Dez anos, três continentes e uma palavra: saudade
Fernando Marar transformou o sentimento intraduzível em livro
Talvez você tenha ouvido falar que a palavra “saudade” só existe em português, e que é praticamente impossível traduzi-la. Foi tentando explicar esse sentimento tão nosso para quem nunca ouviu o termo que o designer Fernando Marar começou, lá em 2016, uma pesquisa que atravessou dez anos, três continentes e centenas de conversas. O resultado chegou agora em forma de livro: o Dicionário Popular da Saudade, sua estreia como autor, lançado pela Lama Livros.
Se engana quem pensa que e é só um dicionário no sentido tradicional, já que a obra reúne definições populares, entrevistas, crônicas e experimentações visuais inspiradas na poesia concreta, tudo isso para mapear os mais diversos significados de uma palavra que se recusa a caber em um verbete. Bilíngue, o livro coloca português e inglês lado a lado, como um gesto que carrega o motivo de criação do projeto, que tinha como objetivo transformar em linguagem algo que já nasceu impossível de traduzir.
Para entender um pouco mais o processo por trás dessa década de pesquisa, e o que ele descobriu sobre a saudade, troquei uma ideia com Fernando Marar que você confere abaixo.

Fernando, depois de 10 anos de pesquisa, o que mudou na sua própria relação com a palavra "saudade"? Fica aquela sensação de repetir várias vezes ao ponto dela perder (ou ganhar) sentido?
Ao longo desses dez anos, fui descobrindo não apenas a profundidade da palavra “saudade”, mas o quanto qualquer palavra pode carregar muitas histórias dentro de si. Sempre tive esse hábito de repetir certas palavras mentalmente até o ponto em que elas quase perdiam o sentido. Com “saudade”, porém, aconteceu o contrário. Quanto mais eu a repetia, pesquisava e escutava as pessoas falarem sobre ela, mais significado ela parecia ganhar.
Quando vemos a palavra “saudade”, talvez não pensemos imediatamente na palavra em si, mas nas imagens, nos cheiros, nos sons e nas lembranças que ela desperta. Embora as respostas que recebi ao longo da pesquisa quase sempre convergissem para ideias sobre memórias, tempo, espaço e afeto, cada pessoa projetava ali uma experiência muito particular. Foi essa amplitude que me fez perceber a potência daquelas sete letras em sequência.
Como designer com grande interesse por tipografia, também passei a entender a própria palavra como uma forma de expressão visual. Uma fotografia, por exemplo, pode ser extremamente potente, mas tende a representar uma saudade mais específica. A palavra, por outro lado, oferece um espaço para que cada pessoa enxergue suas próprias memórias e sinta as suas próprias saudades.
Isso também aparece no lettering que criei para o projeto em 2016. As letras são diferentes entre si, parecem pertencer a uma mesma família tipográfica e, ao mesmo tempo, parecem ter vindo de lugares distintos e sido reunidas ali. Para mim, isso também evoca algum tipo de memória.
Nunca mais alterei essas letras. Dez anos depois, usei o mesmo lettering no livro e o utilizei para refazer os cartazes, agora em uma versão produzida com tipos de madeira. Por isso, não sinto que “saudade” tenha perdido o significado de tanto ser repetida. Pelo contrário, durante esses dez anos, ela foi acumulando sentidos.






Impressão do livro | Divulgação
Ainda sobre o período de pesquisa, houve algum momento em que você quase a abandonou, ou ela sempre teve um ritmo de acúmulo lento?
Houve, sim, momentos em que pensei em abandonar a pesquisa. No começo, eu estava muito empolgado. Em 2016, voltei de uma temporada de quase um mês em Nova York, onde estava visitando um amigo, com muita vontade de continuar expandindo aquela investigação. Criei então um primeiro questionário no Google, perguntando às pessoas o que era saudade, e recebi aproximadamente 300 respostas. A ideia do dicionário já estava ali.
Com o tempo, fui percebendo que, para tratar o tema da maneira como eu imaginava, precisaria ampliar e aprofundar muito a pesquisa. Comecei a pensar em outras formas de enriquecer o material, como fazer um documentário, conversar com especialistas e encontrar pessoas que pudessem me ajudar. Como designer, não tenho uma formação específica em linguística, etimologia ou história e isso me intimidava. Durante alguns anos, carreguei a ideia comigo, mas tinha medo de falar sobre um assunto do qual não era especialista.
Depois daquele primeiro período de muita intensidade, a pesquisa entrou em um ritmo mais lento. Mantive o formulário aberto e, ocasionalmente, apareciam novas respostas. Ao mesmo tempo, eu continuava pensando no projeto e procurando parceiros, embora ainda não soubesse exatamente por onde recomeçar ou como transformar todo aquele material em um livro.
Então, acho que as duas coisas aconteceram. Houve um primeiro impulso muito forte, seguido por anos de acúmulo mais lento, e também momentos em que pensei que não conseguiria, que o trabalho era grande demais ou que simplesmente não era para mim. Mas sempre permanecia aquele peso de ter encontrado uma ideia que eu precisava colocar no mundo.
Quando publiquei os primeiros cartazes em 2016 e algumas pessoas começaram a me escrever, percebi que talvez aquilo realmente fizesse sentido. Talvez fosse uma maneira diferente de tentar explicar o significado de uma palavra tão característica da língua portuguesa. Essa sensação nunca desapareceu completamente e foi o que me fez continuar voltando ao projeto.






Sobre a parceria com o Rafael Campello, o que você acredita que ele trouxe ao projeto que talvez você não conseguiria sozinho?
Durante muito tempo, imaginei que eu teria a ideia e que outra pessoa poderia escrever o livro comigo, ou até por mim. Eu repetia para mim mesmo que não era escritor. Por isso, comecei a procurar parceiros que pudessem me ajudar a colocar o projeto de pé.
Eu já conhecia o Rafa havia bastante tempo, gostava muito do trabalho dele e, principalmente, da maneira como ele escrevia. Quando comecei a contar a ideia, ainda estava procurando alguém que pudesse assumir essa parte do projeto. Logo nos primeiros encontros, porém, ele me disse: “Fê, acho que é você que vai ter que escrever esse livro, porque essa história é sua”.
Às vezes, um comentário aparentemente simples muda tudo. O Rafa me ajudou a perceber que o livro não precisava ser a obra de um especialista tentando oferecer uma explicação definitiva sobre a saudade. Ele poderia ser a história da minha própria jornada para tentar descobrir, compreender e traduzir esse sentimento.
Eu funciono muito bem quando trabalho em parceria com alguém em cujo critério confio, alguém que também me provoca e me motiva a continuar. O Rafa ocupou esse lugar. Ele ficou ao meu lado durante o processo, lendo os textos, ajudando a melhorá-los, fazendo perguntas e me provocando a escrever outras coisas. Muitas vezes, ele resgatava alguma história ou curiosidade que eu já havia contado em uma conversa e me mostrava que aquilo também poderia fazer parte do livro. Além de ter contribuído com uma das crônicas presentes no livro e também de ajudar a expandir e definir a qualidade literária das definições que recebi ao longo do tempo que compõe este primeiro volume.
Ter alguém assim ao meu lado me deu confiança e energia para continuar. Foi a partir dessa parceria que comecei, de fato, a realizar vários desejos antigos do projeto, como conversar com pessoas de diferentes países de língua portuguesa, entrevistar um linguista, pesquisar artigos e publicações sobre a história e a etimologia da palavra e tentar cobrir tudo o que eu acreditava que deveria estar na publicação.
É claro que sempre faltará alguma coisa quando se trata de uma palavra tão ampla. Por isso, inclusive, organizei o projeto como um primeiro volume, deixando aberta a possibilidade de continuar expandindo a obra com novas definições e histórias. Mas o Rafa me ajudou a encontrar o lugar de onde eu poderia contar essa história. Talvez essa tenha sido a contribuição mais importante. Ele não escreveu o livro por mim; ele me fez acreditar que eu poderia escrevê-lo.

Como a experimentação visual e o próprio desenho das palavras ajudam a construir a narrativa e a traduzir um sentimento tão complexo? Como designer, para você a forma das palavras carrega tanto peso quanto o conteúdo?
A experimentação visual foi fundamental para construir a narrativa do projeto porque eu nunca quis oferecer uma tradução objetiva ou definitiva para a saudade. Estamos falando de um sentimento, e sentimentos dependem muito do repertório de cada pessoa. A literatura tem esse poder. Ao apresentar uma experiência por meio das palavras, permitimos que o leitor complete as imagens a partir das próprias memórias.
Isso fica evidente quando um livro é adaptado para o cinema. Às vezes, não reconhecemos na tela aquilo que imaginamos durante a leitura, porque estamos diante da interpretação visual de outra pessoa. No caso da saudade, eu queria preservar justamente esse espaço de projeção. Por isso, trabalhar essencialmente com palavras me pareceu a melhor maneira de permitir que cada pessoa enxergasse ali as suas próprias saudades.
Em 2016, comecei com apenas três definições, traduzidas para o inglês. A partir daí, fui tomando uma série de pequenas decisões para tentar materializar o sentimento: usar sempre aquelas sete letras em sequência, criar uma forma visual reconhecível e escolher uma cor que também se aproximasse daquela emoção. O laranja surgiu porque me parecia uma cor de amor, mas não do amor vermelho. Era uma forma de sugerir uma temperatura emocional sem determiná-la completamente.
Depois, comecei a ampliar a pesquisa e a reunir cada vez mais definições. Entendi que, quanto maior fosse o número de exemplos e de contextos, maiores seriam as possibilidades de identificação. No livro, praticamente nunca traduzimos a palavra “saudade”; traduzimos todo o restante. Quanto mais contexto oferecemos ao redor dela, mais pessoas podem encontrar um caminho próprio para compreendê-la.
Como designer, acredito, sim, que a forma das palavras pode carregar tanto peso quanto o conteúdo. Eu olho para as letras também como elementos gráficos, e parte do meu trabalho consiste em observar uma palavra e pensar no que o seu desenho expressa. Isso já estava presente no lettering de “saudade”. Como mencionei anteriormente, são letras diferentes entre si, mas que, de alguma forma, parecem pertencer ao mesmo conjunto. São formas cheias, presentes e impactantes, porque a saudade também pode ter esse impacto e peso.
O projeto gráfico do livro amplia essa relação. Em determinado momento, quase 200 páginas constroem uma espécie de furo no centro do livro e, ao final dele, aparece a palavra “saudade”. É uma maneira de materializar graficamente essa ausência que, paradoxalmente, se faz presente. Em outras páginas, as definições se transformam em pequenas poesias visuais. Na frase “saudade é a felicidade quando envelhece”, por exemplo, a composição forma uma espécie de rosto sorrindo.
Recentemente, li "Aos pés da letra", de Gregório Duvivier, e me identifiquei com a discussão sobre como certos sons e formas parecem carregar características visuais. Ele traz um exemplo através das palavras (se eu não estiver enganado) "Kiki" e "Buba", em que uma palavra parece mais "pontuda" e a outra, mais "gorducha". É muito próximo da maneira como enxergo as palavras. Não apenas como conteúdo, mas também como desenho, ritmo, volume e composição.
Isso não significa que toda palavra seja uma representação visual objetiva de seu significado. No caso de “saudade”, inclusive, as associações são necessariamente subjetivas, porque o próprio sentimento também é de certa forma. Mas acredito que o design pode reforçar, tensionar ou expandir aquilo que uma palavra comunica. Neste projeto, tentei usar essa possibilidade não para explicar definitivamente a saudade, mas para expandir os exemplos no intuito de ampliar as possibilidades de alguém que desconhece a palavra, captar de alguma forma o seu significado.
mini- sobre a impressão do cartaz “10 anos de Saudade”
Se você ficou interessado no Dicionário Popular da Saudade, ele já está disponível para aquisição pela Martins Fontes.
Para ampliar os sentidos do projeto, no próximo sábado, dia 12 de setembro, também vai rolar uma oficina de impressão na Oficina Tipográfica de São Paulo, com Fernando Marar, Marcos Mello, Nicolas Camargo e Rafael Campello. O encontro passa por uma conversa sobre o desenvolvimento do livro e depois os participantes vão, a partir da prática, conhecer um pouco mais sobre os processos de impressão tipográfica.
A entrada é gratuita, com vagas limitadas. Se inscreva por aqui