O Discharge não pode ser deixado de fora de nenhuma discussão sobre som pesado
O que a gente conhece como crossover entre hardcore e metal deve muito a essa banda - e nem sempre a gente lembra do Discharge nas conversas
Em 1977, o punk prosperava. Na Inglaterra, enquanto os Sex Pistols faziam seu som falando sobre política e sociedade, em Stoke, casa do Stoke City, que hoje joga a Championship, a segunda divisão do campeonato inglês, outra história começava. Mas, voltando à música, Terry e Tony Roberts, os irmãos Tezz e Bones, fundaram o Discharge em 1977. A banda logo adotou uma postura anarquista e contra a guerra, com um som que mudaria a forma como o punk era feito.
Apesar da primeira demo do Discharge não ser exatamente o som que a gente relacionaria à banda no futuro, até se parecendo mais com o Crass ou o 7 Seconds e com os clássicos do punk dos anos 70, os lançamentos de 77 e 78 já traziam o visual preto e branco que acompanharia a banda nos outros lançamentos.
No Discharge, não era só a guitarra que ganhava distorção - o baixo complementava o corte de serrote, também distorcido, fazendo as vezes de uma guitarra base com mais peso.
No EP Why? a entrada de Garry Malone na bateria, ex Varukers, daria um novo tom à banda, misturando gêneros e cadenciando um pouco mais o punk a mil por hora que era comum até então. A capa mostra vários cadáveres, enquanto a banda começava a caminhar para um caminho contra a guerra em suas letras. Esse EP é considerado um dos primeiros, senão o primeiro, encontro de punk e metal, que depois viria a ser mais frequente e até mesmo virar um gênero nos anos 80.
O primeiro álbum da banda, Hear Nothing See Nothing Say Nothing, de 1982, faria o Discharge ganhar ainda mais adeptos, e as turnês desse disco foram ao lado do GBH e do Exploited. No ano seguinte, com a saída de Bones Roberts e a chegada de Peter “Pooch” Perkil, a banda fincaria ainda mais os pés na influência do metal em seu som.
Hear Nothing See Nothing Say Nothing é um disco fundamental da mistura entre punk e metal
"Deixamos de soar como uma banda punk comum para soar como algo diferente. Mas tudo aconteceu de forma natural. Nunca tentamos ter um som específico; simplesmente começamos a compor músicas que refletiam como nos sentíamos, e o resultado foi exatamente o som daquele disco" - Tony Bones
A influência do Discharge na música pesada é tão grande que até um ritmo é associado à banda: o D-Beat, em referência à “batida Discharge”. Algumas bandas chegam a começar seus nomes com o prefixo “Dis”, em referência ao grupo e ao som que as inspirou. Para muitos, o D-Beat está dentro de um guarda-chuva maior chamado Crust Punk, um mix de metal extremo e hardcore. E é claro que o Discharge é mencionado quando se fala das raízes do gênero, uma vez que foi uma das primeiras bandas a juntar esses dois mundos em som e imagem. Mas, numa linha do tempo, é certo dizer que o D-Beat veio antes e depois foi incorporado ao Crust, que veio depois mas foi influenciado por ele. Viu o peso do Discharge nisso tudo?

Toda essa influência também se deve ao visual de seus álbuns e shows, utilizando a cor preta e colagens que traziam sofrimento, horror e humanização de sentidos. Martin H., designer e amigo da banda, apostou em um minimalismo sombrio e também fez capas para Crass e Varukers, mas foi com o Discharge que seu trabalho se tornou mais influente, explorando o contraste entre o preto e o branco, quase como uma xerox ou uma serigrafia. Martin foi responsável pelo tom sombrio, e Cal, vocalista da banda nos anos 80, levou em frente o ethos dessa arte e fez a capa do primeiro disco.




As artes dos primeiros singles e EPs da banda foram feitas por Martin H.
É certo ponderar que alguns lançamentos posteriores do Discharge foram longe demais e até perderam a essência crossover que a banda trouxe no começo dos anos 80. O segundo álbum de estúdio, Grave New World, por exemplo, troca os vocais rasgados por uma linha mais melódica e as guitarras rápidas por melodias mais glam metal.
O Discharge é sempre mencionado por bandas como uma grande influência, ganhando covers de Metallica, Napalm Death, Sepultura e Anthrax. Todas foram fortemente influenciadas pelo estilo rápido, agressivo e pesado do Discharge.
O Discharge é uma banda punk, mas com certeza teve uma grande influência nos rumos que o metal estava tomando nos anos 80, adicionando a rapidez e a agressividade do punk, que também bebia da fonte do metal. É impossível falar de hardcore, crossover, crust e desse metal mais rápido e obscuro sem pensar no Discharge como um dos pioneiros desse rolê todo.


Discharge no começo dos anos 80 (fotos: arquivo Discharge)