Music Eletro Sem Massagem, Vol.1, por Zoe Beats e rotciv_

O EP colaborativo sintetiza os quatro anos de parceria entre o produtor e o MC que representam o grime em Recife

Music Eletro Sem Massagem, Vol.1, por Zoe Beats e rotciv_

No dia 02 de julho, Zoe Beats e rotciv_ lançaram o EP Music Eletro Sem Massagem, Vol.1, projeto de três faixas que sintetiza os estudos e aprendizados dos últimos quatro anos da parceria entre o produtor e o MC. Representantes da cena de grime recifense, procuraram explorar, em suas sonoridades, novos contornos do gênero e outras variedades da música eletrônica underground, misturadas com as influências locais e as vivências do cotidiano.

Zoe conta que começou a produzir as faixas quando foi convidado para tocar no Festival NO AR COQUETEL MOLOTOV junto com a SPEEDTEST, em 2024 – ele não chegou a tocar nenhuma delas no evento, mas o projeto começava a dar os seus primeiros passos. Das várias músicas produzidas na época, três foram selecionadas para compor o EP que dá início à esse novo momento sonoro da trajetória dos artistas.

"O Music Eletro Sem Massagem é exatamente isso – a musicalidade que a gente se identifica e quer fazer. Tudo junto – seja o grime, o UK garage, o breakbeat, isso tudo formando a nossa musicalidade junto com a cultura da nossa cidade, que é muito importante. Eu sinto que a música que a gente produz aqui tem que trazer a nossa pernambucanidade, a nossa região, em cima disso." – rotciv_

O clipe de "TACTAN", dirigido por Ronny Colors, reúne imagens gravadas na viagem para o Rio de Janeiro que aconteceu no ano passado

Essa mistura de subgêneros da música eletrônica com ritmos tradicionais da música brasileira – como o manguebeat e o coco – serve como base para as barras de rotciv_, que retratam o seu cotidiano e também incorporam referências dessa musicalidade tradicional. "Às vezes, eu tô batendo cabeça querendo escrever uma letra quente, de grime, e esqueço das musicalidades daqui – principalmente Caju & Castanha, quem não ouviu falar de Caju & Castanha? A dicção que eles têm ali, a forma de elaborar rima, é uma aula para MC de grime", explica o MC, que tem uma conexão profunda e antiga com o Recife:

"É o corre do dia a dia, a nossa vida pessoal. A gente tá fazendo música, tá representando o nosso estado, conhecendo pessoas. A gente é da terra do mangue, então o que não falta é influência. Quando eu era bem mais novo, quando tava de skate, eu vivia muito aqui no centro – eu não sei como eu conseguia passar o dia todo na rua só bebendo água, comendo biscoito e andando de skate. Eu olho para o Recife, e ele tá lá do mesmo jeito. É algo eterno e tá tudo acontecendo ao mesmo tempo. Algo que eu realmente não faria é se mudar daqui – a gente tá aqui e realmente sente que tá no nosso lugar."

Zoe acrescenta que essa mistura também procura conversar com a tradição da música eletrônica brasileira de misturar esses ritmos de fora com as referências daqui, como o que aconteceu, por exemplo, com o movimento do drum 'n bass no começo do anos 2000: "A nossa principal influência – que é o manguebeat, Chico Science e Nação Zumbi – é uma parada que é muito a cara da nossa musicalidade. A gente sempre tenta trazer à tona, não tão diretamente, para não ficar repetitivo. A gente tenta trazer a nossa identidade sonora, com as referências que a gente tem, realmente do nosso jeito – e tentando manter essas características do passado.

Eu acho que são as vivências, mesmo. Aqui embaixo do prédio é um lugar que as ideias ficam pocando no ar. A vida é isso aqui – o centro da cidade. Eu tô aqui nesse momento, tá ligado? É muito o lugar, também".

A criação do destalado., projeto de grime sets de Zoe com MC's locais, se deu com o grande desafio de apresentar o gênero para a região. A cena, já nichada, do rap teve dificuldade de entender a proposta, embora boa parte desses artistas tenham somado e hoje em dia façam parte do movimento do grime em Recife. A fusão da música eletrônica com o rap não seria fácil, principalmente pela cultura elitizada e classista que se instaurou no universo das raves e dos clubs.

"A gente aqui, com o grime, levanta essa bandeira do underground junto com a música eletrônica. Querendo ou não, a música eletrônica foi embranquecida o máximo possível dentro do mercado, e a gente traz essa pauta, com o Music Eletro Sem Massagem, de algo mais agressivo, mais rua, mesmo, pista de verdade – os clubs daqui, com curadoria da IDLIBRA, são as festas que eu mais me identifico de uns anos para cá", explica roticv_, que acrescenta:

"Por mais que tenha o MC inserido no grime, ele vem da base da educação do rap. Quando eu conheci o grime, eu tive que começar tudo do zero – tive que entender como se rima, a batida, é outro universo. Para a pessoa que tem dúvida, e quer saber o que é aquilo, é só ir atrás. Resumidamente, não é rap – faz parte do universo da música eletrônica, é uma vertente. Eu sempre tenho essa conversa nos rolês. Hoje, a gente só tem a preocupação de fazer um trabalho bem feito, com uma sonoridade bem feita – e por mais que a pessoa não saiba de que universo aquela música, ela esteja lá curtindo."

O episódio piloto do destalado. foi junto com o rotciv_, quatro anos atrás

Mesmo que conectados com a cena de grime ao redor do país, as trocas com o pessoal dos outros estados não são simples, e as distâncias culturais interferem nessas relações, como explica Zoe: "A gente é do Nordeste, do lado de cá, e muitas vezes somos interpretados de outro jeito porque a gente tem outra marra, outro jeito de lidar e até de se comunicar. Para a galera, pode até soar estranho, ou que a gente quer ser diferente, mas não – é o nosso jeito de ser, mesmo, principalmente pelo fato da gente ser da onde a gente é."

Ainda assim, rotciv_ acrescenta que as passagens recentes por outros estados foram positivas, e que algumas conexões verdadeiras surgiram desses encontros, resultado dessa construção coletiva do grime no Brasil: "Por onde a gente passou, a gente conseguiu fazer uma ligação legal com o pessoal – não tanto de postura de artista, mas de acolhimento, de convivência, de trocas muito boas. Não foram rolês pro cara ir lá fazer o trampo e só – eu tive experiências ótimas, trocas além da música. Eu acredito que o nosso trabalho, por si só, dá o nosso devido lugar, onde quer que esteja rolando grime ou música eletrônica. A gente merece o nosso lugar, o nosso espaço, pela musicalidade que a gente se empenhou e vem se empenhando tanto em fazer aqui.

A galera da xenofobia, que acha que nós do nordeste somos diferentes, que continuem achando, porque o nosso trabalho por si só mostra quem a gente realmente é – porque a gente carrega muita autenticidade e postura. A gente não faz só por estar no hype ou porque é legal, a gente faz porque é a gente mesmo ali, a gente se identifica."

O Music Eletro Sem Massagem, Vol.1 chegou nas pistas depois de bastante tempo sendo produzido, e foi profundamente atravessado pelas vivências recentes dos artistas. A viagem pelo sudeste no ano passado, que contou com a presença de Afroh, impactou diretamente no desenvolvimento do projeto.

"A viagem foi bem importante para a gente conseguir traduzir tudo isso. Estar representando, fazendo nosso nome, tocando – todo esse tempo de trabalho, de aprendizado, fazendo música boa, fazendo música ruim e aprendendo. Depois da viagem muita coisa aconteceu – Fortaleza, Bahia – e eu acho que isso só destravou mais e consolidou mais ainda a nossa ideia do que é o Music Eletro Sem Massagem." – Zoe Beats

O lançamento dá início a um novo momento para as suas carreiras, marcado por uma liberdade criativa e uma musicalidade cada vez mais própria, como conta rotciv_: "Ele traz muito dessa confortabilidade, para a gente poder produzir e cantar o que a gente bem entende. Eu amo grime, mas quero cantar em cima de um UK garage, um drum 'n bass. Para mim, expande o universo para o MC se encontrar como indivíduo no rolê da música eletrônica, dos clubes.

É muito foda a música na nossa vida aqui, principalmente aqui em Recife, em Pernambuco, no Nordeste. As coisas só acontecem mesmo se você for, correr atrás e fizer. Tem que ser sangue ruim aqui, velho."

Music Eletro Sem Massagem, Vol.1 já está disponível nas plataformas digitais ouça e acompanhe o trabalho de Zoe Beats e rotciv_


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