O futuro do streetwear é feminino

Movimentos recentes mostram que a figura das mulheres no streetwear vai além de reduzir as modelagens

O futuro do streetwear é feminino
Quadro Creations Womenswear Foto: André Iosolini

Ainda (ou já) estamos na metade de 2026, mas já o considero um ano importante no ecossistema do streetwear nacional, que passa por transições bem significativas. Dentre elas, destaco um movimento que até passa pela tradução de códigos masculinos, que marcaram boa parte da história do estilo, mas se firma mesmo na construção de narrativas e camadas próprias. Mais recentemente as marcas brasileiras que nasceram desse cruzamento entre rua, esporte e cultura, parecem ter deixado de enxergar a “linha feminina” como uma variação pontual e passaram a tratar como um campo de experimentação estética, técnica e narrativa.

É importante falar que esse movimento não pode ser reduzido à saias e tops, já que passa por repensar modelagens, materiais, comunicação das marcas e até as referências que compõem um guarda-roupa hoje em dia. Três exemplos recentes ajudam a mapear esse momento: a coleção Cartel Phoebus, da Quadro Creations, que entre as novas peças, teve uma linha feminina desenvolvida pela designer Letícia Ivone; a estreia da Pace nas passarelas, que em seu desfile TYP0J1IG, também apresentou uma primeira proposta de peças femininas; e a coleção de inverno da SAY UR, marca que há alguns anos se coloca como ponte entre o streetwear utilitário e uma sensibilidade mais feminina e autoral.

A parceria entre a marca santo-andreense Quadro Creations, e a mineira Letícia não é novidade, mas ao assumir a direção criativa de womenswear, ela colocou em evidência algo que vem faltando em tentativas anteriores, que é a disposição para redesenhar peças a partir de corpos e modos de uso femininos, em vez de só reduzir a numeração ou rebaixar proporções de peças masculinas. 

A coleção apresentada tem traços que já conversam com o a identidade da marca, como a uma abordagem mais gráfica e os volumes, mas agora reorganiza esses cortes e caimentos pensando em movimento e conforto para silhuetas diversas. Em entrevistas, Letícia deixou claro que essa preocupação de falar sobre mulheres no contexto do streetwear não pode ser um gesto cosmético. É importante considerar um trabalho técnico em cima dos moldes, dos materiais e dos funcionamentos do dia a dia. Quando o feminino é tratado como projeto, ele altera prioridades de produção (moldes, provas, retículas) e também a linguagem visual que a marca coloca na rua ao se apresentar ao mercado.

Na capital paulista a Pace entrou nesse debate com o desfile TYP0J1IG, sendo esse o primeiro da história da marca e também o primeiro com um vocabulário feminino mais assumido. Os diretores Felipe e Juliana Matayoshi sempre encabeçaram os processos criativos e, ao decidir levar essas novas peças ao desfile, demonstram vontade de incorporar elementos femininos sem perder a assinatura da casa, que é conhecida pelos recortes, texturas e um mix entre utilitário e ornamental. A repercussão do desfile na imprensa especializada foi bem grande e para mim só reforça como essas escolhas, quando feitas com propósito, ampliam o alcance da marca para públicos que talvez não estão familiarizados.

Entre esses movimentos mais recentes, a história da SAY UR funciona quase como um estudo de caso. A marca nasceu em 2021 dentro do ecossistema da CLASS, a partir das mãos da Rafaela Sayuri, com uma identidade que mistura referências das culturas pop e tradicional japonesas, com uma linguagem brasileira, e desde então vem construindo uma forma bem original de pensar o feminino dentro do streetwear.

O legal é que a marca desde o começo pensa suas peças para corpos femininos em movimento, e não só para o registro da imagem, então a gente vai ter desde vestidos de manga até jaquetas modulares. É possível observar que existe um diálogo entre seu pensamento de moda aplicado à CLASS, feito em conjunto com seu parceiro Eric Cesar, ao mesmo tempo em que constrói um universo muito próprio, a partir das referências que acumulou desde sua origem.

Essas mudanças, quando observadas todas juntas, me parecem dizer respeito a três campos que precisavam ser reconfigurados nesse mercado: a técnica, a comunicação e a curadoria. Tecnicamente, a atenção à modelagem feminina implica investimentos que não se limitam ao desenho. São ajustes de caimento, testes de movimento do corpo, gramatura do tecido e até como a costura é aplicada em pontos específicos. É um trampo muito grande e exige muito dos times de criação e modelagem, mas quando bem feito entrega um resultado inquestionável.

Em comunicação também rola uma mudança de discurso. O feminino no novo streetwear não é apresentado por meio de estereótipos ou de imagens que o neutralizam. Pelo contrário, já que se antes a ideia de “universalidade” ou de roupas agênero na verdade se construía primeiro a partir de corpos masculinos, agora o inverso também acontece e mulheres são colocadas no centro, enquanto também permitem que homens possam fazer uso do resultado final, ou seja, as roupas.

Acredito que tudo isso altera a relação das marcas com o público, já que a comunicação passa a falar de pertencimento a diferentes contextos, e isso bate também no ecossistema de varejo. O diálogo com espaços de venda permite novas formas de amplificar esse discurso por meio dos canais de comunicação e das vitrines.

Claro, o caminho não é exatamente linear e provavelmente existem vários desafios. Quando a gente fala de inclusão de corpos, invariavelmente passamos pela expansão de grades, falamos de corpos trans ou mesmo pessoas que usam referências de outros gêneros para construir suas identidades e guarda-roupas. A escolha de usar materiais e construções mais trabalhadas também impactam o preço final e tudo isso tem efeito econômico no mercado. No fim, sempre há um risco dessas “coleções femininas” se transformarem em clichês e caricaturas.

Culturalmente, não faltam referências globais e locais para pensar a vestimenta de forma plural e que se conecte com as necessidades dos consumidores de cada marca. Na verdade, ainda estamos longe de esgotar esses arquétipos possíveis dentro das linhas organizadas por gênero.

Estou curioso para ver o que vem por aí, se outras marcas vão apresentar linhas femininas, sem olhar para esse momento só como oportunidade de mercado. O que importa é que enxergo um passo rumo à um futuro mais plural. Se essas coleções citadas são indicativo desse caminho, o streetwear só tem a ganhar alcance e profundidade.


ISMO
Cultura em movimento

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