Por que a gente odeia a Argentina?
Entre cânticos racistas, uma identidade nacional construída em torno da branquitude, provocações dentro de campo e suspeitas sobre a arbitragem, a atual campeã é a grande antagonista da Copa
A Inglaterra esteve a poucos minutos de realizar um feito raro: fazer brasileiros comemorarem uma vitória inglesa como se fosse uma pequena reparação histórica. Não conseguiu. A Argentina saiu atrás, empatou aos 85 minutos e marcou o gol da classificação nos acréscimos, vencendo por 2 a 1 e garantindo mais uma vaga na final da Copa do Mundo.
Para quem torcia contra, ficou a sensação amarga de que, quando a seleção argentina parece finalmente encurralada, alguma coisa acontece: um gol tardio, uma falha do adversário, uma provocação, uma decisão de arbitragem que rende discussão. A Argentina venceu de um jeito que alimenta tudo o que já se pensa sobre ela.
E existe uma contradição curiosa nessa rejeição. Para ver derrotado um vizinho latino-americano, grande parte do público brasileiro estava disposta a torcer pela Inglaterra, potência colonial europeia que ainda disputa com os argentinos a soberania das Ilhas Malvinas. A preferência esportiva não precisa obedecer à geopolítica, claro, mas a facilidade com que qualquer solidariedade latino-americana desaparece quando a Argentina entra em campo diz bastante sobre o tamanho da antipatia.
A rejeição mistura episódios graves e documentados com rivalidade esportiva, ressentimento, nacionalismo y otras cositas más.

O tipo de vitória que piora tudo
A Inglaterra abriu o placar no segundo tempo, recuou e parecia próxima da classificação até Enzo Fernández empatar aos 85 minutos. Nos acréscimos, Messi encontrou Lautaro Martínez, que completou a virada. Para quem já contava os minutos para ver a atual campeã eliminada, foi o pior tipo de derrota: tardia, frustrante e cercada pela sensação de que o roteiro sempre encontra uma brecha para os argentinos.
Esse desfecho reforça uma leitura que acompanha a seleção há anos. Para uns, é competitividade; para outros, é mais um capítulo de uma história em que tudo termina caindo do mesmo lado. Cada gol no fim, cada reclamação e cada decisão discutível chega carregado de um julgamento anterior, como se a partida não servisse apenas para decidir quem avança, mas para confirmar o caráter moral de uma equipe inteira.
A própria Argentina contribui para isso. Os jogadores cercam árbitros, provocam adversários, administram o tempo e transformam a sensação de perseguição em combustível. A catimba faz parte de uma tradição baseada em malícia, pressão e domínio emocional da partida. Para os argentinos, pode significar inteligência e sobrevivência. Para quem enfrenta, geralmente recebe um nome menos generoso. Particularmente, acho irritante.

O racismo não pode ser tratado como folclore
Em julho de 2024, depois da conquista da Copa América, jogadores argentinos foram filmados cantando uma música racista e discriminatória dirigida à seleção francesa. O canto questionava a nacionalidade de atletas negros, relacionava suas origens familiares a países africanos e incluía uma referência transfóbica a Kylian Mbappé. As imagens foram transmitidas por Enzo Fernández, que depois pediu desculpas; a Federação Francesa denunciou o caso e a FIFA abriu uma investigação.

A gravidade estava também no lugar de onde a música saía. Não eram torcedores anônimos em uma arquibancada, mas jogadores da seleção dentro do ônibus da equipe. Parte da reação argentina tentou reduzir o episódio a provocação esportiva ou apontar a hipocrisia da França, um país com passado colonial brutal. Só que o colonialismo europeu não torna menos racista questionar se jogadores negros podem ser franceses.
Também não se tratava de um episódio sem precedentes. Atletas e torcedores brasileiros denunciam com frequência insultos, gestos e imitações de macaco em partidas contra clubes e seleções argentinas. Quando a ofensa racial passa a integrar o repertório da provocação, chamar tudo de “coisa do futebol” vira uma forma de normalização.
Isso não autoriza dizer que todos os argentinos são racistas. A generalização apaga argentinos negros, indígenas, migrantes e militantes antirracistas que enfrentam essas estruturas dentro do próprio país. O racismo existe na Argentina, atravessa sua formação nacional e tem consequências concretas. Justamente por isso, precisa ser entendido como construção histórica, não como característica "natural" de uma população.
Um país latino-americano que aprendeu a se imaginar europeu
A ideia da Argentina como a “Europa da América do Sul” foi construída por políticas migratórias, projetos de embranquecimento e uma narrativa nacional que colocou a ascendência europeia no centro, enquanto diminuía ou apagava a presença negra, indígena e mestiça. Milhões de imigrantes europeus chegaram ao país entre o fim do século XIX e o início do XX, especialmente italianos e espanhóis. A transformação demográfica foi real e a fantasia de uma Argentina exclusivamente branca dependeu de retirar outras populações de sua imagem oficial.
Essa identidade ajudou a definir quem podia representar o país, quais histórias seriam contadas e quem seria empurrado para fora do imaginário nacional. A ideia de que “não existem negros na Argentina”, contestada há décadas por pesquisadores e movimentos afro-argentinos, também serviu para sustentar uma conclusão conveniente: se não havia negros, tampouco poderia existir racismo.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a relação com a Europa ganhou um capítulo especialmente sombrio. Durante o governo de Perón, a Argentina tornou-se um dos principais destinos de nazistas e colaboradores que fugiam do julgamento por crimes de guerra. Adolf Eichmann, Josef Mengele, Erich Priebke e Walter Kutschmann estão entre os nomes que encontraram abrigo no país, muitas vezes amparados por redes de documentos falsos, financiamento e proteção.
Nos arredores de Buenos Aires, Ciudad Jardín Lomas del Palomar tornou-se um dos lugares associados a essa memória. Inaugurado em 1944 e idealizado por um empresário alemão, o bairro tem ruas curvas, passagens e praças internas que alimentaram a imagem de um lugar labiríntico. A origem alemã, os nomes ligados à aviação e histórias sobre antigos moradores ajudaram a consolidar a fama de “bairro nazista”. Túneis encontrados em uma obra recente reacenderam os rumores, embora não exista prova de que tenham servido para esconder fugitivos. A lenda pode exagerar detalhes, mas não é do nada: criminosos nazistas realmente viveram na Argentina durante anos sob diferentes graus de proteção e indiferença.

Isso não transforma o país inteiro em uma continuação do Terceiro Reich. Ajuda, porém, a entender um ambiente político em que identificação com a Europa, anticomunismo e fantasias de branquitude encontraram acolhimento institucional. A Argentina é latino-americana em sua geografia, cultura e desigualdades, mas parte de sua identidade oficial foi construída pela tentativa de se diferenciar da América Latina negra, indígena e mestiça que a cercava.
Messi também aprendeu a ser vilão
Durante boa parte da carreira, Lionel Messi foi apresentado como o oposto de Diego Maradona. Enquanto Maradona era barulhento, político e imprevisível, Messi aparecia como o gênio silencioso, distante de confusões e provocações. Essa oposição sempre foi organizada demais para ser completamente verdadeira e se tornou ainda menos sustentável à medida que Messi assumiu o comando emocional da seleção argentina.
Na Copa de 2022, o “¿Qué mirás, bobo?” dirigido ao holandês Wout Weghorst mostrou ao público uma personalidade que os adversários já conheciam. Messi provoca, reclama, cerca árbitros e disputa também o espaço político da partida. Isso não faz dele um jogador permanentemente desleal, nem diminui sua genialidade. Apenas desmonta a figura higienizada que marcas, dirigentes e parte da imprensa ajudaram a construir.
Nesta Copa, reclamações sobre entradas duras, faltas e punições não aplicadas reforçaram a impressão de que ele recebe tratamento diferente. Parte dessa leitura vem de lances discutíveis e parte vem da distância entre o atleta real e o "santo laico" vendido ao público. Messi não precisa ser santo para ser gênio, mas a insistência em tratá-lo assim torna qualquer gesto menos nobre muito mais visível.

“VARgentina”
As acusações de favorecimento à Argentina cresceram desde a Copa de 2022 e voltaram nesta edição. Torcedores, dirigentes e veículos adversários passaram a reunir pênaltis, cartões, gols anulados e revisões do VAR para defender que a seleção recebe um tratamento especial. Algumas reclamações chegaram às instâncias oficiais, mostrando que o desconforto não ficou restrito às mídias e redes sociais.
Mas calma que isso não prova a existência de um esquema para colocar Messi na final. Uma decisão favorável não é necessariamente uma decisão errada, e uma sequência de lances controversos precisa ser comparada com critérios consistentes. Até aqui, existem reclamações, padrões percebidos e uma arbitragem pouco transparente, combinação perfeita para produzir desconfiança, mas insuficiente para apresentar conspiração como fato.
O apelido “VARgentina” resume uma sensação anterior à análise: quando o time está em dificuldade, alguma decisão parece abrir uma saída. Erros reais alimentam essa narrativa, mas também existe um viés evidente. Quando alguém já acredita que uma equipe é favorecida, cada lance confirma a tese e toda decisão contrária desaparece da memória.
Também é difícil ignorar o valor comercial de uma final com Messi. A FIFA depende de grandes personagens, e a história de uma possível despedida oferece audiência, patrocínio e emoção pronta. O cenário é conveniente, mas conveniência não é prova. Chamar tudo de coincidência seria ingênuo; tratar qualquer erro como esquema também seria.

O que o nosso ódio diz sobre nós?
Brasileiros têm motivos para rejeitar a seleção argentina. Existem rivalidade, derrotas dolorosas, provocações e episódios racistas que não podem ser reduzidos a brincadeira de torcida. A antipatia tem embasamento, mas há algo revelador quando a Argentina vira o grande mal moral do futebol e a Inglaterra, potência colonial responsável por séculos de exploração, aparece como alternativa mais simpática.
Ninguém é obrigado a torcer por outro país apenas porque ele está no mesmo continente. Ainda assim, a rapidez com que qualquer identificação latino-americana desaparece diante da Argentina merece atenção. Talvez porque ela ocupe um lugar incômodo: próxima o bastante para ser familiar, diferente o suficiente para funcionar como rival. Disputamos futebol, protagonismo regional e até versões sobre quem representa melhor a América Latina.
Existe ainda um conforto perigoso na forma como o Brasil denuncia o racismo argentino. Ao apontar um problema real do vizinho, podemos imaginar nosso país como uma democracia racial esclarecida, capaz de observar de fora aquilo que supostamente só acontece do outro lado da fronteira. A história brasileira não sustenta essa superioridade. Nosso futebol também é atravessado por racismo; apenas conhecemos melhor as desculpas usadas aqui.
Criticar o racismo argentino é necessário. Usá-lo para declarar nossa superioridade moral é outra coisa.

E por que a gente odeia a Argentina?
A resposta mais fácil seria dizer que é por causa da rivalidade. E, claro, ela pesa. Brasil e Argentina disputam muito mais do que futebol. Só que a antipatia cresceu para além do campo porque encontrou material concreto: cânticos racistas, provocações recorrentes, uma ideia de superioridade branca construída historicamente e uma seleção que aprendeu a transformar arrogância, pressão e conflito em linguagem própria.
Também existe o modo como a Argentina escolhe se enxergar. Ela reivindica o lugar de país latino-americano quando enfrenta a Inglaterra, fala em colonialismo quando lembra as Malvinas e aciona uma identidade continental quando isso convém. Ao mesmo tempo, parte de sua formação nacional foi construída pela tentativa de se distinguir da América Latina negra, indígena e mestiça. Essa contradição incomoda também porque atravessa toda a região, inclusive o Brasil.

Talvez a gente odeie a Argentina porque ela oferece um adversário fácil de reconhecer. Próxima, barulhenta, competitiva, muitas vezes racista e convencida de sua própria excepcionalidade, ela concentra defeitos que já conhecemos (e alguns que preferimos atribuir somente ao outro). Torcer contra também vira uma forma de se colocar moralmente acima dela, mesmo quando nosso próprio futebol convive com racismo, violência e arrogância parecidos.
Nada disso significa que a rejeição seja injusta ou inventada. Mas ela não tem um motivo único. A gente odeia a Argentina porque ela provoca, vence, ultrapassa limites e insiste em se apresentar como diferente do continente ao qual pertence. E porque, quando olhamos para ela com raiva suficiente, fica mais fácil ignorar o quanto algumas dessas contradições também são nossas.