L4Z4RO e ANDRE SOPRANO são VIDA LOKA ROCK STAR
O disco colaborativo mistura rap e rock na criação de uma sonoridade ímpar que procura sintetizar a vivência do rockeiro de quebrada
Hoje, 31/10, L4Z4RO e ANDRE SOPRANO colocaram na pista VIDA LOKA ROCK STAR, disco colaborativo que chega chutando as expectativas da indústria para longe e mistura rock e rap de uma nova perspectiva, autêntica e experimental. Gravado em casa e com participações de WALTEREGOS, Igão Senhagah e JPEGO, o disco chega na sequência de Dinheiro e Varias Fita, EP de 2023 que deu início à parceria.
No limiar do caos e da arte, bagunçando a dança das identidades, o MC e o produtor apresentam o seu manifesto contra a burocracia e o ego de plástico de uma indústria torpe, neurótica e levemente sádica. “Rock demais pra ser rap. Rap demais pra ser rock”, explicam. Com referências que atravessam as obras de nomes como Racionais MC’s, Fundo de Quintal, Tim Maia, Ratos de Porão, Sepultura, Metallica, Black Sabbath e Alcione, o disco traça um retrato do rockeiro de quebrada, contra o sistema e a indústria musical.
Com uma relação que começou pela internet, pela troca de referências musicais e discursos alinhados, L4Z4RO e ANDRE SOPRANO consolidam o seu som – ainda que ele esteja em constante mutação e desconstrução. Troquei uma ideia com os dois sobre os processos do disco, relação com a indústria, dilemas da produção musical e uma nova forma de se relacionar com o som que passa, antes de tudo, pela paixão e pela vontade de criar.
Qual foi o ponto de partida desse novo trampo e o que ele procura representar?
ANDRE SOPRANO: A pandemia foi acabando no fim de 2021, a gente nem tinha se trombado e já tava com as guias. Quando a gente se trombou, a gente começou a trocar ideia de verdade, dar uns rolês e viu que bateu as referências.
L4Z4RO: Bateu demais. A minha escola primária é o hardcore, o punk – não tem muito para onde fugir. O faça você mesmo, o hardcore punk de São Paulo – eu tive uma caralhada de banda. Aí beleza, soltamos o Dinheiro e Varias Fita e, logo depois, a gente já tava angustiado, querendo fazer mais som. O André já tinha mais uma caralhada de beat, eu já tava querendo escrever mais, e a ideia era fazer um disco. Eu queria lançar uma parada mais coesa, que eu pudesse discorrer, em mais faixas, sobre esse sentimento do rockeiro de quebrada.
E a gente chega no VIDA LOKA ROCK STAR, que é o rockeiro da escola, o rockeiro que foi tirado na quebrada – que andou de camisa preta no sol, que fez Educação Física com camisa do Iron Maiden. Eu via que, na minha quebrada, tinha vários manos assim, e achava que tinha tudo a ver trazer essa identidade, essa estética para o meu som. Eu queria fugir um pouco dos temas do rap e mostrar que, mesmo fazendo rap, a gente gosta de som, de música, e geralmente de música mais suja, mais arrastada, mais carregada de temas psicológicos, cotidianos – tentando trazer toda essa bagagem que eu tive de tocar bateria em banda de rock, hardcore, punk. Eu queria juntar essas coisas.
Eu criei na minha cabeça esse personagem, esse arquétipo do rockeiro de quebrada. Os rockeiros também ouviam rap – eram coisas em paralelo. O skate também trouxe isso, e era meio que o liquidificador – juntava todas as referências, todos os tipos de maluco e dali saíram várias coisas. A ideia inicial do disco era mostrar que também tem rock na quebrada. E não só o rock – que você pode fazer o que você quiser, independente da onde você esteja. Fazer rock na quebrada é, no mínimo, estranho, difícil, porque demanda outra estrutura. Guitarra, baixo e bateria é um bagulho invasivo, que você vai ouvir por quilômetros.
Eu cresci no pé da bateria, vendo os caras mais velhos, as bandas mais velhas, saindo para tocar. Eu achava que eu conseguiria transformar em letra, e trazer para o rap que eu faço. É rock demais para ser rap e rap demais para ser rock.
ANDRE SOPRANO: Como produtor, eu fiquei um tempão com medo de fazer um bagulho e virar meio Limp Bizkit, nu metal. É rap, só que com groove de guitarra. A única coisa tocada foi o baixo que o JPEGO tocou, de resto é tudo sampleado, sintetizado, drum kit. Foi uma preocupação de não se parecer com nada. De falar para alguém que a gente fez um disco de rap com rock, a pessoa pensar que é um bagulho, mas vai ouvir e não vai ser.
Mesmo depois da gente se conhecer, virar parceiro, o fluxo de fazer a música é o mesmo desde a pandemia. Eu mando os beats, ele escolhe, caneta e devolve. Aí a gente se tromba para gravar aqui – do it yourself até os dentes. Foi tudo gravado aqui na cozinha, nesse PC vagabundo aqui.
L4Z4RO: Com o microfone que eu tenho há 15 anos.
ANDRE SOPRANO: Independente de fato, na cozinha.

Essas semelhanças entre o grime, o hardcore, o punk, aparecem muito no jeito de fazer e criar – de maneira extremamente independente, autossuficiente e original. E abrem as possibilidades de experimentação e novos jeitos de se relacionar com essas definições de gêneros musicais. Quanto que colocar o seu som numa caixinha ajuda na produção dele? O que isso traz de bom para a sua arte? As grandes coisas surgiram dessas indefinições.
ANDRE SOPRANO: Como eu comecei a fazer beat mais velho, nunca nem passou pela minha cabeça fazer alguma coisa para estourar, ganhar dinheiro. Porque eu já tava trampando, já tinha a minha vida, então eu tava na brisa de fazer o que eu queria ouvir. E eu tava ouvindo muito Griselda, gosto de Black Sabbath, Metallica, então por que eu não vou samplear essa porra?
L4Z4RO: Esse lance dos gêneros, para canetar, é um bagulho que só me atrapalha – ficar pensando se vai ser isso ou aquilo. Eu geralmente nunca penso. Se eu gostei da onda do beat, da energia, se eu acho que eu tenho alguma coisa para contribuir, eu vou achar alguma coisa para falar. Até mesmo no grime – eu não sou MC de grime. Eu faço grime, gosto principalmente de rimar nos sets, compartilhar com os moleques, os RAGGACLUBBERZ. Mas eu gosto de ouvir outras coisas, e nunca fiquei muito preso nessa parada do meu som. Em alguns momentos dessa trajetória, eu tenho que focar mais nisso ou mais naquilo. Mas no fim, essa vontade passa, e eu quero fazer outra coisa. Eu não deixo que o gênero me estanque, me cristalize.
Pensando em mercado, já tá num ponto que eu entendo um pouco. Você tem que ter um manager, ser minimamente organizado, tem que ser uma empresa – é esse discurso neoliberal para tudo. Tudo que não tem a ver com música. Por mim, eu ficava só fazendo música e subindo do jeito mais rápido e prático possível. Por que você tem que fazer parte de uma playlist, de uma curadoria? É um lixo. Acho que até instintivamente a gente acaba fugindo um pouco disso. Não sei qual é o som que a gente faz. No final das contas, é o nosso som.
LINHAS E LINHAS já é um clássico do grime nacional, e faz parte do disco colaborativo de JPEGO E WALTEREGOS
O rap já foi isso, também. Tinha um jeito de fazer, um ecossistema, que foi apropriado pelo mercado e pelo neoliberalismo. Essa importância do show, de trocar com uma galera e a coisa acontecer no momento. Me leva para o jazz, também, o momento do improviso.
L4Z4RO: É o lance de ser noia de música. É o dia inteiro, 24 horas pensando no bagulho, e às vezes eu tenho que me forçar a parar de pensar nessa porra. O meu bloco de notas é cheio de coisa – às vezes é só uma palavra, às vezes é uma frase, às vezes é um verso.
ANDRE SOPRANO: Eu tenho o bloco de notas com uma caralhada de sample minutado, com algum recado para o eu do futuro.
L4Z4RO: Tem essa coisa do descontentamento com o mercado, com tudo isso que a gente falou – mas ao mesmo tempo, a gente quer tocar, a gente quer que chegue em mais pessoas. Quer que as pessoas acompanhem essa evolução, porque as músicas vão evoluindo. No ao vivo, eu já não canto elas do jeito que eu gravei. Eu acho que o lance mais foda é você ir a fundo numa ideia, esmerilhar e esgotar aquela ideia. A gente entende que existe uma forma de existir que não é o mainstream. Isso é meio óbvio, mas existe um underground que tem menos alcance, mas que movimenta, que existe de fato – na rua, nas festas, trocando ideia que nem a gente tá fazendo aqui, agora. Já é uma coisa gigante para nós, poder tocar, poder gravar um som. A gente gastou zero reais para gravar.
E se as lojas de discos não fossem separada por gêneros? Uma outra organização, que também é sobre desorganizar.
L4Z4RO: Parece que tudo é pensado para ser o mais fácil possível para a pessoa consumir. É a mesma coisa que o lance do celular, que a gente não tem mais momento de tédio. Parece que tudo tem que ser extremamente mastigado. Você não é estimulado a pensar sobre uma coisa, procurar, vasculhar, encontrar.
ANDRE SOPRANO: Você não pode perder tempo, parece. Não pode ficar parado sem fazer nada. O ócio foi para o caralho.
L4Z4RO: Antes, eu entrava numa loja e falava: "tem disco para porra, vou demorar uma vida para ver tudo isso". Hoje em dia, as pessoas entram numa loja e falam: "caralho, tem muito disco, não quero nem ver". Eu comecei a ver One Piece, tem mais de mil episódios. Eu me peguei nesse pensamento de “não vou começar a ver um bagulho que tem 1000 episódios”. E eu devia, na verdade, ficar mais motivado, porque vou ter material para ver por muito tempo. Tudo tem que ser rápido, de fácil acesso. Parece que você tá entregando para um bebê.
ANDRE SOPRANO: A gente ataca isso no disco. A galera não pode pensar, não pode ficar sem fazer nada, e você não é encorajado a consumir ou fazer alguma coisa que seja estranha. É uma zona de conforto.
L4Z4RO: É uma frase do disco – “eu tenho certeza de que não fizeram tudo”. As pessoas pensam de uma forma muito em caixas, mesmo. “Ah, é rap com rock, óbvio que já fizeram rap com rock”. Mas eu não fiz, do meu jeito. Eu não peguei essas duas coisas e misturei. Então, vou pegar e fazer. Eu não sei qual vai ser o resultado daquilo, não sei para onde eu vou querer levar aquilo. Acho que esse disco foi, antes de tudo, o nosso manifesto contra a indústria da música, um grande foda-se.
É triste ouvir um som que não te traz nada. E não é também só guerra de referência, também não acho interessante – ficar falando milhões de coisas que ninguém conhece ou que só você conhece. Ou que talvez você nem conheça tanto e só aparentar que manja. Tudo que eu citei é porque eu conheço, consumo e porque aquilo, de alguma forma, me influenciou.

Você se intitula como o "péssimo dos péssimos". Como é essa caracterização dentro de um mercado que valoriza discursos autofirmativos?
L4Z4RO: O rap tem muito esse rolê do “eu sou o foda” – você só conta as vitórias. A gente joga um jogo em que já perdemos. Nós perdemos a guerra. Eu sou o campeão dos fracassos, ao mesmo tempo que não é para ser deprê.
ANDRE SOPRANO: Ninguém ganha tudo. O bichão se abriu, falou os bagulhos que queria falar, sem demagogia. O campeão de fracassos, o péssimo dos péssimos, entortando a cara da torcida.
L4Z4RO: Só cuido do meu umbigo e da minha palavra. Você vai ter depressões, e é falar disso abertamente. Não quer dizer que você vai ficar dentro de um quarto chorando em posição fetal o dia inteiro. Você precisa comer, precisa trabalhar, precisa existir. Foda-se o campeão, foda-se o vencedor, o number one. Quem é o melhor, mano? Eu só sigo o meu caminho e deixo que eles se comparem.
É da hora compartilhar, fazer um som junto – que nem o Igão, que colou, fez a rima dele, participou do disco. O Walter, o JPEGO, a mesma coisa. É da hora fazer com outras pessoas, mas eu só quero fazer. Não quero ter que esperar os planetas se alinharem para eu conseguir fazer um disco. Eu quero dar vazão às paradas. E eu ainda sinto que é tudo muito lento – já tô com milhões de ideias. Esse disco é isso – um manifesto contra o mercado, contra as cartas marcadas do jogo. A gente é o coringa.
ANDRE SOPRANO: Contra a burocracia de tudo, contra a falta de originalidade, contra a chatice.
L4Z4RO: VIDA LOKA ROCK STAR é um grande foda-se à indústria da imbecilidade, do gado, do rebanho. Eu não sou cordeirinho, mas também não quero ser o lobo mau para ficar cuidando de rebanho. A gente é livre pra fazer o que quiser.
E quem é esse Vida Loka Rock Star?
L4Z4RO: VIDA LOKA porque crescer em periferia é aquela coisa – ter visto muito mais do que eu gostaria do crime de perto, dentro do berço, da minha casa. Na minha família, ou você era maluco ou você era ladrão. Eu cresci nesse meio, e se eu tivesse vontade de seguir nesse caminho, eu teria seguido, e seria muito fácil. Mas sempre foi a arte, sempre brisei mais em som, em outras paradas. Ao mesmo tempo que eu não queria ser o nerdão – eu queria jogar bola, queria brincar na rua, ter uma vida.
ROCK STAR porque era mais um sonho, um anseio. Aquela coisa de moleque, de ver o Black Sabbath, o Iron Maiden, ou Metallica – aquela coisa gigante. Eu percebi que tinha esses dois lados, e que tudo isso é uma coisa só.
Esse é o VIDA LOKA ROCK STAR – o cara de quebrada, que trampa numa firma de segunda a sexta, sai do trampo, passa no boteco, vai tomar o pior goró, chegar em casa e ouvir sei lá o quê. Domingo vai estar na beira do campo, vendo o jogo. É o cara que tem esse lado mais sombrio, do rock, mas ele também é parte do meio, tá ali vivendo, fazendo as coisas com todo mundo.
ANDRE SOPRANO: E a capa foi nessa linha. Bichão de polo, na frente do Madame Satã, com a gárgula. A ideia foi essa – a dicotomia do bagulho. Tem rockeiro de quebrada, que vai na biqueira depois do trampo, fuma um e vai no samba – mas chega em casa, vai ouvir uns rock, e quando chamar ele pro rolê, ele vai colar no forró, também. Não tem divisão. É rap, mas é rock, não precisa ter gênero. E a pessoa também. Você não precisa ser só rockeiro, gostar de uma coisa só.
É cada vez mais essa parada do normal, essa padronização das coisas – isso é fascismo. É tentar fazer um bagulho que seja diferente de tudo que tá sendo feito.
L4Z4RO: É porque as pessoas vão aceitando as coisas como dadas. “Eu sou rockeiro, então eu tenho que ir no Madame Satã, tenho que fazer as coisas que a minha galera faz. Isso é uma covardia. Ao mesmo tempo que a galera só não percebe. Às vezes não chega para as pessoas a possibilidade de fazer algo diferente, de ir por outro caminho.
Ramones foi tipo o meu Backstreet Boys, o meu BTS da época. Eu já tava começando a descobrir umas outras coisas, mas não tinha internet em casa ainda. Tinha um mano de uma bomboniere no fundão de Poá, que é até longe da minha casa, mas a gente andava de skate por lá. Eu lembro até hoje da sensação de entrar naquela bomboniere e estar tocando um som que eu nunca tinha ouvido, um gênero que eu nunca tinha ouvido. Era muito rápido, muito frenético. E esse mano me abriu várias portas, porque ele foi muito generoso. Ele trouxe a gente para perto.
Eu saía da casa dele com sacolas de CD, de fanzine, de discos, de VHS. Ele me emprestava as coisas confiando. Eu não tinha nada para emprestar para o cara, não tinha uma contrapartida. Era só porque o cara queria compartilhar a parada e ele sabia da importância daquilo. Aquilo mudou a minha vida para sempre.
Se você não vê a porta, não tem como abrir ela. O VIDA LOKA ROCK STAR é isso – uma porta para outras coisas, para outras formas de pensar, de fazer as coisas. E tem que ter coragem. Vai lá, sem saber que porra que a gente vai fazer, qual será o próximo passo. Essa é a brisa.
Ouça VIDA LOKA ROCK STAR, já disponível nas plataformas digitais