Rio vs São Paulo não é só biscoito vs bolacha
As duas metrópoles travam uma Guerra Fria pela hegemonia cultural mainstream
Chegamos ao fim da Rio Fashion Week, e ao que tudo indica pelo barulho nas redes, o eco na imprensa e pelas conversas criadas por criadores da cena, o saldo foi bem positivo. Desde 2014 a capital fluminense não sediava uma semana de moda, e o que se viu no Pier Mauá foi um evento que olhou para o segmento muito mais pela ótica da cultura e do comportamento do que pelo mercado puro em si, e isso tem vários porquês. A cidade cenário também foi centro das narrativas construídas nas passarelas e isso ficou evidente, tanto nos desfiles de marcas com o DNA local e solar, como Osklen, Farm e Lenny Niemeyer, quanto nas que se construíram em contextos distintos. PIET mandou bem em sua colaboração com a Pool (do grupo Riachuelo), a Misci fez um desfile, com o perdão da piada, apoteótico, e até a global adidas se conectou com o asfalto carioca em um desfile protagonizado pela cultura periférica.
O evento recolocou o Rio de Janeiro no mapa da moda nacional e faz parte de um movimento muito bem planejado, e com forte apoio das estruturas políticas, para transformar a cidade em um polo de cultura que atua em diferentes frentes. É um mecanismo que teve sua primeira grande engrenagem girando no início da década passada, com o retorno definitivo do Rock in Rio em 2011, e que agora tem no catálogo uma série de eventos capazes de sequestrar a atenção do país inteiro. E apesar do meu ponto de partida neste texto ser a Semana de Moda, o objetivo aqui é discutir um pouco como as estruturas de poder das duas metrópoles do país estão, cada vez mais, instrumentalizando suas potências criativas em uma disputa pela hegemonia cultural.
Historicamente, a rixa entre São Paulo e Rio de Janeiro ficou no campo do folclore cotidiano, brincando com os estereótipos da pressa frenética da Av. Paulista contra ritmo cadenciado dos calçadões cariocas. O workaholic contra o malandro praiano ou boêmio. Mas por trás dessas caricaturas, o que se tem é um tabuleiro de xadrez que movimenta muita grana e que disputa a capacidade de influenciar, atrair investimentos e até reter talentos através da cultura.
Governos estaduais e municipais parecem ter entendido, depois de muito tempo, que fomentar a cultura de massa não é só perfumaria, mas desenvolvimento econômico pesado. Quando se constrói potência cultural, por consequência se atrai turismo, gera emprego e rende um capital político de valor que eu não sou capaz de calcular.

Vamos combinar que o Rio de Janeiro sempre soube vender sua própria imagem, o que não é muito difícil quando se tem em casa o maior conglomerado de comunicação do país, que há anos utiliza as belas paisagens para construir um imaginário do que é a cidade. Mas ao mesmo tempo precisava modernizar sua infraestrutura e principalmente combater as crises de segurança que mancharam sua reputação. A aposta para isso foi alta: transformar a cidade em um hub de encontros globais.
Além do passo mais recente com a moda, e o já citado caso da música, campanhas como “Todo Mundo no Rio”, vem a cada ano gerando expectativa para anúncio do próximo mega-show nas areias de Copacabana. Já a consolidação da Rio2C (Rio Creative Conference) transformou a cidade em um ponto de encontro de inovação e tecnologia, atraindo gigantes que pautam o futuro da indústria criativa.
A estratégia parece ser a de usar uma vocação natural e cenográfica para sediar eventos de apelo internacional, dominando as conversas com uma imagem de efervescência e de vanguarda. Já do outro lado, pegando a Dutra, São Paulo não tem as mesmas praias deslumbrantes, mas ostenta uma estrutura financeira e logística difíceis de se encontrar por aí. Posso estar exagerando, mas me arrisco dizer que a capital paulista é a dona do mainstream ininterrupto.
A cidade absorve uma quantidade absurda de turnês internacionais e os Allianz Parque e Morumbis vivem com as agendas lotadas, com alguns artistas fazendo verdadeiras residências. Os mega festivais Lollapalooza, o Primavera Sound que acabou de voltar e o The Town, irmão paulistano do Rock in Rio, garantem um fluxo constante de consumo musical mainstream.
Ainda assim, a gestão pública sente o golpe quando o Rio realiza espetáculos com apelo global, como os shows históricos e gratuitos de Madonna e Lady Gaga. Em resposta, São Paulo está correndo atrás e estuda realizar eventos do mesmo modelo. Apesar de não ter um espaço com a mesma capacidade (se estuda opções como Vale do Anhangabaú, Paulista e Parque do Ibirapuera), a ideia é provar que o asfalto tem tanta força quanto a areia.

Se por um lado esses grandes festivais mostram um perfil mais corporativo dessa moeda que é a guerra cultural, o Carnaval de rua expõe a alma e também as contradições da gestão pública nas duas cidades. O Rio de Janeiro é o berço da folia no formato que conhecemos, com a resistência do Cacique de Ramos, o gigante Cordão da Bola Preta e os bate-bolas nos subúrbios. A rua, no Rio, pertence à essas manifestações quase anárquicas que a ocupam de forma orgânica, e cabe ao poder público correr atrás para tentar organizar, já que festa vai rolar com ou sem chancela.
Já São Paulo, que chegou a ser chamada de “túmulo do samba” por Vinicius de Moraes, tem historicamente sua festa confinada no Sambódromo. A coisa até mudou na última década, com uma retomada bem forte e explosiva das ruas, e blocos como Acadêmicos do Baixo Augusta, transformaram a cidade em um polo do carnaval, o maior, aliás, em números absolutos. Mas vamos combinar, aqui a diferença grita na sua cara.
Enquanto o Rio tem essa catarse orgânica, autônoma, o poder público de São Paulo reagiu à explosão do próprio carnaval com o que tem de mais engessado para oferecer, que é a hiper-regulamentação. Nos anos mais recentes, a prefeitura impôs uma porrada de restrições aos blocos independentes. Assim, trajetos são definidos e alterados de última hora, exigências burocráticas travam pequenos coletivos e os funis de segurança transformaram a manifestação espontânea em um malabarismo administrativo. Como resultado, pequenos blocos são asfixiados pelos megablocos, patrocinados por marcas igualmente gigantes. Esse financiamento, aliás, impacta até na estética da festa, já que quer transformar tudo em uma experiência “instagramável”.


Fotos: Fernando Maia | Elineudo Meira
Acho curioso como a comercialização da cultura, e o foco de São Paulo nesse tipo de evento, abriu espaço para florescer um ecossistema independente na cidade vizinha. Enquanto SP tem uma demanda insaciável pelo evento de arena, o Rio mantém uma força no cenário underground, que funciona como laboratório. Calma, eu sei que a cena paulistana também é forte, e não faltam pequenos bares e casas de show que alimentam um público mais nichado, mas no Rio o under é popular.
É só olhar para o rap nacional que, em seu momento de retomada, viu um deslocamento de eixo, com selos cariocas dominando a parada e criando uma identidade muito própria. O funk, presente há décadas, vive mutações constantes, sem nunca abandonar os bailes como ponto central da cultura, que por sua vez tem a estética presente em outros nichos, como o já citado caso da Rio Fashion Week. Parece que esse mainstream corporativo que se fixou em São Paulo, permitiu que o Rio cultivasse suas cenas com uma autenticidade que transbordou para as massas.
Em meio ao borbulhar que as duas cidades promovem, o poder público já sacou que pode usar isso como armas para uma Guerra Fria Cultural. São Paulo usa o poder de consumo, demanda e estrutura para receber as turnês globais, enquanto luta (ou não) para não sufocar as manifestações espontâneas. O Rio vende a experiência de grandes eventos pontuais junto de sua beleza natural, enquanto o pulso da rua continua a ditar o que nasce da produção urbana.
No fim do dia, para quem é esperto e tem condições, essa disputa é um bom cenário. Se as duas maiores cidades do Brasil brigam para ver quem faz a maior festa ou dita a próxima tendência, o ecossistema como um todo cresce junto e se consolida como um dos mais dinâmicos da atualidade.