“Estou só fazendo graffiti, por favor não me mate” - Um rolê com a Lady Pink na Nova York dos anos 70

Um dos principais nomes do graffiti dos anos 70 de Nova York é uma mulher equatoriana

“Estou só fazendo graffiti, por favor não me mate” - Um rolê com a Lady Pink na Nova York dos anos 70
Lady Link por Martha Cooper

O graffiti se popularizou nos anos 70 em Nova York, nos Estados Unidos, e se tornou fenômeno de grandes cidades ao redor do mundo logo depois. Por mais que já existissem registros nas paredes desde a antiguidade, foi a cidade dos Yankees que viu o boom de artistas que colocavam suas letras e desenhos nas paredes, fazendo deste um movimento de arte, contracultura e subversão que influenciaria jovens do mundo todo. 

Se não existiam espaços para todos nas galerias de arte, as paredes, muros e trens das cidades virariam morada de expressões que incomodariam, interferiam na paz visual urbana e passavam a mensagem: “estamos aqui, agora, e estamos vivos”. 

Dentre os nomes dos pioneiros do graffiti , de Taki 183 a Dondi, uma mulher era referência na cultura, trazendo desenhos e letras com muita personalidade: Lady Pink, que nasceu no Equador e foi criada nas ruas de Nova York. Sandra Fabara, a Lady Pink, nasceu em 1964 e foi para os EUA ainda criança. Foi na escola que o graffiti entrou na sua vida. Sandra ganhou o apelido Pink do lendário Seen e o “Lady” veio por sua paixão por literatura. 

Se você assiste o filme “Wild Style” de 1983, dirigido por Charlie Aheran, Sandra aparece fazendo o papel de Rose “Lady Bug”, grafiteira que praticamente vive sua vida, mas dessa vez no cinema. Sua arte é mais conhecida do que seu papel no filme, mas pra você ter noção do tamanho da Lady Pink no graffiti, ela participou até do rolê de cinema que melhor representou a cultura até então. 

Lady Pink em Wild Style

Nova York nos anos 70 era brutal, perigoso pra caramba, tinha muita violência acontecendo, gangues e brutalidade policial. Nesse cenário de caos, os jovens da cidade se rebelavam através de seus movimentos, seja na música punk ou na arte, como o graffiti, interagindo à sua maneira com as adversidades da época. “Para ir encontrar meus amigos no meio da noite, eu tinha que carregar uma faca”, conta Lady Pink, em entrevista para o Living Proof NY. “Sabe o que você encontrava em becos escuros na cidade de Nova York? Você nem quer saber; só chacoalha sua lata de spray e reza pra eles não te matarem”. 

Aos 13 anos, Sandra viu sua vida mudar através dos amigos da escola, fumando maconha e aprendendo a fazer graffiti, tendo toda uma escolaridade das ruas entrando em sua personalidade. “Uma jovem de escola de artes não era tão aceito no underground, então tive que desenvolver uma atitude de rua, malvada e cruel”, comenta Lady Pink. Aos 15 anos, ela conheceu o graffiti e sua vida virou a arte.

Lady Pink por Matt Weber

Os rolês eram quase todos de madrugada, saindo escondida da casa da mãe, pulando da janela. Enquanto o mundo da arte estava tornando pinturas em produtos, quase como commodities, importando mais quem o artista conhecia do que propriamente a arte, os jovens que não se encontravam nesse espaço das galerias estavam saindo para as ruas de madrugada para pintarem seus nomes e apelidos nos mais variados espaços. Os vagões de trens, por exemplo, eram uma forma de ter a sua marca passando por Nova York inteira, pra todo mundo ver. Ela era membro do TC5, o The Cool 5, uma das crews de hip hop mais lendárias e começou a ganhar muita notoriedade com suas artes em muros e trens na cidade. Nessa mesma época, ela cria a Ladies of the Arts, a LOTA, a primeira crew de graffiti só com mulheres. 

Trens dos anos 70 e 80 feitos por Lady Pink e outros artistas (fotos: LadyPinkNYC)
“Toda era é glorificada décadas depois. Você só vê a parte boa e as coisas que marcaram, mas toda era tem seus problemas. Quando eu comecei, as ruas não eram seguras para as mulheres e nem tudo que acontecia de bom era pra mulheres. Tinha muita coisa zoada acontecendo, é mais fácil em algumas áreas para mulheres hoje em dia serem envolvidas. Na minha época, tinha muito sexismo, muita hostilidade. Tive que ganhar meu respeito do jeito difícil" - Lady Pink

Nos anos 80, Sandra e outros artistas do graffiti começaram a ser reconhecidos por galeristas e suas obras adentraram as paredes, não só as de fora. A partir desse movimento de enxergar o graffiti enquanto arte, grafiteiros começaram a ter outros status, se tornando lendas do movimento e referências na street art. Sua primeira exibição solo em galeria foi aos 21 anos, no Moore College of Art e depois disso ela se dedicou a esses trabalhos menos trasngressores, mas com muita referência na arte de rua em cores vibrantes e a estética do graffiti. 

Lady Pink  se tornou um desses nomes icônicos, mas nem assim ela deixou de ter policiais invadindo sua casa e pegando quaisquer materiais que considerassem crime. Em 2003, a polícia de Nova York fez uma busca em sua casa na cidade e apreendeu inúmeros livros, vídeos e latas de spray. “Qualquer um que fizesse certo sucesso no que eles consideravam crime, eles iam perturbar”, comenta Sandra. Com isso, ela e a família se mudaram para uma área rural do Estado e vivem por lá até hoje. 

Shapes para uma collab com a Supreme

A arte de Lady Pink foi além das paredes, se estabelecendo no mundo da arte, assim como em colaborações com o mundo fashion, como com a Supreme, Lancôme e Louis Vuitton. Suas obras no início de sua carreira traziam o graffiti nova-iorquino em sua origem: as letras. Depois, sua arte foi ganhando outros elementos, como a figura feminina e o ambiente onde a população periférica vivia. 


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