Quando um filme vira sample
Nem só de outras músicas que nascem os samples. A arte de recortar, modificar e construir bases a partir de sons já existentes também passa pelo audiovisual
A gente já falou sobre samples aqui, (inclusive sobre como não é legal ficar explanando pra todo mundo a origem daquele som no beat do seu som preferido), e como a ação de costurar sons alimenta nossos fones há décadas. Mas o que quero falar aqui é sobre o quanto é muito legal ver como a cultura do sample consegue se apoiar nas mais diferentes formas de arte para construir a base perfeita. Estamos acostumados a ver músicas que sampleiam outras músicas, mas a real é que qualquer coisa pode servir de referência.
O audiovisual, por exemplo, é uma mina de ouro na hora de construir sonoridades e, por mais que não seja o mais comum, são inúmeras as músicas que, sem você perceber, resgataram um som de um filme, série ou novela. E assim como nos samples que envolvem só músicas, é legal descobrir e conhecer as origens, fazendo você às vezes se apaixonar por uma nova banda ou artista, uma música pode fazer você se apaixonar por um filme.
Aqui separei alguns samples que não são tão secretos mas que valem a pena serem lembrados, para que você tenha, não só o que ouvir, mas o que assistir durante a semana.
OS GRINGOS
Frank Ocean e Stanley Kubrick
A primeira mixtape do Frank Ocean, Nostalgia, Ultra (2011), apresentou o artista para o mundo e serviu como cartão de visitas para o universo de referências que ele tinha na cabeça. Radiohead, Coldplay e Eagles tiveram suas estruturas musicais “roubadas”, enquanto vinhetas de videogame, principalmente de clássicos de Playstation 1 e Nintendo 64, como Metal Gear Solid (1998) e Golden Eye 007 (1995), entram entre faixas. Mas o que mais curto é a faixa “lovecrimes”, que resgata um diálogo de Eyes Wide Shut (1999), último filme de Stanley Kubrick. A faixa do jovem Frank fala sobre comportamentos tóxicos e complexos que podem ser gerados a partir do amor desequilibrado e da luxúria, e faz um excelente uso de um monólogo de Nicole Kidman, no qual reclama sobre a sua relação com o marido, interpretado por Tom Cruise e que dá início a todo o desenrolar do filme. Para quem não assistiu, vale muito a pena ver.
O filme ainda é citado algumas faixas antes, em “novacane”: “I’m feelin' like Stanley Kubrick, this is some visionary shit Been tryna film pleasure with my eyes wide shut but it keeps on movin'”
Linkin Park x Terence Young
Já que citei 007 na faixa anterior, vou usar o espião britânico para conectar com esse clássico do Linkin Park. Em 2003 a banda americana lançou Meteora, considerado por muitos o melhor disco do grupo por conta da maturidade na produção e nas composições. Do álbum saíram os singles "Somewhere I Belong", "Numb", "From the Inside", "Breaking the Habit" e “Faint”, sendo que esse último usa um sample de 007, mas agora não dos games, mas do cinema mesmo.
A faixa abre com um riff de cordas distorcidas que vieram diretamente do filme Moscou Contra 007 (1963), com Sean Connery. O som em questão veio da trilha sonora original do filme, assinada pelo maestro John Barry, e aparece durante uma cena considerada clássica, na qual uma agente russa chamada Tania é recrutada para ajudar no plano de assassinato de James Bond.
Na faixa original temos uma pequena orquestra de cordas e sopro, criando um cenário de tensão e suspense. Mike Shinoda então pegou alguns trechos, picotou, colocou em reverse, e a mágica estava feita.
Baby Keem x Mulheres de Areia
O último dos gringos faz uma conexão direta com o Brasil. A faixa “Family Ties”, do Baby Keem com o Kendrick Lamar, é um dos singles do álbum de estreia do rapper, e já começa com um sample, acredite se quiser, de “Last Love”, música da banda brasileira Phonoband e feita exclusivamente para ser tema de abertura da novela Mulheres de Areia, em sua primeira edição, de 1973, da TV Tupi.
Como esse som caiu na mão dos primos Kendrick e Keem, eu não sei, mas fato é que uma das músicas mais ouvidas de 2021, um rap/trapzão bate-cabeça, saiu de um som orquestrado aqui, em nossas terras, para uma novela que de tão famosa, teve até remake 20 anos depois.
OS BRASA
LEALL x Martin Scorsese
Para começar, bora com um nome da nova geração que gosta de trazer elementos visuais e sonoros na construção das faixas. LEALL, no álbum Eu Ainda Tenho Coração (2024), ele aborda crises, vivências e reflexões que um jovem negro, brasileiro, pode passar. Na faixa “Malefícios do Dinheiro”, aborda como a grana conquistada com seu trabalho de artista o coloca em conflito com sua história, suas relações e o porque ainda insiste no game.
O carma de tentar não se vender para o sistema enquanto enriquece é um desafio comum de jovens que encontraram na música uma forma de mudar suas realidades. Para complementar a faixa, LEALL, MeLLo e Necon Beat trazem um diálogo de O Lobo de Wall Street (2013), no qual o personagem de Leonardo DiCaprio fala sobre escolher o que faz escolher o dinheiro sempre que é chamado de superficial.
Ludmilla - Bill Duke
Um dos samples mais divertidos da lista é o da faixa “Fala Mal de Mim” da Ludmilla. A música é parte do velho testamento da artista que, depois do funk, já se jogou no R&B, pop, rap, trap e pagode. Mas na faixa em questão, ela resgata um clássico das sessões da tarde: Mudança de Hábito 2 (1993), com Whoopi Goldberg e Lauryn Hill.
A cena em questão, é a do coral da igreja cantando “Oh Happy Day”, na reinauguração da sala de música de um colégio. O momento em que o coral ganha confiança para cantar foi então resgatado por Toninho Aguiar e DJ Will 22, produtores da faixa, e serviu de base para a música que grudou que nem chiclete no ouvido de todo mundo, virou meme, e até hoje, mesmo que não curte, provavelmente sabe cantar.
Racionais x Ray Davies
Racionais é daqueles grupos de artistas que compõem como se fosse um filme. A ambientação, os elementos sonoros complementares, as letras, tudo faz com que você ouça já imaginando os personagens, cenas e situações. Não à toa os discos dos caras estão entre os mais relevantes da nossa história.
A base de “Vida Loka (Parte II)” talvez seja uma das mais famosas da história do rap nacional, ficando tão famosa que pouca gente sabe ou se lembra de onde veio, mas referencia Racionais na hora. O trompete que entra depois da introdução do baixo é não só icônico como uma também é síntese do lado 2 do disco. Em Nada Como um Dia Após o Outro Dia (2002), Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay, constroem as narrativas por meio da dualidade, do chora agora e ri depois. E o trompete sombrio destoa demais da base da parte 1 da faixa.
Para mim, o trecho lembra muito o utilizado na vinheta de abertura do programa SuperCINE, da TV Globo, programa conhecido por passar filmes mais densos, geralmente suspenses ou dramas policiais. Apesar de não ser o mesmo som, os temas se conversam, já que a produção da faixa saiu do álbum Os Detetives - Temas dos Melhores Seriados policiais da TV, uma coletânea brasileira de faixas utilizadas em produções do tipo. No caso da música que emprestou o sax para os Racionais, é “Theme From Kiss Of Blood”, de Ray Davies, que não chegou a fazer parte de um filme ou série, mas decidi incluir aqui porque talvez o roteiro tenha sido escrito pelos próprios Racionais, quando fizeram a música.
MU540 X John G. Avildsen
Aqui não é um sample ou faixa específica, mas um som. Só um som. O “box”, base presente no drum kit “ReiDoBrega” é um barulho seco, distorcido, que atualmente aparece em vários funks e traps nacionais. Acontece que esse som saiu do filme Rocky, O Lutador (1976), com o Sylvester Stallone, e por isso leva esse nome, box(e).
Fica até difícil dizer de onde veio e quem usou, mas entre os mais recentes decidi destacar “tipo, sonho de consumo!”, do Kyan e do MU540, que aliás foi através de quem eu descobri essa história.
André Abujamra x Yoshitoshi Abe
Pra fechar, essa é uma das mais confusas e que sinceramente entra aqui como menção honrosa, porque eu não consigo encontrar a origem da conexão. Acontece que, em 1998, um anime japonês chamado Serial Experiments Lain foi lançado, e parte da narrativa se passava em uma boate. Na época, os produtores do anime convidaram Chikada “J.J” Wasei ser o responsável pela trilha sonora dessa boate fictícia e todos os sons do anime foram lançados em CD anos depois.
A faixa “‘s’peEd”, é um techno de sonoridade bem experimental, com elementos de house, step e UK Garage, mas o que me pegou de surpresa foi um trecho da faixa ter servido como vinheta para o programa “Provocações”, do Antônio Abujamra. Mais especificamente em 2009, o programa passou por um “rebranding” e a vinheta de abertura tinha um som esquisito, como se fossem várias pessoas falando juntas. O som em questão saiu justamente dessa faixa. Agora fica a dúvida: será que o diretor do programa era fã de animes?
Parte do trabalho de grandes produtores musicais parece ser estar atento a todo e qualquer tipo de som ao redor. Me pego pensando se conseguem assistir um filme, ouvir um disco ou andar na rua com esse radar desligado. Independentemente disso, agradeço por saber que o mundo é um grande acervo de sons que podem ser usados para criar sons que vão durar pelo resto da vida.