Syú transforma sentimentos em som em EQUILIBRIUM
O novo EP da produtora de drum 'n bass do interior de São Paulo chega hoje nas pistas
Hoje, 29/04, Syú, artista não-binária de 22 anos e natural de Suzano, lançou o EP EQUILIBRIUM pela Humildes, marcando uma nova fase na sua carreira. As músicas misturam batidas de drum 'n bass, jungle e footwork com influências de soul, r&b e funk, em uma sonoridade bastante autêntica e moderna.
"É basicamente sobre tudo que eu vivi nesses últimos anos, especialmente no meu lado pessoal, pra chegar aqui hoje. Eu passei por muitos sufocos, como qualquer artista passa, e principalmente sendo uma pessoa LGBT, dentro de um meio que é muito cis-hétero."
A produtora e DJ movimenta a bass music no interior de São Paulo, conectando as diferentes gerações e polos criativos ao redor do estado por meio da Outra Vision Music, selo e programa de rádio com residência na Veneno Live e na Function FM, além da sua residência na Furduncinho Máximo. Pensando em tudo isso, trocamos uma ideia sobre o lançamento do EP e quais processos estão por trás desse projeto.

O EP mistura alguns gêneros, com um foco no drum 'n bass e no jungle, mas também passando pelos 140 BPM e algumas outras referências. O que está por trás dessas faixas?
Cada faixa ali corresponde a um período da minha carreira. Fizeram 5 anos do projeto Syú agora em janeiro, e 4 que eu comecei a tocar em eventos e tudo mais. A primeira festa que eu toquei foi da PLANOTM, um coletivo que eu participava junto com o NVNSX, Olympio, AK1N, Dantaz e toda essa galera.
Foi um período muito importante da minha carreira, porque foi onde eu aprendi a lidar com a rua, com essa coisa de ser DJ, de tocar nos lugares. Fui literalmente aprendendo, errando e vendo como faz. E o EP corresponde muito a esses períodos – desde o comecinho da PLANO até agora, que eu adentrei muito na cena do techno, na cena rave – são basicamente as minhas experiências ali, sendo transcritas em música.
E quais foram essas experiências?
A bass music como um todo, especificamente no Brasil, é muito cis-hétero-centralizada. Lá fora existem cenas LGBTs, especialmente no drum 'n bass – Gyrofield, Latesleeper, a galera da Unthordox, Nathan X, toda essa galera que faz essa cena de bass music LGBT.
Mas aqui no Brasil é muito difícil. Eu tenho espaço, mas é um pouco mais difícil pra eu conquistar um espaço maior. E o EP corresponde isso, né? As minhas dores, os meus lados frágeis – mas também o meu desenvolvimento, como eu consegui chegar onde eu estou.

O nome do EP vem de uma frase que eu sempre repito – que tudo nessa vida é baseado em equilíbrio. O equilíbrio é necessário pra tudo. Nada muito grandioso, muito forte, mas nada muito pequeno, sabe? Tudo tem que ser equilibrado, em todas as bases da sua vida.
E eu acho que isso corresponde muito bem essa minha fase de hoje, principalmente no drum 'n bass. Eu toco muita coisa pesada nos meus sets, é o som que eu realmente gosto – jump up, deep, minimal. No meu comecinho de carreira, eu tava tocando muito som futurístico, tech, como a galera gosta de chamar – Buunshin, toda essa galera.
E aí veio essa brisa de sair um pouco disso – nos últimos 2/3 anos eu tô consumindo muito liquid drum 'n bass e liquid funk. A minha maior referência disso é a Ivy Lab, eles foram uma peça muito importante. Eu também tô consumindo muito The North Quarter, que é uma label da Holanda que também me influenciou na sonoridade que eu tô tentando buscar hoje, pelo menos dentro do drum 'n bass.
E aí, o restante das sonoridades que você escuta no EP – break beat, techno. A faixa de techno ali no meio vem muito dos meus últimos dois anos, que eu tentei sair um pouco daquela bolha do drum 'n bass e ir pra outros eventos. A NBomb é uma festa que acontece no Recife e teve uma edição, eu acho que ano retrasado, lá no estúdio Lâmina, e foi um dos melhores rolês que eu fui. E era um rolê que não tocou nada de BPM alto, tudo ali era 140/150.
Outro exemplo que me pega muito é a Mamba Negra. Sem sombra de dúvidas, é o maior exemplo dessa sonoridade que eu tento buscar – que também junta com outras referências que eu tenho lá de fora. Eu tô consumindo bastante uma label, a Mutual Rytm, que é uma muito boa.
Tudo isso se junta e se encaixa às minhas experiências. É muito doido, porque cada faixa do EP soa muito distante, mas quando você entende o universo, tudo ali faz sentido.
Durante esse tempo você também esteve movimentando a Outra Vision. Qual é a importância desse projeto?
A Outra Vision é um negócio muito doido, porque ao mesmo tempo que eu gosto de focar na capital, São Paulo, eu foco muito no interior, aqui em Suzano, Mogi das Cruzes, Sorocaba. A gente fez uma festa de Halloween em novembro do ano passado, e a gente levou a dudda, a NOTRN, toda essa galera.
A Outra Vision sempre foi um espaço de experimentação, então ela nunca foi necessariamente focada em bass music. Na Veneno, ela basicamente virou uma extensão de mim – por mais que tenha o nome da Outra Vision, ela é mais uma extensão do meu projeto, porque eu gosto de focar no drum 'n bass, pra dar esse espaço, de uma cena que é muito distinta do underground.
Todo mundo focou em fazer som na capital, para a capital, mas pouca gente focou em fazer coisas pro interior. E desde que eu toquei na OBLIQO, em Sorocaba, com o Marky, eu vi isso – tem uma galera do interior que me escuta, que gosta do meu som. Eu levei a dudda pra Sorocaba, e a galera curtiu – isso é muito bom. Eu tô plantando uma semente, que mais pra frente vai ser boa pra todo mundo, não apenas pra mim.
A minha ideia da Outra Vision Radio é ser basicamente um espaço pra galera descobrir – e eu também catalogar – as festas e tudo que tá acontecendo no cenário. Eu acho isso muito importante. Não é bom apenas pra cena underground, mas também pra galera que tá querendo se inserir no cenário da música eletrônica e do drum 'n bass.

Como surgiu a sua relação com a música eletrônica e o interesse pela produção?
Eu consumo música desde os meus 8 anos e moro num bairro muito periférico, então eu nunca tive acesso à arte de uma forma muito facilitada. A minha inserção pra música, televisão, rádio, foi com a MTV, a Mix FM, a Mix TV, a Energia 97 – isso em 2011/2012, no auge do EDM. Então, eu venho muito dessa coisa do EDM, que até hoje eu escuto e gosto muito. Essa sonoridade moldou muito o meu lado artístico, o meu som.
Quando eu comecei a produzir, eu não tive acesso a muita coisa. Então, foi programa craqueado, VST craqueado e muita fé – aprendendo, acertando e errando. A pandemia foi um dos momentos em que eu mais tive forças – foi ali onde eu entendi o meu caminho na bass music, no drum 'n bass. Foi ali que eu entendi, de fato, onde eu poderia chegar. E eu acho que é isso, basicamente.

Voltando para o EP – o que amarra EQUILIBRIUM conceitualmente? Qual é a cola que junta todas as faixas? E o que você espera desse lançamento agora que já está nas pistas?
Sentimentos. Querendo ou não, na nossa vida, a gente passa por diversos sentimentos, e tudo que eu fiz ali se encaixa dessa forma. Todos os sentimentos que eu vivi – de raiva, tristeza, melancolia – tudo isso se condensou. Até o momento de alegria, de dança.
Eu também tenho várias outras referências, tipo jazz e K-pop – eu consumo muito K-pop. Isso compõe quem eu sou. Um dos nomes mais fortes na cena do techno, que eu consumo muito, é o MALTA; Kontronatura também é uma grande referência pra mim; a galera do CyberKills, que têm um som que eu consumo e que também influencia alguns momentos ali do EP.
Fora os nomes que eu tô consumindo muito da cena lá de fora do drum 'n bass – CYLX, Kompact (UK), iBot, FORC3, Simula. E não posso deixar de falar das crias da Outra Vision – big up para a NOTRN e o HAIIK, que me ajudaram no processo de mix e master. Essa galera da bass music, que me ajudou a desenvolver esse jogo – eu sinto que eu sou uma peça importante, mas outras pessoas também ajudaram a desenvolver esse game, sem sombra de dúvidas.

Eu tenho que agradecer a Alma Miranda, que sempre acreditou no meu trampo. E agradecer também a cena da bass music, que me abraçou nesses últimos anos. O que vocês vão ver daqui pra frente é não apenas estar focada no drum 'n bass, mas também em outras sonoridades. Eu sinto que eu não preciso criar um monte de projetos pra poder mostrar quem sou eu – porque, no final, tudo isso mostra eu, a minha persona.
Eu sinto que o projeto Syú pode passar entre house, techno, dubstep, garage, drum 'n bass, hard, até o funk – eu consigo mostrar todas essas facetas e ainda assim ser eu, sabe?
Ouça EQUILIBRIUM_EP, já disponível nas plataformas digitais, e acompanhe o trabalho de Syú, da Outra Vision Radio na Veneno e na Function, pelas redes sociais.