O problema da camisa é o que o Brasil enxerga nela

O vermelho já apareceu em goleiros, o azul nasceu como improviso sagrado e a amarelinha virou disputa política.

O problema da camisa é o que o Brasil enxerga nela

Uma camisa que ninguém vestiu conseguiu fazer barulho. Para o jogo entre Brasil x Escócia, na primeira fase da Copa do Mundo, a Fifa havia indicado que os goleiros brasileiros jogariam de vermelho. Depois, a cor mudou para verde, a CBF afirmou que aquele uniforme nem existia na coleção e, em pouco tempo, uma decisão que poderia ter morrido na rouparia virou assunto nacional. A cena parece pequena, quase boba. Talvez seja justamente por isso que funcione tão bem: uma possibilidade de camisa já foi suficiente para acionar todos os alarmes.

Segundo o ge, a troca aconteceu depois de um pedido do presidente da CBF, Samir Xaud, que vetou o vermelho. A mesma reportagem lembra que goleiros da Seleção já usaram a cor em outras ocasiões, inclusive em 2013 e 2014. Não estamos falando de uma invasão inédita na paleta brasileira, nem de uma ruptura com a história visual da Seleção. O vermelho já esteve ali, nesse mesmíssimo lugar, sem precisar carregar sozinho uma crise de identidade nacional.

Phillipe Gabriel, em 2023, de camisa vermelha (porém fora dos holofotes)

É isso que deixa o caso interessante. Se a cor já apareceu antes sem causar esse nível de ruído, a gente se pergunta por que, agora, ela chega como problema antes mesmo de entrar em campo. Bom, talvez a gente já saiba a resposta, né?!

Cor nenhuma chega sozinha

No futebol, uniforme também é regra. A Fifa precisa garantir contraste entre jogadores de linha, goleiros e arbitragem. Em tese, a escolha de uma cor pode ser só isso: uma decisão técnica para organizar visualmente o jogo. Quem aparece melhor, quem não confunde com o adversário, quem funciona na transmissão. Só que a camisa da Seleção nunca fica muito tempo nesse lugar confortável.

A gente olha para ela procurando outra coisa. Memória, trauma, superstição, política, pertencimento... Às vezes tudo ao mesmo tempo, o que é cansativo, mas também explica por que uma peça de roupa consegue produzir tanta reação. A camisa da Seleção não circula como uniforme qualquer. Ela é uma superfície onde o Brasil tenta se reconhecer, se vender e, nos últimos anos, se disputar.

O vermelho incomoda e não é por ser visualmente impossível, ou estrangeiro ao Brasil. Se a gente puxar o fio pelo próprio nome do país, chega no pau-brasil, na madeira avermelhada, na brasa. O vermelho está antes de muita coisa que a gente aprendeu a chamar de tradição. Só que cor nenhuma sobrevive apenas à própria origem. Ela vai acumulando leitura... E o Brasil atual lê tudo com uma ansiedade quase automática.

A amarelinha também começou como tentativa

A camisa amarela parece eterna porque a gente aprendeu a lembrar dela assim: Pelé, Garrincha, Copa, festa, futebol bonito, um país solar que talvez nunca tenha existido exatamente daquele jeito, mas que funcionou muito bem como fantasia coletiva. Só que a canarinho também nasceu de uma crise.

Antes dela, o Brasil jogava de branco. Depois de perder uma final de Copa do Mundo para o Uruguai, em 1950, no episódio conhecido como Maracanaço, aquele uniforme passou a carregar um peso difícil de administrar. O trauma foi tão grande que sobrou até para a roupa - a galera passou a acreditar que o branco nos dava azar.

Depois de perder uma final por 2 x 1 para o Uruguai, a camisa branca passou a ser vista como azarada

Em 1953, o Correio da Manhã abriu um concurso para criar um novo uniforme com as cores da bandeira, e Aldyr Garcia Schlee, então com 19 anos, desenhou a combinação que hoje parece óbvia: amarelo-ouro, detalhes verdes, calção azul, meiões brancos. A camisa mais reconhecível do futebol brasileiro nasceu de uma tentativa de reorganizar a imagem do país depois de uma derrota.

Isso não diminui a força da amarelinha. Acho que até explica. Tradições muitas vezes começam como resposta a algum problema. Depois vencem, se repetem, ganham fotografia bonita, entram para a memória coletiva e passam a fingir que sempre estiveram ali. A canarinho virou sagrada porque deu certo. Porque o futebol brasileiro colocou nela uma coleção de vitórias, corpos e lembranças que nenhum manual de identidade visual conseguiria fabricar sozinho.

Da branca azarada à tradicionalíssima canarinho

Com o azul, a história é ainda mais brasileira. Na final da Copa de 1958, contra a Suécia, o Brasil precisou trocar de uniforme porque os donos da casa também jogavam de amarelo. Improviso em final de Copa, porém, precisa de narrativa para não parecer desespero. Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação, apresentou a cor aos jogadores como referência ao manto de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. A camisa alternativa deixou de ser apenas alternativa. Virou proteção e fé.

A camisa azul, conta a história, era o que estava disponível no mercado para bordar o brasão da CBD. Mas a ideia vendida foi de proteção e homenagem a Nossa Senhora Aparecida

Vai ver é por isso que o azul tenha entrado tão bem na memória. Ele não chegou só como cor: chegou com uma história capaz de acomodar o improviso. O vermelho, agora, aparece em outro clima (e aqui o clima pesa mais do que a cor).

O vermelho já esteve ali. O Brasil é que mudou.

A camisa de goleiro sempre teve mais liberdade. Ela precisa contrastar, aparecer, obedecer a uma lógica própria dentro do jogo. Enquanto os jogadores de linha carregam a imagem mais reconhecível da seleção, o goleiro pode circular por uma paleta mais ampla: verde, preto, cinza, laranja, vermelho... Cor-de-rosa, como vimos em Brasil x Haiti. Às vezes, a função manda mais do que a tradição.

Alisson, de rosa, na primeira fase da Copa do Mundo 2026

Júlio César já jogou de vermelho pela Seleção. Há registros dele usando a cor na Copa das Confederações de 2013, inclusive na semifinal contra o Uruguai, partida em que defendeu um pênalti de Forlán e ajudou o Brasil a chegar à final. Na época, aquilo parece ter passado como deveria passar: uma camisa de goleiro. Um detalhe do jogo, uma variação possível dentro da exceção visual que o goleiro sempre ocupou.

Júlio Cesar de vermelho, há mais de dez anos, sem incitar nenhuma crise política no país

Agora, a mesma cor não consegue entrar nesse lugar de normalidade. Antes mesmo de virar produto, foto oficial ou entrada em campo, ela já chega com legenda. Nos últimos anos, a amarelinha foi sendo ocupada por manifestações de direita e por apoiadores do bolsonarismo. O vermelho segue associado ao PT, à esquerda, a uma disputa política que o Brasil aprendeu a arrastar para qualquer superfície disponível. Quando circularam relatos de que a seleção poderia ter uma camisa reserva vermelha para 2026, assinada pela Jordan Brand, a reação foi imediata. A CBF negou que houvesse um modelo definido, mas a conversa já tinha escapado do controle.

Lembrando que a parceria com a Jordan aconteceu, só não em vermelho. A Nike anunciou a coleção Jordan Brand x Brasil com camisa reserva e peças de streetwear, posicionando a colab como encontro entre futebol brasileiro, performance e cultura. A camisa veio azul, escolha mais segura para a memória da Seleção e para o humor político do país.

Não sei se um dia saberemos se a camisa vermelha da Jordan seria real - mas que você encontra versões "tailandesas" dela para comprar, você encontra

Dá para entender a cautela, mas também dá para achar tudo um pouco sintomático.

A camisa da seleção não é uma camiseta em branco

Para uma marca global, mexer na camisa reserva do Brasil parece uma oportunidade irresistível. A Seleção Brasileira é uma das imagens mais reconhecíveis do esporte mundial. A Jordan traz outro repertório: basquete, rua, performance, cultura global. A combinação faz sentido, Brasil e Jordan falam bem essa língua do talento transformado em imagem, do corpo que performa e também vende.

Só que a camisa da Seleção não chega em branco esperando uma colab. Ela já chega cheia de história, e história, nesse caso, também significa ruído. A moda gosta de ruptura quando a ruptura pode ser vendida como novidade. O marketing, mais ainda. Mas símbolo nacional não aceita toda atualização com a mesma tranquilidade, especialmente quando esse símbolo já foi tomado por disputas que não começaram no esporte e provavelmente não vão terminar nele.

Hoje, vestir a amarelinha pode ser lido como gesto político. Vestir vermelho, também. Rejeitar qualquer uma das duas, idem. Parece exagero, mas é o tipo de exagero que virou cotidiano. A paleta nacional ficou sensível, e a CBF sabe disso. A Nike sabe disso. A Jordan certamente também.

Tratar a discussão como frescura estética empobrece a pauta. Tem conservadorismo visual, tem medo de meme, tem cálculo institucional e tem uma tentativa clara de evitar desgaste. Mas tem também uma coisa mais funda: a Seleção virou um dos lugares onde o Brasil tenta controlar a própria imagem pública. E controlar imagem, aqui, significa escolher quais versões do país podem aparecer no peito.

No Brasil x Escócia, Alisson jogou de verde, mesmo

O uniforme que nem existia já jogou

No fim, talvez a frase mais curiosa dessa história seja da própria CBF: "o uniforme vermelho nem existia". Pode até ser verdade, mas ele existiu o suficiente para incomodar. Existiu como tabela da Fifa, como rumor, como veto, como manchete.

A seleção sempre negociou sua imagem pela roupa. Às vezes para tentar apagar uma derrota, às vezes para fabricar um mito, às vezes para vender uma nova fase, às vezes só para não confundir o goleiro com o árbitro. O que muda agora é que até uma escolha técnica precisa passar por uma leitura ideológica preventiva. Nenhuma cor nacional parece conseguir circular em paz.

Por isso, uma camisa que ninguém vestiu pôde causar tanto barulho. Ela não precisou estar em campo para jogar. Bastou aparecer como possibilidade para lembrar que o Brasil anda disputando a si mesmo em qualquer superfície disponível.

Até numa camisa de goleiro.

A suposta camisa vermelha

ISMO
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