Todas as Lapas de Sain

Em Última Mesa da Lapa, seu quarto álbum, o rapper carioca transforma memórias do rádio, histórias de bairro e encontros entre amigos em um disco sobre música, pertencimento e liberdade artística

Todas as Lapas de Sain

“Tem músicas do disco que cê vai entender melhor se for à Lapa num sábado à noite, quando tá uma rapaziada curtindo, bebendo, naquele ritmo de festa. Tem outras que cê vai entender se for numa terça-feira, às duas da tarde, vendo as pessoas trabalhando, passando e vivendo a Lapa mesmo, crua.”

Para Sain, as diferentes versões de um mesmo bairro ajudam a explicar as muitas atmosferas de Última Mesa da Lapa, seu quarto álbum, lançado nessa última quinta-feira, 15 de outubro. Entre a boemia e a rotina, a Lapa deixa de ser cenário e passa a moldar as histórias, os ritmos e os encontros que dão forma ao disco.

Nascido no Catete (ou KTT, para os íntimos), Sain cresceu circulando entre o bairro, a Glória e a Lapa, uma geografia afetiva também conhecida como KGL que também deu origem ao Bloco 7, coletivo de amigos e artistas que ajudou a construir sua identidade musical. Antes de seguir carreira solo, integrou o Start, grupo formado dentro desse mesmo universo de relações. Mesmo depois de consolidar uma trajetória própria, o rapper continua encontrando nas conversas e nas experiências compartilhadas a matéria que alimenta suas composições.

“A arte que faço vem das conversas que tenho com essas pessoas e da área como pano de fundo para essas histórias. Não existiria a arte se não fosse por causa dessas conexões e das histórias que vivi aqui”

Para ele, o novo disco é também uma homenagem às pessoas e ao território que ajudaram a formar seu jeito de enxergar o mundo.

Se a Lapa fornece as histórias, o rádio oferece uma maneira de contá-las. Construído como uma programação contínua, Última Mesa da Lapa reúne 18 faixas entre músicas, vinhetas, locuções, conversas e interferências, recuperando uma experiência que marcou a infância do artista. Antes de ir para a escola, Sain costumava ouvir rádio com a mãe enquanto tomava café da manhã na cozinha. Entre uma música e outra, acompanhava notícias, previsão do tempo e conversas que faziam parte da programação. Ali ele descobria artistas, mas também sentia que havia alguém compartilhando aquele momento. “Era como se tivesse uma pessoa ali junto comigo, tá ligado? Eu conheci muita música ouvindo rádio assim”, lembra.

Mais do que reproduzir uma lembrança, Sain queria recuperar a sensação de uma escuta acompanhada, em que a curadoria de uma emissora conduzia o ouvinte por descobertas e assuntos diferentes ao longo do dia. “Você sabia que gostava de determinado estilo, de determinado posicionamento, então escutava aquela rádio e esperava descobrir coisas novas ali.” Essa lógica permitiu que o disco percorresse diferentes emoções, ritmos e personagens sem precisar seguir uma estrutura linear.

O conceito também ganhou vida fora do álbum com a Bloco 7 FM, rádio online que transmite 24 horas por dia pelo YouTube, alternando sets de DJs e conversas com artistas, amigos e pessoas que participaram do processo criativo. Parte da programação foi feita ao vivo durante os eventos de lançamento na Casa Noz, no Rio de Janeiro, e a ideia é seguir produzindo novos conteúdos para a estação.

Apesar da unidade conceitual, o disco não nasceu de um planejamento rígido. Sain conta que costuma começar seus trabalhos fazendo músicas sem necessariamente saber qual será o resultado final. Beats, versos e ideias vão se acumulando até que, em determinado momento, as conexões começam a aparecer. “Pô, essa daqui conversa com essa, essa outra é maneira porque faz um contraponto. As músicas vão se conhecendo no meio do caminho, se encaixando e encontrando seu lugar”, explica. “Não consigo planejar tudo desde o começo, desenhar o disco inteiro e depois executar. Vou vivendo ele e entendendo como vai ser.”

O processo levou cerca de três anos, durante os quais o artista reuniu produções, escreveu versos e experimentou possibilidades musicais. O trabalho com os beats teve papel central, e não por acaso: embora seja conhecido pelo flow cadenciado que lhe rendeu o apelido de Mr. Slow Flow, Sain começou sua trajetória no rap como beatmaker, ainda aos 14 ou 15 anos. Foram os amigos que o incentivaram a escrever suas primeiras rimas. “Eu comecei fazendo beat. Gosto mais de fazer beat até”, conta. No novo álbum, ele assina praticamente toda a produção musical e aproveita a liberdade para explorar sonoridades que vão além do boom bap, estilo que permanece como sua principal referência.

A proposta de criar uma programação de rádio acabou estimulando essa diversidade. “Quando comecei a entender que seria um programa de rádio, quis trazer essa variedade musical. Fui atrás de todos os estilos que eu gosto e comecei a buscar outros caminhos para falar o que queria”, conta. A faixa “Balada Sem Nome”, gravada com DG, é um exemplo dessa abertura. “Não caberia num boom bap o que fiz com o DG. Precisava ser naquele ritmo, naquele clima. Se eu escuto música assim, por que não vou fazer?” Entre as referências que acompanharam a criação do disco, Sain cita nomes do rap norte-americano contemporâneo, como Freddie Gibbs e os artistas do coletivo Griselda, incluindo Westside Gunn, além de James Brown e muito samba. O samba, aliás, ocupa um espaço particularmente importante em sua rotina.

“Quando saio para encontrar meus amigos, geralmente vou a um pagode. Quando vou cozinhar em casa, coloco um samba. Samba e rap são potência.”

As participações também nasceram, quase sempre, das relações pessoais do artista. Entre os convidados estão BK, Leall, Luccas Carlos, Akilla e outros nomes de sua rede de colaboradores. Algumas músicas surgiram de encontros informais, outras ganharam novas vozes depois de prontas. No caso da colaboração com DG, tudo começou com uma composição enviada no violão, a partir da qual Sain desenvolveu o beat e escreveu sua parte. “Cada participação aconteceu de um jeito, mas a maioria veio das amizades que tenho com essas pessoas”, resume.

Essa dimensão coletiva ajuda a explicar a escolha da mesa como imagem central do projeto. Presente no título, na capa e na identidade visual, ela representa um espaço de convivência que atravessa diferentes momentos da vida. Sain conta que só percebeu a força desse símbolo depois de começar a conversar sobre o álbum.

“Boa parte da nossa vida acontece em uma mesa. Seja com os amigos numa mesa de bar, seja almoçando com a família. É um lugar muito importante para nossas reflexões e relações”

O objeto acabou sintetizando algo que já estava presente nas músicas: a importância dos encontros e das histórias compartilhadas na construção de uma identidade artística.

Essa mesma lógica de pertencimento orienta a forma como Sain busca liberdade na carreira. Em um rap brasileiro cada vez mais comercial e orientado por trends e métricas de desempenho, ele reconhece a necessidade de encontrar um equilíbrio entre as exigências do mercado e a liberdade de criação. Não se trata de rejeitar a dimensão comercial da música, mas de evitar que ela determine todas as escolhas. “O mundo é capitalista, a gente tem que pagar conta. Se você escolheu fazer isso da sua vida, precisa ganhar dinheiro, ser remunerado. Não tem como brigar contra isso”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele faz questão de preservar as motivações que o levaram a começar. “Não comecei a fazer rap procurando ficar rico ou ganhar dinheiro. Comecei porque gostava da música e queria fazer a minha. Queria estar com meus amigos, mostrar meu rap para eles. Se você perde isso, perde um pouco o sentido.” Atualmente independente, Sain desenvolve seus projetos com a companheira e os amigos, sem a pressão de uma gravadora ou de um calendário imposto por terceiros.

“Preciso pagar minhas contas, quero dar uma vida boa para minha filha, mas também quero ter a liberdade de fazer o rap do jeito que eu quero, ter controle sobre a minha arte. Quem me cobra sou eu.”

E se pudesse reunir qualquer pessoa, viva ou morta, em uma última mesa na Lapa? Sain não precisou pensar muito: “Chamaria João Nogueira, meus amigos do Bloco7, botaria um samba para tocar bem alto e uma cerveja gelada.”


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