Paulo Sérgio Valle: o maior dos hit-makers
De "Samba de Verão" a "Evidências", passando pelo jingle de fim de ano da Globo, o cara só canetou sucessos
Durante uma festa, um amigo compartilhou comigo sua experiência pelo Carnaval de Salvador de 2025, e como ficou impressionado com o tamanho de Ivete Sangalo na capital baiana. Me dizia que, assim que ela começou a cantar “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, sucesso de 2000, o público começou a chorar e cantar a plenos pulmões, emocionado, como se fosse a última oportunidade em vida que teriam de celebrar aquele momento. “Meu coração, sem direção…” esse amigo começou a cantar, exemplificando a cena, e me peguei continuando a letra, de cor, e percebi que sabia inteira, mesmo sem talvez nunca ter ouvido os trabalhos de Veveta, ao menos não de forma propositiva, por querer mesmo.
No dia seguinte, acordei com a canção na cabeça, fui pesquisar mais sobre e descobri que a composição era de Herbert Vianna, vocalista e guitarrista d’Os Paralamas do Sucesso, o que eu já não esperava, mas o nome seguinte me pegou ainda mais de surpresa: Paulo Sérgio Valle. O sobrenome já dava a dica, mas pesquisei para confirmar e sim, o cara era irmão do Marcos Valle, nome fundamental da nossa música, e que nos últimos anos voltou a ganhar destaque nessa retomada das pistas de dança pelo som brilhante e funkeado de sua fase oitentista. Enfim, o que importa é que decidi olhar para seu trabalho e fiquei surpreso em descobrir que Paulo Sérgio Valle compôs alguns dos maiores sucessos intergeracionais que conhecemos e essa é a história que quero contar aqui.
A gente já sabe que existem os rostos que estampam as capas de disco e os arquitetos que constroem as bases. Quando escrevi antes sobre Eumir Deodato e Paulinho da Costa, olhei para os arranjos e os ritmos que dominaram o mundo, mas hoje o foco vai para as palavras. Paulo Sérgio Valle é daqueles que a gente provavelmente não reconheceria na rua, mas com toda a certeza já cantou alguns de seus versos, talvez até aos gritos.

Em um karaokê às 2h da manhã, na festa de ano novo, ou em um boteco carioca que toca bossa nova, o som que guiou esses cenários pode ter sido canetado pelo cara. Olhando por cima li que são mais de 800 composições registradas que transitam entre a Bossa Nova, o sertanejo, o pagode e o rock. Paulo é tipo um camaleão da música brasileira, que merece destaque entre os gênios esquecidos que retomamos por aqui.
Antes de encher o bolso de royalties, Paulo Valle era piloto de avião lá nos anos 1960, e cruzava nosso céu enquanto estudava direito. O lance é que nessa mesma época o Rio de Janeiro estava borbulhando, era o centro da cultura nacional de massa e junto do irmão mais novo, o Marcos Valle, trocou o manche pela caneta. Em 1964, ainda moleques, compuseram juntos “Samba de Verão”, uma música que como o nome diz, reflete bem a estação dos jovens boêmios, o mar, as mulheres, e a estética romantizada do Rio de Janeiro. Hoje, é considerada ao lado de “Aquarela do Brasil” e “Garota de Ipanema”, uma das canções definidoras do gênero e da exportação do país para outros públicos.

Com um cartão de visitas desses, ficou fácil entrar de vez no mercado da música e decidiu ser compositor em tempo integral. Mas diferente dos grandes nomes da Bossa Nova, o banquinho e o violão pareciam rígidos demais para ele, e Paulo decidiu explorar outros gêneros. Ainda na década de 1960, em meio à repressão da ditadura, escreveu o hino de resistência “Viola Enluarada”, imortalizada na voz de Milton Nascimento. Um ano depois, puxou Wilson Simonal para interpretar “Mustang Cor de Sangue”, um som mais psicodélico, que critica o consumismo de forma irônica.
O legal de acessar hoje essas letras da primeira fase de Paulo e cruzar com os contextos em que foram escritas, é perceber sua capacidade de capturar o espírito do tempo. Apesar de serem clássicos e funcionarem até hoje, o cara conseguia conversar com o brasileiro daquela época e, como somos um país eternamente preso ao passado, talvez por isso ainda façam sentido.
Até versão em inglês rolou
Com o passar dos anos, os principais nomes da MPB foram se solidificando e uma ideia de intelectualidade também se construiu ao redor de suas artes. Foi nesse contexto que rótulos como “culto”, “brega” e “comercial” apareceram, ideias que ainda hoje existem e ajudam a identificar públicos. Por exemplo, se uma pessoa compartilha Chico Buarque nos stories, ela provavelmente será lida diferente de quem compartilha Menos é Mais, saca? Mesmo que as duas pessoas ouçam os dois tipos de som. Só que para Paulo Valle essa visão não fazia muito sentido, e música boa era aquela que comunicava.
Nos anos 1970 e 1980, ele e o irmão abraçaram os convites feitos por emissoras de TV e marcas para compor temas de novelas e jingles publicitários, trabalhos de apelo mais massivo mesmo. Entre eles está o tema de final de ano da Rede Globo, aquele “Hoje é um novo dia, de um novo tempo, que começou..”, que a cada ano ganha uma nova versão, mas mantém a letra desde 1971. Vamos combinar, chega ali meados de dezembro, tá geral cantando isso, mesmo que sem querer, o que prova essa visão aguçada para o sucesso que Paulo tinha.
Na mesma época, trabalhou com Roberto Carlos, e ajudou o Rei a emplacar alguns sucessos no repertório já recheado do cantor. Aqui, definitivamente já não dava mais para dizer que Paulo Valle era um cara da Bossa Nova, e não sei se o termo “hit maker” já existia, mas pra mim foi feito sob-medida para ele.
Agora é que vem o auge. O ano era 1989 e Paulo Sérgio Valle entra em estúdio com o cantor e também compositor José Augusto, para o que foi talvez uma das mais importantes sessões de gravação da música. A dupla gravou algumas canções e enviou para os irmãos Chitãozinho e Xororó, que estavam no meio do processo criativo do álbum Cowboys do Asfalto (1990). No meio da fita cassete estava “Evidências” e, não sei como foi a primeira audição, mas provavelmente os caras sabiam que tinham ouro nas mãos.
Eu não sou crítico musical e também não faço análises semióticas, mas dá pra entender o porquê de “Evidências” ser o maior hit dos karaokês. É uma música de amor, claro, mas ela brinca com os paradoxos e contradições, quase como uma sessão de terapia. O amar publicamente enquanto tenta esconder o orgulho, aceitar a vulnerabilidade de se entregar para outra pessoa enquanto o ego fala pra fingir desinteresse. O clássico joguinho de amor que cansa mas que todo mundo, em algum momento da vida, já passou. Além do mais, é um tema que atravessa todos os gêneros, está no rock, no samba, até no rap. Paulo Valle conseguiu unir todas as tribos ao redor da fragilidade que o amor nos traz.
Depois disso, a consagração já era um fato, mas os anos 1990 ainda permitiram a Paulo entregar várias outras pedradas. Conhece “Essa Tal Liberdade” do Só Pra Contrariar? Letra dele. “Separação”, que a nova geração conhece na voz do Péricles, mas fez sucesso antes com Simone? Também. “Abandonada”, de Fafá de Belém, “Você Me Vira a Cabeça”, de Alcione e pasme, até o hino do Goiás Esporte Clube o cara escreveu. Para provar que não tem tempo ou trabalho ruim para ele.
Apesar da brincadeira, trabalhar em uma indústria muito movida pelo ego e pela vaidade, encontrar um profissional com o talento de Paulo Sérgio Valle, que independentemente do gênero ou de quem iria interpretar, estava disposto a criar o maior sucesso, é coisa rara. Ele não parecia muito preocupado com um selo de intelectualidade ou uma pureza artística. O cara sabia o que tinha que entregar, ia lá e fazia. E vamos combinar, deve ser muito legal ser lembrado por um nicho como uma voz de um movimento, mas para um letrista, mais foda ainda é ver um país inteiro sabendo de cor as suas poesias.