A tecnologia acabou com o repertório que a gente compartilhava

Do rádio ao streaming, a tecnologia ampliou nosso acesso à música e mudou a maneira como construímos gosto, repertório e referências em comum

A tecnologia acabou com o repertório que a gente compartilhava

Nasci em 1991 e, de vez em quando, me pego cantando uma música que não faço ideia de quando aprendi. Pode ser um pagode dos anos 1990, uma música do Roberto Carlos, um sertanejo que tocava na casa de alguém. Algumas eu nunca procurei, nunca tive em CD e talvez nem colocasse para tocar por vontade própria. Mesmo assim, estão lá.

Por muito tempo, achei que isso dizia alguma coisa sobre o tamanho do repertório da minha geração. Crescemos ouvindo músicas de épocas e gêneros muito diferentes, então parecia razoável imaginar que talvez fôssemos uma das últimas gerações a ter uma formação musical tão variada. Fui atrás de números e a minha pesquisa não sustenta bem essa ideia. Um levantamento global da IFPI, entidade que representa a indústria fonográfica, mostrou que ouvintes escutam, em média, mais de oito gêneros musicais diferentes e que, entre pessoas de 16 a 24 anos, 65% consideram importante ter acesso a músicas de qualquer lugar do mundo.

Será que a diferença não está, então, em quanto repertório temos, mas em como ele se forma? Minha geração conheceu muita música porque simplesmente foi exposta a ela. Quem cresceu com Spotify, YouTube e TikTok tem muito mais poder para decidir o que entra, o que continua e o que pode ser pulado com um único toque na tela (ou com um "Alexa! Próxima!").

Quando escolher o que ouvir era um privilégio

Durante boa parte do século passado, conhecer música dependia de atravessar algumas poucas portas. Rádio, televisão, gravadoras, lojas de discos, revistas e, claro, as pessoas ao redor. Mesmo quando alguém construía uma coleção muito particular, uma parte importante da experiência musical acontecia fora de seu controle: o que estava tocando no carro, na festa, na novela, na casa dos pais.

É fácil olhar para isso com nostalgia, mas aquele sistema também era bastante concentrado. Rádio, televisão e gravadoras tinham enorme poder para decidir quais artistas ganhavam repetição suficiente para se tornarem conhecidos. O repertório compartilhado existia também porque havia poucos canais capazes de colocar uma música diante de milhões de pessoas ao mesmo tempo.

Só que essa limitação produzia um efeito curioso: éramos constantemente apresentados a coisas que não tínhamos pedido. Às vezes gostávamos. Às vezes não. Às vezes apenas ouvíamos tantas vezes que aprendíamos mesmo assim. O repertório se formava numa mistura de escolha, convivência e falta de opção.

De “o que está tocando?” para “o que eu quero ouvir?”

Quem tem mais ou menos a minha idade pegou uma transição inteira: CD, MP3, download, YouTube, streaming. Em poucos anos, a pergunta saiu de “que música eu tenho?” e chegou a “que música existe?”. E hoje a resposta é quase tudo, já que tem até música de IA.

No Brasil, o streaming já responde por praticamente toda a receita de música gravada quando olhamos para os formatos físicos e digitais. No primeiro semestre de 2024, representou 99,2% dessa receita combinada, segundo a Pro-Música Brasil. Não estamos falando mais de uma alternativa ao CD ou ao rádio, mas do modelo que hoje concentra quase toda a receita da música gravada no país.

Essa mudança deslocou o problema. Durante muito tempo, havia limites materiais: dinheiro para comprar discos, espaço para guardá-los, disponibilidade numa loja. Hoje há música demais e tempo de menos.

Quando praticamente tudo está disponível, alguém precisa ajudar a organizar essa abundância. É aí que entram playlists, rádios de artista, reprodução automática e sistemas de recomendação. A curadoria continua muito viva, mas mudou de lugar.

Quem escolhe quando parece que somos nós que escolhemos?

Eu até poderia dizer que antes o rádio escolhia por nós e agora o algoritmo escolhe. Mas a lógica é mais confusa do que isso.

Um sistema de recomendação aprende com aquilo que fazemos. Se procuramos um artista, salvamos uma faixa, repetimos outra ou pulamos uma música rapidamente, estamos produzindo sinais que ajudam a organizar as próximas recomendações. A plataforma interfere no repertório, mas faz isso observando um repertório que nós mesmos já começamos a construir.

Pesquisadores do Spotify analisaram mais de 100 milhões de usuários Premium e encontraram que, para a maioria deles, a escuta iniciada organicamente, pelo próprio usuário, era mais diversa do que a escuta guiada por recomendações. Os próprios autores, porém, alertam que isso não prova que o algoritmo causa uma escuta menos variada.

E vale prestar atenção nessa ressalva, porque o algoritmo também pode fazer o contrário: apresentar artistas, cenas e gêneros que jamais chegariam até nós por meio de uma programação de rádio tradicional. A questão, portanto, não é se a tecnologia amplia ou reduz repertório de maneira automática, mas que tipo de relação ela cria entre aquilo de que já gostamos e aquilo que ainda podemos descobrir.

O que muda quando dá para pular tudo?

Uma parte importante dessa transformação está na nossa relação com o que não agrada imediatamente. No rádio, uma música continuava tocando. No CD, era comum conviver com faixas que não tinham motivado a compra. Na televisão, para esperar um clipe, você assistia a outros. A exposição vinha junto com algum grau de atrito.

Isso não significa que repetição transforme qualquer música numa favorita. Mas a psicologia musical discute há décadas como familiaridade e exposição participam da construção da preferência. Às vezes, gostar também é resultado de conviver.

O streaming nos deu muito mais controle sobre essa convivência. Podemos abandonar uma faixa em segundos, bloquear um artista, trocar de gênero, ajustar uma playlist até que quase nada fuja do esperado. É confortável, mas também reduz algumas situações em que permanecemos diante de algo que não escolhemos.

Acho até que era essa a diferença que minha lembrança geracional estava tentando alcançar. Não tínhamos necessariamente mais curiosidade musical. Muitas vezes apenas éramos expostos a mais coisas sem consultar nossa curiosidade primeiro.

Menos repertório ou menos repertório em comum?

Quando olhamos para ouvintes mais jovens, a ideia de empobrecimento fica ainda mais difícil de sustentar. Uma pesquisa da IFPI (a mesma que menciono na introdução desse texto) mostra interesse por uma variedade grande de gêneros e por músicas produzidas em diferentes partes do mundo.

Uma pessoa de 18 anos hoje pode conhecer profundamente artistas que jamais apareceriam numa rádio brasileira de alcance nacional. Para quem cresceu com uma cultura mais concentrada, essa experiência pode parecer fragmentada. E provavelmente é. Mas fragmentação não significa necessariamente redução.

Talvez uma geração criada com meios de comunicação de massa tivesse acesso a um universo menor, mas compartilhasse uma parcela maior dele. Hoje, o universo disponível é gigantesco, mas o que cada pessoa retira dele pode ser muito particular. Conhecer muita música já não significa necessariamente conhecer aquilo que todo mundo conhece.

Da cultura de massa para muitos centros ao mesmo tempo

Isso não quer dizer que perdemos a experiência coletiva. TikTok, fandoms, playlists e shows continuam reunindo milhões de pessoas em torno das mesmas músicas. A diferença está na escala e na distribuição dessas referências.

Durante décadas, rádio e televisão concentravam audiências enormes ao redor de poucos centros culturais. A internet tornou possível criar comunidades igualmente intensas sem exigir que todo mundo reconheça os mesmos códigos.

Por isso, parece mais preciso dizer que não saímos de uma cultura coletiva para uma cultura individual. Saímos de alguns grandes centros de referência para muitos centros menores, que se cruzam, se sobrepõem e, às vezes, nem sabem da existência uns dos outros.

O repertório que ninguém escolheu

Quando penso nas músicas que conheço sem lembrar quando decidi conhecê-las, fica tentador dizer que minha geração “tinha mais repertório”. A pesquisa não permite essa conclusão. Conheço muita coisa também porque cresci num período em que boa parte da programação cultural simplesmente chegava até mim.

Aquele modelo tinha limitações claras: o acesso era menor, a concentração de poder era maior e muitos artistas ficavam fora dos grandes circuitos. O streaming ampliou radicalmente o que podemos encontrar e tornou possível construir relações com músicas, épocas e cenas que antes dependeriam de dinheiro, localização e sorte.

Chego aqui não mais acreditando que a minha geração foi uma das últimas a conhecer muita música. Pode ter sido uma das últimas a conhecer tanta música por acidente e, principalmente, a dividir boa parte desses acidentes com milhões de outras pessoas.

A tecnologia ampliou radicalmente nosso acesso à música, mas também mudou a maneira como as referências chegam, permanecem e circulam. A pergunta “como você não conhece essa música?” faz cada vez menos sentido. Hoje, duas pessoas podem ouvir música o dia inteiro e ainda assim passar por repertórios quase completamente diferentes.


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