundada em 2013, Luiz Gordo, tatuador que constrói as próprias máquinas desde 2011 e tem raízes na tradição da jail tattoo, e Silvio Pequeno, tatuador que recentemente virou referência ao transformar sua pesquisa histórica sobre tatuagem em conteúdo. Três perspectivas que no fim deságuam em um mesmo interesse, que o de pensar como o acesso à tatuagem e essa democratização mexeram na cultura.

Antes de produzir e vender máquinas, Fabio e o sócio Bruno eram só dois caras apaixonados por tatuagem mas, como boa parte de nós, não tinham o talento para virar tatuadores. Por outro lado, eram ferramenteiros e tinham habilidades técnicas que vinham bem a calhar para esse mundo. "A gente não tinha aptidão para desenhar, mas tinha uma aptidão técnica ali de uma parada que somou e agregou em um aspecto que era necessário dentro da tattoo". Assim, se aproximaram de tatuadores e outros construtores de máquinas e começaram a Corun. É tipo o skatista que não vai pelo caminho de ser skatista profissional, mas ama tanto a parada que acaba virando um profissional do skate.
Com Luiz Gordo, a primeira máquina que construiu, em 2011, nasceu das clássicas máquinas de tattoo de cadeia. Usando motores de brinquedo, Escovas de dente moldadas com fogo e tubos de caneta, constrói máquinas de uso único e que carregam muito da história da tatuagem por trás. Antes disso, ele já tatuava desde 2006, aprendendo com um tatuador mais velho que também fabricava suas próprias máquinas, naquele esquema artesanal, de mestre para aprendiz, bem diferente dos tutoriais de YouTube atuais.
O que os dois descrevem, cada um do seu jeito, é um período em que a falta de acesso obrigava a cultura da tatuagem a se transmitir por proximidade física e relação de confiança.
"Antes eram relações humanas, aí o mundo evoluiu, viraram relações digitais de acesso a uma parada. Antes precisava passar pelo aval de um tatuador. Hoje o cara consegue uma informação básica pra ele começar." - Fabio Matias.


Fabio trabalhando nas máquinas da Corun | Fotos: arquivo Corun
Na conversa com o Fabio ele separa dois tipos de evolução que costumam ser lidos como a mesma coisa. Uma é a evolução do equipamento em si, de tecnologia manual, e a outra é a evolução do acesso a esse equipamento e à informação sobre como usá-lo, de uma tecnologia digital. Na visão dele, é a segunda que realmente mexeu com a estrutura.
A acessibilidade de informação sobre tatuagem, conhecimento histórico que antes ficava dentro dos estúdios e convenções, e do acesso aos equipamentos de boa qualidade, ajudam a explicar o crescimento e a popularidade da tatuagem no Brasil. O investimento inicial hoje é muito menor para quem quer começar, já que qualquer pessoa pode entrar na internet e trazer máquinas até de fora do país. Para quem quer ser tatuado, essa popularização também reduziu estigmas que serviam como impeditivos para quem tinha o desejo mas tinha medo de consequências.
Luiz Gordo confirma essa virada a partir da bancada de trabalho. Ele lembra da época em que as máquinas Pen, aquelas tipo caneta, leves e práticas, nem existiam, e a tatuagem era feita quase exclusivamente com bobina. Os equipamentos mais acessíveis e mais leves influenciaram no conforto, e também mudaram quem consegue tatuar e como. "Hoje, tem muitas mulheres e pessoas com mãos menores tatuando, uma máquina pesada dificulta fazer traços finos e delicados. Então o tipo de máquina definitivamente ajudou a moldar a estética da tatuagem". É uma comparação direta entre ferramenta e traço, o que também ajuda a explicar como alguns estilos de tatuagem começaram a ganhar popularidade.






As máquinas de tattoo do Gordo são entregues ao cliente depois da sessão
Se for parar pra pensar, hoje tem gente que oferece kits de tatuagem com máquinas impressas em 3D, enquanto pessoas que não curtiam a estética dos estilos clássicos da tatuagem, como os Wabori e Irezumi japoneses, ou tradicional americano, agora podem escolher praticamente o que quiserem tatuar, que vão encontrar alguém capaz de fazer.
Quando troco com o Fabio sobre identidade nacional na tatuagem, ele desconstrói, com muito cuidado, a ideia de que existe um "estilo brasileiro" fechado, mas comenta sobre uma manifestação que nem tem nome oficial, mas é muito presente nas ruas, que é a tatuagem de quebrada. "Não vejo uma coisa muito como estilo brasileiro. Mas acho que isso se expressa melhor na tattoo de quebrada. Isso aí talvez seja a representação de tattoo mais atual e presente no Brasil."
É um estilo que carrega referências de fora, do traço fino, composições que remetem a outras tradições como os “chicanos", mas que se organiza em torno de um repertório de imagens reconhecíveis nas nossas periferias, quase como uma linguagem visual coletiva. E, para o Fabio, isso está diretamente ligado à história que ele mais valoriza contar, que é a da tatuagem como ferramenta de ascensão social. "Tattoo é uma ferramenta de ascensão social sinistra, democratizada. Quantos caras da quebrada conseguiram sair, quebrar esse ciclo, sair dessa realidade social através da Tattoo?!"



Nas quebradas de São Paulo, é comum ver tattoos que remetem à dinheiro e ascensão social
Se tem um consenso entre todo mundo com quem conversei, é que o boom recente da tatuagem, impulsionado por redes sociais e, depois, pela pandemia, trouxe volume, mas não trouxe necessariamente profundidade cultural junto. Gordo dá os créditos de boa parte disso para os reality shows: "Os programas de TV transformaram a tatuagem em moda, tirando um pouco o aspecto de atitude e rebeldia. Antigamente, você se tatuava pela arte ou pela rebeldia. Depois, virou motivo para tudo." Ele também lembra que a pandemia empurrou muita gente para tatuagem como alternativa de renda em um momento de crise econômica, só que nem todo mundo estava preparado.
Esse conflito entre popularização e formação cultural é o que mais aparece no papo com Silvio Pequeno, que tem como parte do trabalho divulgar a história da tattoo. "Cheguei à conclusão de que é muito mais lógico ajudar a formar o público do que reclamar que as pessoas não valorizam a tatuagem". Para ele, a saída não é fingir que dá pra reverter o processo, mas usar as mesmas ferramentas de acesso em massa para fazer educação cultural.
"A única forma, na minha visão, de manter a cultura viva é compartilhando, não a técnica, mas as dificuldades, as limitações, o contexto e a solução dos tatuadores de 50 a 100 anos atrás pra problemas que até hoje a gente passa." - Silvio Pequeno
É praticamente o mesmo raciocínio que motivou a Corun a produzir a série documental "Histórias da Tattoo.doc", que registra relatos de tatuadores mais velhos antes que essas vivências se percam. Fabio conta sobre um dos episódios: "O Stoppa hoje é finado. Seis meses depois da gente gravar aquele material com ele, veio a pandemia. Ele faleceu durante a pandemia. Se não tem aquilo, o que que você ia escutar da boca do Stoppa?" Esse tipo de registro é o oposto da lógica de mercado que trata a cena só como número, já que são as vozes de várias pessoas admiráveis, independente de terem 10 ou 20 anos de carreira.
Silvio também não curte a nostalgia barata de quem sonha com uma volta ao underground puro. "Eu vejo muitos comentários nos meus vídeos sobre a tatuagem voltar a ser underground e eu acho isso muito utópico. Eu acho que ela vai voltar como algo novo". Ele reconhece que o público de hoje é mais informado e, por consequência, mais exigente, o que força os tatuadores a subirem o nível do próprio trampo.
No fim, os três com quem conversei caminham para uma ideia que talvez seja o verdadeiro núcleo dessa discussão, que mostrar que o valor da tatuagem nunca esteve só no desenho. Fabio resume assim: "o que agrega valor no trampo do tatuador é o tatuador. As vivências, o que ele consegue transmitir na arte, porque a gente tá falando de algo que é até meio subjetivo." Luiz Gordo leva essa ideia pro território pessoal, comparando a experiência de fazer uma tatuagem artesanal com a de admirar uma obra original: "É como ter um quadro do Van Gogh… a arte é bonita, mas você também quer um pedaço do momento e da experiência do artista. A vivência sempre conta mais do que tatuar com o 'melhor tatuador do mundo'. A tatuagem acaba funcionando como um autógrafo raro."
Já Silvio amplia essa discussão para o ecossistema como um todo: "Eu acho incrível quando estúdios se unem pra organizar feiras e eventos. Juntar em um só lugar o curioso, o apaixonado, o que só tem uma tatuagem, aquele que já não tem mais espaço no corpo, fomenta, principalmente a ideia de pertencimento, de comunidade. Tenho essa ideia fixa de que a união ainda é o melhor caminho pra todo mundo. Especificamente sobre marcas, eu acho bem-vindo quando essas são feitas por tatuadores, e por mais que a gente viva num sistema capitalista, não sejam orientadas somente a tirar da tatuagem e sim dar de volta pra ela. No fim das contas é de interesse coletivo circular a cultura da tatuagem e fortalecer a base pra que no futuro a gente esteja mais preparado pra uma nova crise."
É uma visão que anda junto com a do Fabio sobre o compromisso da Corun com conteúdo educativo, mesmo sem retorno financeiro direto, e com a preocupação de Gordo sobre o que a inteligência artificial e a fabricação em massa tiram da equação quando substituem o processo manual: "Projetar algo que está na sua cabeça e desenhar à mão traz uma satisfação muito maior do que pegar algo pronto."
A tecnologia não é vilã nessa história, e nenhum dos três trata ela assim. Ela resolveu o problema de que por muito tempo, tatuar bem dependia de sorte, contato e improviso. Mas resolver o acesso não resolveu a transmissão de cultura. Essa parte continua sendo trabalho manual, feito pessoa a pessoa, vídeo a vídeo, máquina a máquina. Como resume Silvio: "só resta uma união coletiva da classe pra direcionar pra um futuro orientado pela cultura." Ou seja, a tecnologia abriu várias portas, agora o que passa por ela ainda depende de gente.