A Odd Future foi o último grande coletivo de rap?

Um coletivo que formou bandas, que formaram artistas solo gigantescos

A Odd Future foi o último grande coletivo de rap?
Fot: Kirk McKoy

Na semana passada, Syd e Steve Lacy, colegas de The Internet, lançaram seus novos álbuns solo no mesmo dia, cada um no seu castelo, cada um na sua função, mas ainda assim levando junto uma raíz em comum. Fiquei pensando como essa história resume uma coisa maior: o The Internet foi capaz de lançar artistas solos como poucos, mas o real coletivo que deu origem a tudo isso, a Odd Future, é quem precisa receber os créditos.

Por mais que alguns tentem, o rap nunca foi um jogo que se joga sozinho. Bem antes de existir essa lógica de carreira, a cultura sempre foi no plural, seja uma dupla, trio, grupo, coletivo... Lá fora tem gente grande tipo Wu-Tang Clan, NWA, Run DMC, A Tribe Called Quest e G-Unit. Aqui no Brasil dá pra citar Racionais MC's, T$G, Facção Central, SNJ, Costa a Costa, Quinto Andar, RZO. O problema é que sair desses grupos raramente rende o mesmo para todo mundo. Geralmente bomba quem já assumia a liderança, e o resto segue como coadjuvante de uma história maior. Com a Odd Future não foi bem assim.

Formada em 2007, a OFWGKTA (não vou colocar o nome completo aqui, é muito grande) já nasceu diferente, gente de tudo quanto é contexto. Tinha MC e DJ, claro, mas tinha produtor, skatista, videomaker, fotógrafo, artista visual, todo mundo com fome de fazer alguma coisa. E fizeram num momento em que a internet começava a se abrir pra qualquer um, o que ajudou aquele grupo de adolescentes revoltados de Los Angeles a levantar uma multidão de fãs em tempo recorde num prazo que nem eles acreditavam.

Para entender o tamanho do corre, vale lembrar como funcionava a lógica de um selo. Uma gravadora normalmente apostava numa figura só, um rostinho que recebia empurrão de mídia e verba de marketing. Coletivos, quando surgiam, eram quase sempre como reação a essa lógica, ou seja, amigos dividindo estúdio, versos, possível lucro e sempre o prejuízo que nenhuma gravadora ia bancar.

A Odd Future nasceu desse lado da história. Antes de qualquer selo aparecer, Tyler, The Creator já tinha feito uma porrada de beats, artes pra capas no Photoshop e vídeos filmados com webcam e postados no YouTube. A gravadora, quando chegou, foi só pra endossar uma parada que já existia e já tinha público, não tinha mais nada pra inventar.

É esse detalhe que separa a Odd Future de quem veio antes. O coletivo precisou de internet, links postados em fórum, textos em blogs de rap e uma multidão de jovens entediados que não se importavam com as letras problemáticas, e a estética suja que não tinha espaço nas rádios. Quando a Odd Future se colocou como selo, foi só uma formalidade para algo que já rodava bem: Tyler produzindo pro Domo Genesis enquanto o Left Brain fechava beat com o Hodgy, e a Syd mixava tudo no estúdio de casa.

O clássico clipe que "Oldie", que mostra bem a energia caótica do grupo

Para quem acompanhava o som do grupo, pode até pensar que o caos era pura energia descontrolada, mas a real é que funcionava como método. O show realizado no Brasil, em 2011, é prova disso, já que a crítica odiou, mas até hoje é lembrado como um dia histórico para os fãs. As capas dos discos eram “toscas”, as letras que faziam piadas canceláveis, e nas entrevistas ninguém respondia nada a sério. Era uma recusa em parecer profissional, numa época em que tinha construído uma credibilidade com o mainstream. É até doido pensar que essa estética da Odd Future hoje é padrão, mas sem a mesma coragem que tiveram na época.

Poderia ter dado muito errado, mas o que segura essa história de pé, até hoje, é a quantidade de gente que saiu de dentro daquele furacão e construiu carreira sozinha. Tyler, The Creator é o exemplo mais fácil, ninguém imaginava que o moleque magrelo teria um grammy, lançaria coleção de roupa e tênis com a Converse. Frank Ocean, o queridinho dos modernos, saiu do mesmo buraco, e por mais low profile que seja, se amanhã ele anunciar um disco, a internet para.

Earl Sweatshirt também seguiu um caminho diferente e trocou o barulho por um som mais reflexivo. Os discos mais densos ajudaram a moldar a estética de vários outros artistas do rap independente. Domo Genesis continuou com a lírica impecável, e tem os motivadores desse texto, The Internet, só lançou pedrada como subgrupo e como membros solo. Steve Lacy hoje também tem um grammy embaixo do braço e hit emplacado no TikTok. Doideira.

Daria pra fazer uma árvore genealógica. Um coletivo que formou bandas, que formaram artistas solo gigantescos, sem contar a quantidade de produtor, fotógrafo, diretor de arte e skatista que passou por lá também ganhou o mundo de outras formas. Aliás, até que não estava diretamente envolvido se beneficiou. Sage Elsesser, que também assina como Navy Blue, assinou a direção de arte do 2º disco de Earl, e anos depois colocou as próprias rimas pra jogo. Hoje é um dos melhores do rap underground.

E aí volta a pergunta: por que a OF foi o último grande coletivo de rap? Provavelmente porque o mercado da música mudou. Streaming e algoritmo trabalham em cima de nomes individuais. Formar um coletivo com uma dezena de vozes, hoje, só funciona para o K-Pop, porque de resto é dividir atenção e grana. A Odd Future estava no lugar certa, na hora certa, e pegou a última brecha em que era possível construir algo de forma descentralizada e orgânica.

Depois deles, até rolaram algumas tentativas. O Brockhampton era a "boy band do hip-hop" e fez muito barulho por pouco mais de um ano, e depois morreu. Só o Kevin Abstract conseguiu manter carreira relevante fora do coletivo. A Pro Era, grupo que ajudou a dar um novo gás pro boombap de NY, colocou Joey Bada$$ em destaque. O mais próximo talvez tenha sido a ASAP Mob, que revelou Rocky, Ferg, Nast e Playboy Carti. Mas sinceramente, acho que nenhum desses grupos conseguiu igualar o que a Odd Future fez.

O caos no palco do Camp Flog Gnaw de 2012 com a Odd Future e Lil Wayne

Fazendo um paralelo com o Brasil, já que aqui a lógica do coletivo me parece ainda mais estrutural, mais por sobrevivência do que por escolha estética, coletivos recentes como Haikaiss, DV Tribo, Nectar Gang/Pirâmide Perdida e Um Barril de Rap seguiram um caminho parecido: fizeram muito barulho juntos e depois alimentaram projetos paralelos.

Mas a real é que mesmo aqui o mercado parece fazer o mesmo esforço, de empurrar o reconhecimento individual. O coletivo, nesse novo contexto, funciona menos como projeto comercial e mais como era na origem mesmo, o lance de amigos fazerem barulho junto até cada um seguir seu próprio caminho. A Odd Future talvez tenha sido a última vez que esse barulho de turma virou, ao mesmo tempo, um fenômeno cultural gigante e uma fábrica de carreiras solo. Difícil imaginar as estrelas se alinhando de novo.


ISMO
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