Quando o rap fala de quadrinhos e traz mensagens subjetivas

O hip hop abstrato tirou o foco das armas e do bling bling e foi falar de uma porrada de outras coisas usando figuras de linguagem e samples mocados

Quando o rap fala de quadrinhos e traz mensagens subjetivas

Quando um gênero começa a ficar popular, várias vertentes começam a surgir dele. No hip hop, o break beat do começo dos anos 70 dos Estados Unidos viu seu estilo se multiplicar, ganhar novos formatos, novas letras, novas batidas e novos nomes. Um desses estilos não queria falar somente da vida cotidiana difícil dos guetos, com mortes, crimes e o desejo de carros e dinheiro: o hip hop abstrato, que também pode ser chamado de alternativo ou de “indie”, trazia referências de histórias em quadrinhos, letras elaboradas usando o máximo da língua falada e batidas que vinham de videogames, filmes lado B, funk e jazz fusion. 

Em 1988, o Ultramagnetic MCs lançou o Critical Beatdown e, diferente de NWA e Public Enemy, que colocavam o dedo na ferida do sistema dos Estados Unidos, o grupo estava indo para lugares não explorados do gênero, abrindo portas para fãs de ficção científica, por exemplo, adentrarem no mundo do hip hop com músicas que falavam sobre viagens do ego, auto-consciência e usava linguagem pseudocientífica. Kool Keith e Ced-Gees revolucionaram o jeito de rimar e, convenhamos, pra fazer isso no ano que o hip hop viu seus maiores lançamentos até então, foi um choque na cabeça de quem ouvia. 

A gente pode até dizer que existiam pessoas fazendo um hip hop diferente, como o Slick Rick e o Eric B. & Rakim, mas o que o Ultramagnetic MCs fez foi trazer a ciência e auto-consciência para dentro de temas que antes eram de contestação e racialização. 

Kool Keith foi um divisor de águas para rappers de diferentes estilos adentrarem maiores festivais. Até ele fazer Woodstocks da vida, nenhum rapper preto estava fazendo grandes rolês com outros gêneros musicais – isso abriu portas para artistas tipo Outkast, Missy Elliott, A Tribe Called Quest participarem ativamente. Mas voltando para o que o Ultramagnetic MCs influenciou, depois do Critical Beatdown, rappers começaram a fazer flows diferentes e buscavam inspiração para rimas e batidas em diferentes locais. O “personagem” Dr. Octagon, de Kool Keith, em sua carreira solo, foi essencial para o que viria a seguir. 

O Kool Keith foi o percursor dos diferentes (foto: John Dunn)

Depois, nos anos 90, Organized Konfusion e Freestyle Fellowship começaram a explorar o existencialismo e a crítica social, trazendo subjetividade para dentro da letra. Se liga nessa parte que abre Walking Into the Sun, do Organized Konfusion, do Pharoahe Monch: “The sky blue, a fields green / Paints a picture that creates a scene / Of the destiny that controls my fate (O céu azul, o verde dos campos/ Pintam um quadro que cria uma cena / Do destino que controla o meu futuro)”. Sim, isso é uma letra de rap de 1991, mesmo ano que saiu o Death Certificate do Ice Cube e o 2Pacalypse Now, do Tupac. Essa música tinha um sample de Steely Dan. 

O começo dos anos 90 viu uma explosão de grupos que falavam de um cotidiano comum, amor, rolês despretensiosos e uma vida mais regular de grandes cidades. Pharcyde, A Tribe Called Quest, De La Soul, Common, Del the Funkee Homosapien, entre muitos outros cantavam mais do que a mente podia imaginar, explorando diversos fatos cotidianos. No fim da década, Company Flow, Aesop Rock, MF Doom e outros grupos começavam a ficar ainda mais diferentes e, em muitas vertentes, ainda mais esquisitos. A gente pode dizer que o Wu Tang Clan, sendo alternativo ou não, também trouxe um jeito diferente de explorar o rap – isso sem contar os discos solo de cada integrante, principalmente GZA e RZA e o Liquid Swords. 

Não dá pra falar de rap abstrato sem falar em produção e captação de artistas – a revolução não ficou somente nas rimas. A gente já vai falar de Madlib daqui a pouco, mas nomes como J Dilla, DJ Shadow e Alchemist trilharam um caminho que El-P e Q-Tip pavimentaram com beats que iam do agressivo futurista (El-P principalmente) ao mellow-jazz lo-fi (Q-Tip e o A Tribe, por exemplo), enquanto Dante Ross e Faith Newman eram “olheiros” nas grandes gravadoras, possibilitando artistas dessa nova safra a levarem sua música mais longe. 

Nos anos 2000, esse hip hop alternativo teve seu grande momento. Deltron 3030, Cannibal OX e Quasimoto fizeram a cabeça de muita gente, enquanto o Madlib trazia beats que mudavam o jeito de lidar com a produção musical. J Dilla também tinha seu momento de glória e, mesmo após sua morte em 2006, seu legado continuaria a influenciar as próximas gerações. Nessa década, um outro fator que foi responsável pela popularização do gênero foram os jogos do Tony Hawk’s Pro Skater, que traziam músicas de hip hop alternativo em sua trilha sonora. O terceiro jogo, por exemplo, lançado em 2001, tinha KRS One e Del the Funkee Homosapien. O quarto trazia Aesop Rock, Delinquent Habits, De La Soul, Gang Starr. Essa junção de skate com esse rap alternativo, mais nerd, mais subjetivo, foi um sucesso nessa década, também constando em vídeos de skate do fim dos anos 90 e começo dos 2000.

O Del sempre teve forte ligação com o skate (foto: Alex Robert Ross)

Company Flow aparece no vídeo da Shortys em 1998. Os vídeos da Static tinham Jeru the Damaja e KRS One. Common no Kayo Its Official. Talib Kweli no Girl Yeah Right. Essa junção de skate e hip hop alternativo pode ir por horas, mas é inegável o peso que esse gênero teve no skate da época e a alta dos artistas que apareciam nos vídeos de skate.  

John Igei e Jeru no Static 2

MF Doom e Madlib e o Madvillainy 

É justo dizer que existe uma linha tênue entre o que é de fato esse hip hop alternativo, ou melhor, quais artistas que fazem parte do gênero. Usar um boné militar de lado já era suficiente para que o artistas fosse considerado alternativo dentro do hip hop? Não exatamente, porque esse era um gênero que ia além da estética. Mas teve um álbum que marcou a junção sci-fi-quadrinhos-divisões-da-mente e é, inegavelmente, um clássico atemporal: o Madvillainy, da junção das rimas do MF Doom e das batidas de Madlib. 

O que se viu no Madvillainy foi o ápice até então. Lançado em 2004, o primeiro e único álbum da dupla se fez um clássico instantâneo. Esse é o tipo de álbum que forja gosto musical e que se você fala pra alguém que gosta, e essa pessoa conhece, você recebe aquele olhar de “esse manja”. O Madvillainy não é tão fácil de digerir de primeira, uma vez que tem músicas de samples quebrados e letras como “Last wish, I wish I had three more wishes. And I wish they fix the door to the matrix, it’s mad glitches. Spits so many verses sometimes my jaw twitches. One thing this party could use is more... Booze! (Último desejo: queria ter mais três desejos. E queria que consertassem a porta da Matrix; aquilo vive travando e dando erro. Cuspo tantos versos que, às vezes, meu maxilar até treme. Uma coisa de que esta festa precisa é de mais... BREJA!)” - como visto em Great Day. 

MF Doom trouxe temáticas diferentes em métricas incomuns. Seu estilo de 8 versos sequenciais logo se tornaria uma marca, um estilo “MF” de rimar. O “personagem” criado por Daniel Dumile trazia uma liberdade criativa de falar de si mesmo na terceira pessoa, como se estivesse lendo uma história de quadrinho criada por si mesmo falando sobre si mesmo. Uma rima divertida, inteligente e sagaz, com referências diversas – tudo cantada por um homem de máscara romana, que deixava o personagem ainda mais misterioso e mais livre pra criar do jeito que quisesse. MF Doom não precisava dar tiro em ninguém, nem ser o centro das atenções no carro com diamante nas rodas, mas suas habilidades intergaláticas faziam dele o maior “vilão” da história do hip hop. 

Se nas letras o MF Doom trazia uns bagulho diferente, o Madlib por sua vez na produção vinha com pedras preciosas oriundas dos mais variados locais – inclusive do Brasil. Samples de jazz, soul, música brasileira e indiana aparecem durante o álbum todo. Na sua viagem pro nosso país, em 2002, na qual ele mesmo conta que mudou sua vida, muita coisa do Madvillainy nasceu dali e Waldir Calmon pode ser ouvido em Curls, O Terço em Supervillain Theme e Maria Bethânia em Rhinestone Cowboy

O MF Doom trouxe o Operation Doomsday, fincando de vez seu nome nos quadrinhos, ou melhor, no rap que falava de referências da cultura pop e que fazia esse personagem ser ainda mais marcante como quase um super-herói. Mais uma vez, o distanciamento do homem com o personagem, ou até mesmo a fusão desses dois mundos, deu pro Daniel Dumile um senso de liberdade gigantesco, possibilitando que o hip hop adentrasse as cabeças mais nerds e os moleques que liam quadrinhos para fugir da sua realidade. 

O MF é talvez o maior personagem-persona do hip hop abstrato, podendo flutuar entre vários pseudônimos – King Geedorah, Metal Fingerz, Viktor Vaughn, todos saídos de páginas de ficção, lançando álbuns e tendo, cada um, sua identidade própria. Isso abriu portas para que outros rappers pudessem ser muito mais do que só eles mesmos. 

A história do rap abstrato não termina no Madvillainy e se estende até os dias atuais – inclusive no Brasil. Para saber outros capítulos da história dessa vertente do hip hop, continue acompanhando aqui na ISMO. 


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