O ecossistema curatorial da Soul Jazz Records

Uma lojinha que virou selo que virou editora que virou um dos principais polos de documentação de subculturas musicais

O ecossistema curatorial da Soul Jazz Records

A galera da música dificilmente se contenta em ter um único projeto em mãos. Quem toca em banda geralmente se junta com mais gente para montar os projetos paralelos, organizador de festival sempre tem ideia de um novo para lançar, só que se tratando de selos, isso nem sempre é verdade, até porque o mercado está salgado. Mas a Soul Jazz Records é um desses projetos que não quis ficar equilibrando um único prato e construiu um ecossistema inteiro ao redor da paixão pela música.

Fundada por Stuart Baker no início dos anos 1990, saída de uma banquinha de discos usados no mercado de Camden Town, em Londres, a empresa hoje publica livros, de vez em quando produz uns filmes e mantém um catálogo que passeia pelo reggae, house, hip-hop, punk rock, jazz, funk, bossa nova e soul. A lojinha de Baker, que tinha um letreiro escrito “Soul Jazz” na fachada e servia só para dizer aos clientes o tipo de som que se vendia lá dentro, deu nome à gravadora e o espaço físico se tornou a Sounds of Universe, que como o próprio nome já diz, abrange muito mais do que a dupla inicial.

O que torna a Soul Jazz tão interessante em relação ao mercado é justamente essa junção de selo, loja e o braço de livros e filmes. Uma coisa alimenta a outra o tempo inteiro. Primeiro, a loja funciona como termômetro e garimpo onde o andar térreo recebe os lançamentos novos, enquanto o porão guarda o acervo de segunda mão e as raridades, organizadas em categorias que só fazem sentido pra quem já é do ramo. É por lá que Baker e sua trupe absorvem o que as pessoas que realmente são ativas na cena andam procurando. Daí o selo pega esse material e transforma em relançamento e coletânea. No processo de produção todo o material descoberto é utilizado: sons vão para os discos, fotos e textos para os livros e histórias as vezes esquecidas viram capítulos.

Fachada da Sounds of the Universe | Foto: This is Soho

Outra coisa muito legal sobre o catálogo da Soul Jazz, é que os responsáveis pela curadoria e por montar as compilações, ocupam um lugar próximo da autoria, ou seja, não é um trabalho só de organizador. Normalmente o selo evita reprensagem de álbuns clássicos de artistas já muito conhecidos, e prefere mapear cenas regionais inteiras, subculturas marginais e movimentos sociopolíticos que o mercado mainstream deixou passar batido.

Esse trampo de arquivo aparece na relação da Soul Jazz com a Studio One, selo jamaicano de Clement "Coxsone" Dodd, uma verdadeira enciclopédia do reggae. Já a série de compilações Dynamite é elogiada por muita gente do mercado e considerada uma das melhores coletâneas do mundo. Essa parceria entre Soul Jazz e Studio One só rolou porque o próprio Stuart Baker conquistou a confiança de Dodd, e depois que ele morreu, em 2004, o vínculo seguiu com a família.

A música brasileira também é tratada como jóia na mão do selo, que já tem alguns lançamentos dedicados ao nosso som. Em 2006 lançaram Tropicália: A Brazilian Revolution in Sound, onde reuniram uma porrada de nomes centrais para o movimento, como Caetano, Gil, Os Mutantes, Tom Zé e Gal Costa. O legal é que não descolaram o movimento do contexto político que o país passava, e toda a estética é construída com base na pesquisa de elementos que representam a repressão da ditadura militar que rendeu a prisão e exílio de alguns desses artistas.

Mais recentemente rolou a série de compactos Brazil Funk Power — Brazilian Funk & Samba Soul (2020), que olhou para outros sons brasileiros, resgatando a música negra dos anos 1970. Aqui estão nomes como Jorge Ben, Tim Maia, Cassiano e Dom Um Romão. A lógica do projeto é muito similar ao da série Freedom, Rhythm and Sound (2009), que documenta o free jazz afro-americano ligado ao movimento pelos direitos civis. Ou seja, pegaram cenas musicais historicamente marginalizadas e deram nova visibilidade, apresentando contextos e reunindo materiais que antes não tinha sido vistos juntos. 

Tem mais ou menos quinze anos que a Soul Jazz começou a publicar livros, e estou falando de livros grandões, do tamanho de uma capa de vinil de 12 polegadas. A escolha do formato claro que tem um fundo de estética, mas também mostra que eles enxergam o braço editorial com o mesmo cuidado e importância que o braço musical. Livro e disco ocupam o mesmo espaço da prateleira.

Assim como o trabalho feito com a Studio One, outras coletâneas viraram peças incontornáveis de quem ama ou quer conhecer certos gêneros: Dancehall — The Rise of Jamaican Dancehall Culture (2008), de Beth Lesser; Voguing and the House Ballroom Scene of New York City (2011), com fotos da Chantal Regnault, e Punk 45: The Singles Cover Art of Punk 1976-80 (2013), um calhamaço de 400 páginas com centenas de capas e entrevistas com nomes como Peter Saville, Jamie Reid e Geoff Travis. No audiovisual, o documentário Mirror to the Soul — Music, Culture and Identity in the Caribbean (2013) foi montado inteiro a partir de materiais de arquivo e revisita a diáspora caribenha no Reino Unido.

O design é um espetáculo à parte, e Baker há décadas trabalha diretamente nessa frente, somando sempre com os mesmos parceiros. Desde a fundação já foram centenas de capas produzidas numa dinâmica bem artesanal. Sem terceirização, sem IA e sem automação, o trampo é sempre autoral e leva o mesmo cuidado que as mixagens, as fotografias, os textos e o acabamento final do produto.

Visualmente o catálogo construiu uma identidade própria que puxa para os blocos de cor sólida, tipografia forte, fotografias de arquivo, contraste… Dificilmente você vai olhar para um trabalho da Soul Jazz e vai achar que é de outro selo, e o legal é que isso independe do gênero. Pode ser um disco de funk, de reggae ou de música eletrônica experimental alemã, todos compartilham dos mesmos códigos, sem deixarem de também se comunicarem com as estéticas locais de cada cena. De certa forma tem uma função nessa coerência, já que, independente do que você adquirir, tem a garantia de que aquele disco ou livro carrega o mesmo peso que as edições mais consagradas. 

Mais de três décadas depois da banquinha de discos no mercado de Camden Town, a Soul Jazz acumula centenas de discos lançados, uma dezena de livros e um par de filmes, tudo documentando cenas e culturas musicais do mundo todo. Por isso retomo o começo do texto para me corrigir e dizer que a empreitada de Baker é um projeto de pesquisa e documentação. Tem o selo, claro, mas loja, disco, livros e filmes recuperam juntos, através de cada lançamento, capítulos da história escritos por meio da música.


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