TOKIODK explora as suas vulnerabilidades em novo disco
Estilhaços & Cicatrizes (2º Ato) é a segunda parte da trilogia do rapper carioca que chega apresentando novas sonoridades e assuntos
No final de agosto, TOKIODK lançou um novo disco – Estilhaços & Cicatrizes, segundo ato de uma trilogia que revisita a sua trajetória e mergulha na sua intimidade. Contando com participações de Vulgo FK, Anchietx, Carla Sol e Jenni, o projeto apresenta um olhar ainda mais para dentro da mente de TOKIO, abordando o amor, memórias, sentimentos, relações e marcas do passado.
O rapper, que iniciou a sua trajetória na cena de drill do Rio de Janeiro, com a passagem pelo Brasil Grime Show e o lançamento de ANTI-HERÓI, em 2022, continua contando a história iniciada em INFRAÇÃO, lançado em fevereiro deste ano. "NEM ERA PRA EU TÁ AQUI", faixa que integra a primeira parte do projeto, viralizou entre os jogadores de futebol durante a Copa do Mundo no meio deste ano, concluindo um ciclo e realizando o sonho de um artista que sempre falou sobre o mundo do futebol nas músicas e na forma de se comportar.
Troquei uma ideia com o TOKIO para saber mais sobre esse momento, o que motiva essa mudança de sonoridade e como é olhar para trás nesse momento em que tudo está mudando. Confira o papo na íntegra aqui na sequência.

O que aparece de novo no segundo ato dessa história de três partes que você vem contando? Ela continua a história do primeiro disco, mas parece que você mergulha ainda mais no seu interior. O que muda na música quando isso acontece?
A segunda parte fala sobre coisas pessoais, mas é ligado ao amor. Acho que o primeiro ato é ainda mais pessoal do que o segundo, porque eu falo da minha família, da minha vida pessoal, de uma forma bem explícita. Porém o segundo fala de uma coisa que eu nunca falei – sobre amor, sentimentos. É uma continuação porque faz parte do personagem do álbum – é uma vida.
O primeiro passo é o lance de você ter uma dificuldade de lidar com as regras, ter problemas em aceitar certas coisas da vida, no âmbito mais profissional, pessoal. A segunda parte é esse personagem falando sobre sentimento, sobre a vida amorosa, as frustrações amorosas. E o terceiro ato vai ser o complemento de tudo.
O que te motiva a explorar essas novas sonoridades? Como você equilibra as preocupações com a carreira, de ter que atender a certas expectativas, com as paradas que você sente, mesmo, e que você acaba colocando na música?
Eu acho que a maior dificuldade é essa – você entender o que faz parte do crescimento profissional e o que te faz fugir da tua identidade. É a questão de sair da zona de conforto, me desafiar. Eu não falava nada sobre amor, e agora eu tô tendo uma facilidade pra escrever e tô gostando muito de falar sobre sentimentos – e cada vez mais eu me torno melhor nisso. É muito esse lance de pensar no âmbito profissional – no que é bom pra continuar crescendo dentro da indústria – mas não perder a identidade.
É o lance de eu continuar escrevendo de dentro pra fora – tentando usar os sentimentos pra expressar isso. É uma coisa que eu nunca falei, um estilo de rima que eu nunca usei, a minha voz de uma forma que eu nunca usei. É preciso ter coragem.



Os feats chamam atenção, já que o primeiro ato só contou com a participação do Maui. O que motivou a presença dessas outras vozes que chegam para dividir o espaço com você no projeto?
O primeiro disco são 11 faixas – 10 são músicas solo. No segundo ato, como eu faço uma forma de cantar como eu nunca fiz antes, eu precisava de pessoas junto comigo pra que não soasse tão estranho.
Muitas das vezes, não é nem que você não gosta do que eu tô fazendo, mas sim que você não tá acostumado a me ver fazendo isso. Já tá soando estranho pro meu público, tem gente que não tá lidando tão bem com isso – mas as pessoas que estão, são o meu foco. Esses novos horizontes, mesmo.
Esse projeto gira muito o olhar para a sua trajetória, sua caminhada. Olhando desde o ANTI-HERÓI, de 2022, até hoje, o que mudou e o que continua igual?
Eu acho que bastante coisa se assemelha, na questão de escrita, de lírica, de falar de coisas pessoais. Eu acho que o que mudou é a maturidade musical, a evolução, mesmo, de entender mais o que eu tô fazendo. O ANTI-HERÓI é muito o lance de: "é isso que eu sei fazer, é nesse gênero, dessa forma que eu rimo, então vou entregar o disco dessa forma".
O ESTILHAÇOS e o INFRAÇÃO, eles têm as mesmas coisas do ANTI-HERÓI, mas de uma forma que não vai conversar só com quem gosta de drill. Eu tô falando da mesma coisa, sabe? Eu voltei ao início, de uma forma mais madura.

Ainda olhando para esse momento, a passagem pelo Brasil Grime Show foi bastante marcante na sua trajetória. Como foi esse contato com a cena e como você enxerga a cena de drill no Brasil?
Foi a primeira visibilidade que eu tive na minha carreira, foi uma coisa que deu uma impulsionada na época. Eu fiquei muito feliz de fazer parte ali no começo, quando apareceu – foi uma coisa que trouxe pra mim uma galera que acompanha minha carreira até hoje. Mas se eu ficasse nisso, eu acho que eu ia cair no esquecimento, tá ligado?
O drill pegou, mas ficou num nicho. Eu achava que ele tinha potencial pra ser um trap no Brasil, que poderia se tornar uma grande potência. Eu acho que não rolou muito também pela questão dos rappers do mainstream serem muito ligados a algo que já tá batendo. Os caras vem, lançam, veem que não deu certo, e já pulam pra zona de conforto.
A Covil da Bruxa sempre rimou desse jeito. A gente veio do drill, mas a gente não pegou quando chegou em Londres, a gente pegou o drill de Chicago – onde realmente nasceu. E os caras já falavam sobre esse tipo de coisa. Quando foi pra Londres, que teve esse encontro com o grime, aquela coisa mais acelerada, aquela mistura de um monte de coisa – o lance do sportlife, a forma como os caras se vestiam chamou muito a nossa atenção.
A gente sentiu muita facilidade de escrever. Muita gente tá rimando hoje o que a gente já fazia em 2018, 2019. Foi muito a questão das referências que a gente ouvia, das marcas, coisas que a gente sonhava com a infância, ligadas aos jogadores que a gente assistia quando era pequeno – uma coisa bem natural.
Para fechar, como você tá com o lançamento desse novo disco e o que esperar desse último ato?
Eu tava meio preocupado. Eu já esperava que fosse rolar uma estranheza grande do meu público – que eles iam olhar pra isso e falar tipo: "o que o TOKIO tá fazendo? Tá se vendendo, tá indo pro pop?". Mas eu não esperava que fosse tanto, então isso me pegou muito nos primeiros dias. Mas tá começando a bater, tá começando a chegar no meu próprio público, e a galera tá começando a gostar. É questão de tempo, costume. As pessoas estranham o novo.
Agora é trabalhar e fazer justamente o que era a ideia inicial – chegar num novo público e convencer o meu público de que aquilo é realmente bom, que eu tô escrevendo da mesma forma, de dentro pra fora. Não é uma coisa que eu vou lançar só pra virar mais pop, mais comercial.
É buscar esse novo público, mas também não perder o que eu já tenho e que eu lutei por tantos anos. Não tem como esquecer desse público, porque é um público vitalício. O comercial, não – são músicas que vão tocar na rádio, se você lançar hit as pessoas vão estar ali, mas se você não lançar hit, as pessoas somem. Não é esse tipo de carreira que eu quero pra mim.
Ouça Estilhaços & Cicatrizes (2º Ato), já disponível nas plataformas digitais