O atraso também vende tênis

A indústria sneaker corre para celebrar mulheres no basquete, mas o hiato entre Sheryl Swoopes e Sabrina Ionescu conta outra história.

O atraso também vende tênis

Toda vez que a indústria sneaker anuncia uma nova era para as mulheres no basquete, a pergunta que fica não é exatamente se esse momento importa. Importa, e muito. Ver atletas da WNBA ocupando campanhas, assinando tênis, ganhando logos próprios e entrando no centro da conversa de produto muda a paisagem de um mercado que, por décadas, tratou o basquete feminino como uma aposta menor.

Mas chamar isso de novidade talvez seja confortável demais. Sheryl Swoopes já tinha nome em tênis nos anos 1990, antes mesmo de a WNBA estrear oficialmente. Lisa Leslie, Dawn Staley, Chamique Holdsclaw, Diana Taurasi e Candace Parker também atravessaram, cada uma a seu modo, essa tentativa de transformar performance feminina em produto. O problema nunca foi falta de atleta, de história ou de repertório. O problema foi a falta de continuidade.

Hoje, Sabrina Ionescu tem linha própria na Nike, A’ja Wilson começou com o A’One e acabou de lançar sua segunda silhueta, Caitlin Clark foi apresentada pela Nike como atleta com linha própria a caminho, Angel Reese virou aposta central da Reebok, Breanna Stewart abriu caminho recente com a PUMA e Elena Delle Donne colocou acessibilidade no centro da conversa com o Air Deldon. A retomada é real. O que interessa, porém, é olhar para o intervalo entre uma geração e outra, porque o buraco também conta muita coisa.

O que faz um tênis virar legado

Quando a gente fala em tênis assinado, a tentação é olhar primeiro para o objeto: a tecnologia, a colorway, o preço e seus outros atributos tangíveis. Só que um tênis assinado é também uma declaração de valor. É a marca dizendo que aquela pessoa merece investimento, merece virar produto e ser personagem de uma história contada pela indústria.

No basquete masculino, essa máquina funciona há décadas. Michael Jordan não virou mito apenas pelo desempenho nas quadras. Sua história foi vendida, colecionada e repetida até se tornar parte da linguagem popular. O mesmo acontece, em escalas diferentes, com Kobe Bryant, LeBron James, Kevin Durant, Kyrie Irving e tantos outros. A indústria entendeu cedo que um tênis podia carregar performance, desejo, personagem e arquivo ao mesmo tempo.

No feminino, essa construção foi muito mais irregular. A linha de Sheryl Swoopes, com sete modelos entre 1995 e 2002, segue sendo um marco justamente porque mostra que a ideia não era impossível. O Nike Air Swoopes nasceu no momento em que a própria WNBA ainda estava se organizando como liga. Só que, enquanto os homens foram transformados em mitologia, boa parte das mulheres ficou presa a uma memória interrompida.

Diana Taurasi teve seus modelos na Nike em meados dos anos 2000. Candace Parker ganhou a linha Ace na adidas a partir de 2010, com uma proposta que já tensionava gênero no próprio nome: “Ace” não era rei nem rainha, era outra coisa. Depois disso, o barulho diminuiu e a indústria pareceu preferir muitas delas como edição especial, em vez de centro de uma arquitetura de produto.

A linha Ace, de Candace Parker, conta com diversos modelos. Desde 2022, a ex-atleta é Presidente da divisão de basquete feminino da adidas

O hiato não foi falta de personagem

O caso de Maya Moore ajuda a entender esse desconforto. Uma das jogadoras mais vitoriosas da sua geração, associada à Jordan Brand e dona de uma carreira que teria material suficiente para sustentar qualquer narrativa de legado, ela nunca recebeu uma linha própria.

Maya Moore tem 12 campeonatos - o dobro de Michael Jordan - mas não tem linha própria de tênis

A explicação mais comum para esse buraco passa pelo mercado. Durante parte dos anos 2010, o tênis de basquete de performance perdeu espaço para lifestyle, running e silhuetas mais fáceis de circular fora da quadra. A WNBA ainda não tinha a visibilidade midiática de hoje, e a cultura de tunnel fit, os cortes virais, os fandoms e as redes sociais ainda não funcionavam com a intensidade atual. Dá para entender a planilha, mas planilha também é escolha.

Quando uma marca diz que determinado produto é arriscado, ela está dizendo em quem vale a pena apostar antes de ter certeza. Está dizendo quem recebe paciência, segunda chance e tempo para construir público, e quem precisa provar retorno imediato para continuar existindo. O mercado sneaker sempre conviveu bem com risco quando ele vinha embalado em masculinidade, juventude e genialidade individual. Com mulheres, o risco parecia precisar ser menor, de preferência já validado por audiência, engajamento e com uma narrativa pronta para virar campanha.

O hiato não representa só uma ausência de produto, mas uma ausência de repetição. E repetição, na cultura sneaker e no mercado como um todo, é poder. Um tênis que volta, ganha editorial, recebe nova colorway, aparece em documentário, é usado por outra geração e circula no resale continua vivo. Um tênis que é lançado, acaba e depois some, passa a depender de quem pesquisa, guarda imagem, garimpa informação e conta de novo. Um trabalho quase arqueológico.

E se o risco virar oportunidade?

A retomada atual não é do nada e nem por bondade do mercado. A WNBA chegou a um momento de visibilidade que a indústria não consegue mais tratar como nicho sem parecer atrasada. Em 2024, a liga registrou crescimento expressivo de audiência, merchandise e engajamento digital: as vendas combinadas de produtos no WNBAStore.com e na loja flagship em Nova York cresceram 601% em relação ao ano anterior, segundo a própria liga, enquanto a audiência média dos jogos nos canais da ESPN subiu 170% em relação a 2023, chegando a 1,19 milhão de espectadores por partida.

De repente, aquilo que antes parecia aposta virou evidência. O Sabrina 1 circulou com força entre jogadoras e jogadores, inclusive na NBA, e abriu uma pergunta interessante: o sucesso de um tênis assinado por uma mulher entre homens prova que performance não tem gênero ou mostra que o mercado ainda se sente mais confortável quando a validação masculina aparece junto?

Steph Curry já usou os tênis de Sabrina algumas vezes. Este é o Sabrina 3

A resposta provavelmente está no meio. É importante ver um modelo ligado a uma atleta da WNBA sendo usado por homens sem que isso pareça concessão. O tênis é bom, entrega performance e o produto não precisa ficar confinado à prateleira do “feminino”. Ao mesmo tempo, a cultura sneaker tem um histórico longo de transformar certos objetos em desejo coletivo apenas depois que eles passam pelo filtro masculino.

A’ja Wilson entra em outra chave: MVP, campeã, rosto de uma geração, muito carisma. Ainda assim, a demora em torno do seu tênis assinado virou assunto entre fãs e jornalistas, até que a própria Nike transformou a obviedade em campanha com o “Of Course I Have A Shoe” ("É claro que eu tenho um tênis", em tradução livre). Caitlin Clark, por sua vez, mostra a velocidade com que o mercado se move quando encontra uma atleta capaz de concentrar audiência, narrativa universitária, fandom, rivalidade e uma palatabilidade comercial muito específica. Angel Reese aparece na Reebok por outro caminho, mais pop e provocativo, como personagem cultural com linguagem própria.

Representatividade também é orçamento

Dizer que a indústria está capitalizando em cima dessas atletas não diminui o que elas construíram. Pelo contrário. O ponto é justamente reconhecer que elas são grandes demais para caber em uma campanha genérica de empoderamento. Sabrina, A’ja, Caitlin, Angel, Stewie e Delle Donne não são símbolos abstratos de representatividade; são atletas, imagens, estilos, histórias, públicos, produtos e comunidades.

A diferença é que, agora, tudo isso passou a ser lido com mais nitidez como mercado. A indústria não está apenas “valorizando” o basquete feminino por uma epifania ética, ela está respondendo a uma combinação de audiência, dados, redes sociais, disputa de marcas e novos hábitos de consumo. O reconhecimento chega, mas chega junto com a conta. É sempre o dinheiro.

Isso não torna a retomada falsa. Ter mulheres no centro dessa conversa muda o imaginário, cria arquivo para outra geração e força marcas a pensarem em design, distribuição e narrativa para além do masculino como padrão universal. Também coloca mais meninas diante de produtos que não precisam parecer adaptação tardia de uma história pensada para outros corpos. O avanço existe. Mas a gente não pode deixar o entusiasmo apagar o atraso.

Durante anos, a indústria teve atletas. Teve campeãs, MVPs, rivalidades, personagens e cultura. O que faltou foi vontade de transformar tudo isso em investimento contínuo. Agora que a WNBA cresce em audiência, merchandise e relevância digital, as marcas aparecem com mais pressa e mais orçamento. Que venham os tênis, as campanhas, os contratos, os logos, os relançamentos e as grades ampliadas, o público merece! Mas que a gente também olhe para quem ganhou tempo para virar mito e quem precisou esperar o mercado achar seguro demais para continuar ignorando.

O silêncio também constrói memória

Existe uma forma preguiçosa de contar essa história: dizer que agora as mulheres estão conquistando espaço. A frase é batida e simplória demais. Mulheres sempre ocuparam espaço no basquete. O que muda é o quanto esse espaço passa a interessar para quem vende produto, compra mídia, projeta campanha e decide o que merece virar objeto de desejo.

No fim, o mercado sneaker não está criando o momento das mulheres no basquete. Está tentando chegar a tempo de lucrar com ele, depois de passar anos tratando essa história como risco. Arrisco dizer que é por isso que o hiato entre Sheryl Swoopes e Sabrina Ionescu diz tanto: ele mostra que legado não depende apenas de talento, mas de continuidade, orçamento e disposição para repetir uma história até que ela pareça impossível de esquecer.

A retomada merece atenção, mas o intervalo também, porque até o silêncio deixa marca. E quando a indústria finalmente decide falar, a gente precisa olhar para quem ficou tempo demais sem ser ouvido.


ISMO
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