O mundo dá voltas. As músicas também
BaianaSystem revisita o álbum vencedor do Grammy através de encontros construídos ao longo da estrada
Algumas músicas se encerram no momento em que são lançadas. Outras continuam viajando. É dessa segunda categoria que nasce O Mundo Dá Voltas Dando Voltas pelo Mundo, novo projeto em que o BaianaSystem transforma os encontros acumulados ao longo da turnê de O Mundo Dá Voltas em um conjunto de 13 refixes que atravessam continentes, idiomas e tradições musicais.
A escolha do título não é apenas uma brincadeira com o nome do álbum anterior. Ela sintetiza a própria lógica do disco. Enquanto o mundo gira, as músicas também continuam viajando. Cruzam fronteiras, encontram novos interlocutores e retornam transformadas.

É justamente por isso que o BaianaSystem opta por chamar as novas versões de “refixes” e não simplesmente de remixes.
A distinção é importante. O remix tradicional costuma reinterpretar uma faixa já concluída a partir de uma nova abordagem estética. O refix, por outro lado, parte da ideia de reconstrução. As músicas são reabertas para receber novas camadas, novas vozes e novas possibilidades de existência. Não se trata apenas de reorganizar elementos sonoros, mas de permitir que cada canção continue sua trajetória incorporando as marcas deixadas pelo caminho.
Sob direção artística de Russo Passapusso, o projeto reúne 13 refixes assinados por artistas e produtores do Brasil, Nigéria, Colômbia, Portugal, França e Inglaterra, transformando o disco em uma espécie de cartografia musical das conexões construídas pelo grupo nos últimos anos.
Logo nas primeiras faixas, essa dimensão internacional aparece com força. O produtor britânico Seiji revisita “Batukerê” ao lado do luso-cabo-verdiano Dino d’Santiago, enquanto o português Branko assina uma nova leitura de “Porta-Retrato da Família Brasileira”, também acompanhada pela voz de Dino. Em “Praia do Futuro”, os nigerianos Elestee e JVXN ampliam o diálogo atlântico da faixa originalmente interpretada ao lado de Seu Jorge e Antonio Carlos & Jocafi.
As conexões seguem se multiplicando ao longo do álbum. A dupla colombiana Queens Tafari e o espanhol Rico Rosa assumem o comando de “Magnata”. O francês Philippe Cohen Solal, conhecido pelo trabalho à frente do Gotan Project, recria “Agulha” com Claudia Manzo. Já “Ogun Nilê”, que encerra o disco, ganha a presença monumental de Seun Kuti nos vocais e no saxofone, aproximando ainda mais o universo do BaianaSystem das tradições afro-diaspóricas que sempre influenciaram sua obra.
Ao mesmo tempo, o projeto também fortalece diálogos dentro da própria música brasileira contemporânea. Emicida e Melly retornam em “A Laje”, agora acompanhados pelos scratches de DJ Nyack. Chico Corrêa assume a produção de “Pote d’Água”, aprofundando o encontro entre Gilberto Gil, Lourimbau e os universos eletrônicos do Nordeste. Tropkillaz revisita “Cobra Criada/Bicho Solto” ao lado de Pitty e Vandal, enquanto Ruxell leva “Balacobaco” para um território ainda mais expansivo, potencializando a energia já presente na colaboração entre Anitta e Alice Carvalho.

Talvez o aspecto mais interessante do disco seja justamente a maneira como ele desafia a ideia de obra encerrada. Em vez de tratar as canções como peças definitivas, o BaianaSystem as entende como organismos vivos. As faixas seguem em circulação mesmo depois do lançamento, acumulando experiências, sotaques, ritmos e perspectivas.
O resultado, que numa primeira leitura poderia ser interpretado apenas como uma coletânea de releituras ou uma estratégia da banda e da gravadora para dar novo lastro e visibilidade para O Mundo Dá Voltas enquanto a banda faz um hiato após uma turnê intensa e carnaval, acaba entregando muito mais. O Mundo Dá Voltas Dando Voltas pelo Mundo é um documento de trânsito cultural, um álbum que nasce da estrada e que entende a música como um processo contínuo de transformação.
No universo do BaianaSystem, a viagem não termina quando um disco é lançado ou quando um show ou uma turnê acaba. As músicas continuam percorrendo o mundo. E, quando voltam, já não são exatamente as mesmas.