O skatista não se define mais pelo gênero musical
Fato que era regra nos anos 2000 não se aplica mais nas sessões de hoje em dia e o skatista está cada vez mais padronizado
Quando eu comecei a andar de skate, no fim dos anos 90, a cultura se alimentava de publicações analógicas: revistas, fitas VHS (logo depois o DVD) e trocas de ideias nas sessões, onde pessoas que tinham mais acesso podiam compartilhar seu conhecimento com os amigos. Diante disso, o processo de receber novas informações e, consequentemente, novas influências, era mais devagar, mais aproveitado a longo prazo e mais copiado de forma integral.
Os vídeos, que eram poucos e estavam começando a ser muitos, eram fonte principal de inspiração de estilo, depois vinham as revistas. Nos vídeos das marcas a gente aprendia não só as manobras, mas também como os nossos ídolos estavam se vestindo e, paralelamente a isso, que músicas eles estavam ouvindo. A junção videoparte + música foi impactante no skate, mais do que as que tocavam nos campeonatos, porque realmente a música na videoparte era a personificação, em áudio, daquilo que era o estilo daquele skatista.
Com tudo isso, a gente começou a misturar música e moda pra andar de skate. Começamos a ter crews e marcas especializadas em estilos próprios e relacionadas fortemente com a música: os gangstas e o rap, os rastas e o reggae, os skate punks e a música punk… Parece óbvio, mas talvez foi nos anos 2000 que essa junção se deu de forma mais visual - antes eram poucos os que eram totalmente comprometidos com o lado musical da coisa - tinha o Hosoi, o Matt Hensley, é claro, mas seus estilos ou eram meio “normais” dentro do universo do skate, ou, como no caso do Hosoi nos anos 80 com jaqueta de couro, era um pouco demais para tentar copiar.
Então os vídeos de skate do fim dos anos 90 e começo dos 2000 ajudaram não só a fomentar ainda mais as manobras do skate de rua, já totalmente desenvolvido a essa altura, mas também ditaram a forma como skatistas começariam a se vestir.

Para os gangueiros, vídeos como o Top Dollar, a parte da DGK no Kayo It's Official, Yesterday’s Future, entre outros, traziam camisetas gigantes, bonés new era que mesclavam o ganguerismo do skate com a estética que estava acontecendo no rap, que é claro, era trilha sonora desses vídeos.
Para os rastas, marcas como Organika e Ipath davam lugar a toda cultura rastafari no skate, com skatistas que influenciavam pessoas que gostavam de reggae e de outros aspectos da vida com Jah. Adelmo Jr. e Karl Watson são exemplos de skatistas que trouxeram estilo e música para dentro de suas ações no skate.
Já os punks tinham em vídeos como o Foundation That’s Life e o Pig Slaughterhouse um ponto de referência para copiar música e estilo, apertar as calças e ouvir guitarras distorcidas nos fones de ouvido.
O combo "skatista-músico" era bem mais frequente e isso se refletia nos vídeos também
E tudo isso era possível ser visto em cada sessão, as crews se separando por gêneros musicais, algumas outras com claros personagens de cada influência, mas sempre sendo essa junção de música e estilo de andar de skate. As marcas brasileiras também tinham a música na sua base e um exemplo forte dessa ligação de roupa e música no skate brasileiro eram a Doce e a Plata, ambas do Chorão, que eram justamente duas marcas diferentes porque abordavam públicos do skate diferentes, relacionados a cada tipo de som.


Corey Duffel e Marisa dal Santo tinham um estilo que era reflexo do que ouviam também
Mas com a internet isso vem mudando e hoje a gente quase não vê mais essa inspiração direta acontecendo. Na pluralização do skate via redes sociais e nas infinitas possibilidades que um celular na mão trouxe ao gravar pessoas fazendo a mesma coisa, o skate perdeu um pouco essa habilidade de se auto expressar através da música.
Hoje a gente tem videopartes saindo todos os dias, não necessariamente impactando o mercado como um todo, não necessariamente também influenciando novos skatistas a seguirem aquele estilo ou ouvir aquele tipo de som. Se antes a gente via um vídeo até furar o VHS ou o DVD, hoje a gente vê um vídeo e depois vê outro e já se esqueceu do que rolou no primeiro. Essa alta atividade impactou tudo no skate, de mercado a tendências, fazendo a gente talvez se perder no que é realmente legal ou no que realmente conversa com a gente.
Os skatistas mais famosos hoje, talvez por conta de Olimpíadas e campeonatos, não são mais aqueles que trazem música pro primeiro plano - são famosos por exposição e por performance. A música hoje passa despercebida na equação da fama do skatista ou no impacto que ele ou ela terá nas próximas gerações. O que de fato a Rayssa Leal gosta de ouvir? A gente não consegue saber e as roupas dela não conversam, necessariamente, com algum estilo musical. Assim como o Nyjah Houston ou o Felipe Gustavo - se eu olhar pra eles e ver suas roupas, não sei que música ouvem.

O que antes era um caminho de mãos dadas, hoje passa por uma bifurcação de influências, muitas delas alheias ao comportamento do skatista, conversando com outros tipos de atividades: o skatista hoje talvez influencie mais nos treinos que faz para continuar performando bem do que pelo que está ouvindo no fone de ouvido. E tem alguma importância hoje o que o/a skatista está ouvindo nos fones? Claro que algum repórter mais bem intencionado e mais ligado à cultura vai fazer essa pergunta, mas isso não se sustenta como antes era, na relação forte da cultura de skate com a música que ali era apresentada.
Uma pena, descobri minhas bandas favoritas nos vídeos de skate. Claro que no ontem e no hoje você encontra exemplos contrários ao que é falado aqui. No underground do skate atual, algumas pessoas ainda carregam o peso do som em suas roupas e manobras, mas isso não é mais a regra como foi um dia - esse é o ponto do artigo. Hoje um vídeo como um Barrier Kult, com balaclavas e black metal, é quase como uma brincadeira ou algo pra não ser levado tão a sério.
Blood Wizard ainda matém viva a tradição do som e imagem
Mas nem só no mainstream está essa crítica, se é que pode ser chamada de crítica, mas essa análise. Hoje nos vídeos core, existem necessidades alheias que não conversam com o estilo próprio de cada um - mostrar o som mais mocado ou ser fiel às raízes brasileiras e ter uma MPB qualquer num vídeo local. Um gangsta com uma parte tocando uma música triste do Legião Urbana? Não faz sentido nenhum, mas isso tem sido cada vez mais frequente nos vídeos.
Existe também o fato de que muitos vídeos antigos abusavam dos direitos autorais de terceiros, alguns nem pagavam de fato e a gente consumia músicas muito famosas em vídeos e hoje, ou você paga pra ter (e é caro) ou a plataforma fica com todos os seus direitos de ganhar uma grana com aquela imagem. É também um reflexo desse impacto na indústria fonográfica sim, e o skate não está distante dessa influência, uma vez que muitas dessas músicas que impactaram a gente a andar de tal estilo, eram de artistas de grandes gravadoras e a gente teve que se virar nos 30 pra usar outros sons que não causassem problemas de direitos autorais.
Essa mudança de identidade, do não-mais reconhecimento pelo estilo de música dos skatistas, também se reflete na forma como a gente, skatistas ou não, conhecemos e consumimos música hoje em dia. Novas gerações são impactadas por fragmentos de sons, muitas vezes incessantemente tocados por no máximo 15 segundos, de artistas fantasmas e/ou por ações de I.A. Vira e mexe aparece alguma viralização de algum som dos anos 90 ou 2000, mas sempre acompanhados de uma nostalgia estética e imagética. Nostalgia essa que impacta também no estilo de novos skatistas, misturando tendências, mas sem necessariamente ter base na música. O mercado de streetwear bebeu do skate até a fonte secar, e as marcas não precisavam falar que eram do rock ou do rap para venderem - elas só precisavam ser do hype.


O time da Supreme em duas épocas diferentes, 2010s e 90s
Hoje o streetwear fala sem depender, necessariamente, do som.
Se antes o adidas era querido pela galera do rap por causa do Run DMC nos anos 80, ou os Nike Air Flight eram tênis de metaleiros nos 90, hoje parece existir uma variedade imensa de possibilidades, marcas e modas passageiras que não chegam para dizer exatamente qual é a característica que une som e estilo. Às vezes pode até funcionar aqui e ali, mas as alternativas são tão misturadas que não dá mais pra olhar para um skatista e dizer o que de fato ele está ouvindo nos fones.
Marcas legais de hoje em dia não tem, necessariamente, uma ligação com a música
Nessa alta demanda, muitas possibilidades e alta produtividade, o skate acaba sendo influenciado por milhares de coisas, do que funciona na internet ou do que aquele editor acha que pode ser interessante. Mas parece que atrelar estilo ao som ficou cada vez mais de lado e a música não é mais o ponto de interesse. O que antes a gente discutia era de que a música podia melhorar ou piorar uma videoparte - hoje a gente discute se é preciso mesmo fazer uma videoparte ou se é melhor ter um vídeo no reels com a música que está em alta no TikTok.