Tattoo Lucky trouxe a tatuagem como trampo pro Brasil

Um dinamarquês trouxe ao Brasil o rolê da tatuagem enquanto trampo e mudou a forma como a gente enxergou a arte na pele

Tattoo Lucky trouxe a tatuagem como trampo pro Brasil

Um dia o dinamarquês Knud Harald Lykke Gregersen, mais conhecido como Tattoo Lucky, decidiu vir ao Brasil. Em 1959 ele chegou ao cais de Santos com uma máquina de tatuagem elétrica, a primeira que a gente veria por aqui. Na esquina da rua João Otávio com a General Câmara o Lucky Tattoo era aberto para quem quisesse entrar e fazer uma tatuagem - ele não tinha telefone, era apenas um endereço para chegar e fazer. 

Quando o Lucky chegou com aquela máquina, os agentes do porto de Santos não entenderam muito bem para o que servia, achavam até que podia ser uma arma, mas ele explicou que era para tatuar imagens no corpo das pessoas, o que, curiosamente, passou tranquilamente pela polícia da época. 

Com nome difícil de pronunciar, seu apelido, Lucky, foi o que pegou entre os brasileiros. Lá na Dinamarca ele já tatuava num estúdio chamado Tattoo Ole, o estúdio mais longevo do mundo ainda na atividade, funcionando desde 1884. Knudd herdou o talento e profissão do pai, um tatuador já conhecido na Dinamarca nos anos 30 e 40, Jens Gregersen, que simplesmente tatuou o rei da Dinamarca, Frederico IX.

O texto não é sobre o Jens nem sobre Frederico IX, mas esse contraste é muito foda

Os primeiros clientes do Lucky no Brasil foram os marinheiros que chegavam por ali, para ficar ou como conexão, e até existe a história que na porta do estúdio dele tinha uma frase que dizia algo como “o marinheiro que não tem uma tatuagem não é um marinheiro de verdade”. Posteriormente, caminhoneiros e surfistas também se tornaram clientes assíduos do Lucky, mostrando essa relação da tatuagem com pessoas que tinham na vida algum tipo de aventura, seja no trabalho ou no hobby. 

It's not a saylor if he hasn't a tattoo. 

Existe uma relação interessante também da história da tatuagem brasileira com o mar, já que os marinheiros foram os primeiros grandes clientes de tatuadores por aqui. O próprio estúdio do Lucky ficava no cais do porto de Santos. Depois o Lucky iria para Itanhaém e, mais tarde, para Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. 

Essa ligação da tatuagem com o cais, consequentemente com bebida, prostituição e com os próprios marinheiros, trouxe uma conotação ruim para quem tinha a arte no corpo. Essa ligação não se dava somente no Brasil e cais do mundo todo tinham ali seu estúdio de tatuagem e marinheiros entrando para fazer trampos em seus corpos. Não é a toa que tatuagens old school tem âncoras, pássaros, caravelas e mulheres em seus designs mais famosos. 

Lucky era, merecidamente, um astro da tatuagem, mesmo que essa expressão artística tinha preconceitos por parte da sociedade. Ele tatuou cantores e músicos famosos, como Pepeu Gomes e Evandro Mesquita, que tem uma tatuagem de águia feita pelo Lucky.

Uma de suas tatuagens mais famosas viria até fazer parte de uma letra da música brasileira. Quando Lucky começou a tatuar surfistas cariocas, um surfista que estava se destacando no Pier de Ipanema e no Arpoador, Petit, tatuou um dragão, que viria a ser tema da canção Menino do Rio, de Caetano Veloso, imortalizada na voz de Baby Consuelo. Essa tatuagem foi feita pelo Lucky. 

Até o fim dos anos 70 no Brasil, para você ter acesso à materiais de tatuagem, ou você ligava para a Spaulding-Rogers, nos Estados Unidos, ou para a National Tattoo. Você tinha que mandar foto do seu estúdio de tatuagem e os caras analisavam se você podia vender ou trabalhar com materiais deles. Ou seja, não era simples nem ser tatuador, que dirá ter tatuagens. 

A tatuagem no Brasil sempre andou ao lado de outros grupos marginalizados: lutadores de rua, capoeiristas, surfistas, jiu-jiteiros, marinheiros, entre vários outros grupos de homens, majoritariamente, que participavam de rolês fechados e mal vistos pela sociedade. Naquele tempo não tinha muita gente tatuada no Brasil, sendo os marinheiros os primeiros que de fato exibiam em seus corpos as artes de tatuadores do mundo todo. Em caminhoneiros, era comum Lucky tatuar imagens de proteção, como Jesus Cristo ou Nossa Senhora.

Depois que colocou os pés no Brasil, não saiu mais e ficou até sua morte, nos anos 80, de ataque cardíaco. Com 55 anos, ele estava no auge, casado e com filhos, e seu último estúdio foi no Rio de Janeiro. O dia 20 de julho, dia exato em que Lucky chegou em Santos, tem a alcunha de Dia Nacional do Tatuador, em sua homenagem. 

É claro que não é possível cravar que o Lucky foi o primeiro que rasgou a pele de alguém com tinta por aqui, já que outros métodos são populares para a mesma finalidade. Mas enquanto profissão, o Tattoo Lucky foi um divisor de águas, abrindo uma portinha com desenhos e frases e fazendo pessoas do mundo todo quererem tatuar seus corpos com um artista que desembarcou no porto do Santos nos anos 50. 


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