97Kilombo questiona e resiste na cidade através da sua arte

O rapper e artista plástico se apropria de diversas formas de arte para compor a sua identidade

97Kilombo questiona e resiste na cidade através da sua arte

No começo do mês passado, 97Kilombo, artista natural de Mauá, crescido no Jd. do Éden em Sorocaba e residente em São Paulo, lançou Calor de Janeiro, EP de sete faixas produzidas por Pedro Brando e com a participação de SENS31.

O projeto aborda o rap, o trap e o drumless de maneira sensível e experimental, com uma produção recheada de samples e construída em máquinas analógicas, acompanhadas de barras versáteis e profundas que pintam um retrato do cotidiano, dos comportamentos sociais e do caminhar pela cidade. “Fala um pouco desse mano que pinta, que faz vários corres – tanto de estar cozinhando música, cozinhando uma pintura, trampando num restaurante, embalando camiseta, embalando as telas, embalando CD, vendendo as muambas na rua”, conta Kilombo.

Capa do EP Calor de Janeiro

As faixas chegam junto de um trabalho visual assinado por Lucas Oliveira, Mayara Saldanha e Gustavo Égus, que amplia esse universo sonoro e mergulha nas origens e na história do rapper – construindo vias de identificação com outros personagens que possam se enxergar nessas histórias. "Essas outras pessoas, outros personagens dentro da sociedade, podem se identificar. O mano que tá na correria, que acaba acessando o backstage, com arte, e também vive uma vida de querer fazer o seu corre. E sempre lembrando o objetivo do que a gente quer – superação dentro da caminhada", explica o rapper.

O audiovisual, construído de maneira muito independente e com camadas densas de significado, reflete a organicidade do EP, que funciona como um ponto de partida de uma sonoridade que está em constante desenvolvimento e mutação.

“Foi bem isso – se movimentando, colocando energia nas paradas, acreditando, saindo de casa com objetivo, e as coisas foram acontecendo. Morando em São Paulo, não é simples. A gente tá no mó corre pra se manter, passando vários venenos pra estar fazendo arte, e o EP tá carregando 100% dessa energia, dessa dificuldade. E mesmo assim, fazendo com sede, com propósito, com disposição, pra uma hora, as coisas estarem mais estruturadas.”
0:00
/0:33

A música é mais uma das várias maneiras que Kilombo encontra para se relacionar com a arte, que nas suas palavras, se trata de uma forma de comportamento. A sua relação com o fazer artístico começou ainda jovem, no interior de São Paulo, com a pixação, o skate e o hip hop. Rapidamente, o audiovisual apareceu como maneira de imortalizar essas vivências, conferindo novos significados à elas.

"O audiovisual foi abrindo portas e criando interesse em outras paradas além da pixação. Tinha momentos em que você tava na pixação, mas tinha momentos em que você não tava, e a vida tava acontecendo – a gente foi percebendo que tudo podia virar um filme, mesmo. A pixação tem o ato de fazer, mas ela também carrega o dia inteiro de quem tá fazendo. E depois que ela é feita na madrugada, ela tá ali na cidade."

Num processo natural, paralelamente à tudo isso, Kilombo chegou às telas e à pintura, experimentando novos materiais e resíduos como forma de expressão. Ele conta que a aproximação com as artes plásticas veio pelo graffiti, mas que se tornaram caminhos e propostas diferentes: "a forma que eu posso questionar a cidade, a sociedade, é diferente do que é feito com o graffiti. Eu começo a utilizar materiais reciclados, coisas que tão próximas de mim, pra poder fazer os meus trabalhos e ir criando mais identidade".

Em suas telas, aquela mesma pesquisa sobre a cidade segue presente, mas com diferentes contornos e nuances. Entre as influências na pintura, Kilombo cita as histórias regionais brasileiras, formas de carnaval e de festejo e o comportamento quilombola. Sobre o quilombo, ele conta das semelhanças com o movimento hip hop, e a importância da coletividade e da resistência dentro desses contextos: 

“Quando eu tive contato com esse movimento em Camburi das Pedras foi algo que me fez questionar e assimilar muito ao hip hop dentro da cidade. O que aproxima é o trabalho – lá, o trabalho da pesca, da venda, do comércio, une pessoas a desenvolver comportamentos, ferramentas, pra isso ir melhorando e evoluindo. Aqui, é a mesma coisa – o trabalho na cidade acaba atraindo pessoas que tão com o mesmo propósito, e vão encontrando ferramentas para poderem estar juntos, fazendo. 

O comportamento, também, da troca. Quando a gente vai pintar, ou andar de skate, um não tem uma moeda, outro tem um pouco mais, a gente se junta e consegue todo mundo ficar firmão. Mesma fita lá, tamo com o peixe, tamo na praia, tem uma bola, tem umas pranchas – "vamo ficar firmão, se divertir com o que a gente tem?" 

O que muda é o cenário, as ferramentas. São outras paradas que as pessoas exploram dentro do quilombo caiçara – dessa região da praia, um lugar mais afastado da cidade, então a ferramenta muda, de trabalho, de resistência. Acho que dentro da resistência aqui na cidade é o trabalho da música, mesmo. A linguagem que a gente faz com a música, com o graffiti, o comportamento com a moda, esse é o lugar que a gente vai resistindo dentro de uma sociedade que não quer ver a gente fazendo isso, que não quer ver a gente sobrevivendo, e a gente vai resistindo dentro disso. E lá, é a mesma fita – garantir o seu peixe e se manter vivo, não deixar o sistema corroer nossos sonhos.

A tela também é isso – eu me identifico fazendo. Gosto de ser artista, de produzir, de pensar numa parada e fazer. O sistema não quer ver nós fazendo isso. Eu faço porque também é uma plataforma de rentabilizar, de poder me expressar, fortificar o meu trabalho, deixar claro pras pessoas que às vezes não entendem os trampos."

Sobre a relação com o mercado das artes plásticas, Kilombo se sente distante. É um cenário elitista, que exige formas e uma frequência de produção difícil de se manter para quem veio do gueto. Mas existem caminhos de manter um ecossistema favorável, trabalhando com quem está por perto, como ele conta: "existe uma via elitista, dessa galera que estuda arte, do mercado da arte, dos colecionadores, mas tem uma galera que tá saindo pra tomar uma breja e nesse mesmo espaço também tem uma sala com as minhas telas. E ali vai acontecer um bagulho que tem sentido de verdade".

Também como forma de atravessar esses ambientes, a sua arte se desdobra para as vestimentas. Da necessidade de fortalecer a própria identidade, a roupa nasce como ferramenta de potência e autoestima, criando caminhos para a existência dentro da cidade. "A gente vive num cenário em que as marcas definem muito do que você é, e a gente não teve condição de comprar das marcas, então eu decidi fazer as minhas próprias roupas, que eram tão da hora quanto. Eu via potência e autoestima dentro disso e comecei a fazer pra me vestir. Amigos que se identificaram também começaram a curtir e a se vestir. A roupa nasce desse lugar, é ferramenta também.

Eu gosto de pintar umas vestimentas, simbologias que me ligam ao ancestral – essa mistura da imagem africana com a imagem nacional que eu trago nas paradas. A gente é tipo uma planta buscando o sol; tipo a pipa buscando o vento pra se manter de pé. E o vento, que mantém a pipa em pé, são as minhas referências, que são muito próximas, e isso atravessa bastante, tanto na música quanto na pintura. As pessoas com quem eu converso e convivo tem total participação dentro da produção", explica Kilombo.

Para além de tudo isso, a relação primordial de Kilombo com a cidade é o corre. "Fazer a moeda pra se manter aqui – é pra isso que a gente tá fazendo as coisas acontecerem", explica ele. Todas essas formas de arte são, ao mesmo tempo, reflexo e combustível da vivência cotidiana.

Seja pelas roupas, pelo skate, pela pixação, pelo audiovisual, pelo rap, pelo grime, pelas artes plásticas, ou qualquer outra forma de expressão artística, Kilombo está sempre em movimento, atravessando a cidade numa construção coletiva de expressão e identificação – fazendo acontecer. Sobre essa travessia, ele conclui:

"A forma que eu tô atuando na cidade, hoje em dia, é através da pixação, da música, do audiovisual, do trampo no set, na produção, no cenário. 

É o hip hop, mesmo. As artes plásticas, as pinturas, as exposições. Os parceiros que tão lançando música, lançando trampo novo na rua. O comportamento de outros que a gente vai trombando pela rua, vai acompanhando pela internet.

Essa pergunta vira poesia – 'como você atravessa a cidade?' – mas pode ser mais simples. O que eu penso é: sair da minha casa e fazer. É assim que eu atravesso a cidade."


Ouça e assista Calor de Janeiro, já disponível nas plataformas digitais e no YouTube, e acompanhe o trabalho de 97Kilombo nas redes sociais.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora