Arquivo CASCA é afirmação da cultura visual do Nordeste Brasileiro
Projeto encabeçado por Victor Yves acaba de lançar edição brasileira de livro que reúne sua pesquisa sobre o cordel e publicações vernaculares brasileiras.
Era só um scroll rápido pelas redes sociais quando me apareceu um post do Victor Yves falando sobre seu novo projeto, Visual Culture of Northeast Brazil, que estava em produção. Não tinha gatilho inicial de vídeo, nem imagem complexa demais para chamar a atenção, só a capa verde de um livro enorme com título direto. A partir daquele post, passei a próxima hora pesquisando sobre e conhecendo o trabalho de Victor.
O diretor de arte e designer nascido no interior de Alagoas, cresceu rodeado de referências visuais que contribuíram para sua formação estética, mas ao se inserir no mercado, principalmente o publicitário, percebeu que a memória visual do Nordeste do país não só era pouco valorizada como também estava inacessível. Assim, nasceu o Arquivo CASCA, projeto colaborativo que funciona como um repositório de artes gráficas produzidas no nordeste brasileiro desde os anos 1950 até hoje. Querendo conhecer um pouco mais sobre o projeto e o livro recém-lançado, chamei o Victor para trocar uma ideia.
Victor, primeiro sobre o livro, ele nasceu a partir do arquivo CASCA, certo? Estamos falando de um trabalho que se constrói há mais ou menos quanto tempo?
Sim. O livro é um desdobramento direto do CASCA. A pesquisa começou de forma bem informal há cerca de 15 anos, mas não continuamente ou de forma planejada. Eu criei o hábito de salvar referências em pastas no meu computador. Zines e cordéis eram as principais pastas. Até que em certo momento eu percebi que a pasta de cordéis tinha mais de 5000 arquivos.









A literatura de cordel, ainda muito viva, é conhecida pelo uso das xilogravuras
Apesar de ser digital, o que facilita muito o acesso, o arquivo se constrói a partir da materialidade. A ideia do livro estava ali desde o começo? Era importante para você que essa pesquisa existisse também de forma física?
Não. Eu nunca imaginei que isso viraria um livro. Para ser honesto, também nunca imaginei que a minha pasta de referências fosse virar um acervo.
O CASCA tem sido, antes de tudo, um processo de descoberta da cultura visual da minha própria terra. No começo eu estava apenas reunindo imagens que me interessavam. Aos poucos, fui percebendo outras camadas. Uma delas foi entender como o cordel, mesmo sendo um sistema gráfico tão forte, quase nunca aparece como objeto de estudo em universidades de design gráfico ou direção de arte. Eu, por exemplo, nunca fui exposto a nenhum material de cordel em nenhum dos anos que frequentei a universidade. É uma vergonha.
E você não precisa passar horas navegando pelo CASCA para perceber isso: o cordel é um sistema de design. Não é só folclore, nem curiosidade regional. Ele tem linguagem, estrutura, circulação, códigos visuais, estratégia de impacto, relação entre texto e imagem. Foi quando essa percepção ficou mais clara que comecei a cogitar o livro.
Acho que essa cultura merece mais respeito. E a forma que encontrei de demonstrar esse respeito foi criar um objeto físico para ela.
Existe um gesto simbólico nisso: fazer um livro é afirmar que essa produção cultural merece ocupar espaço em bibliotecas, coleções e instituições, como qualquer outra história importante do design.



Gravuras de Gilvan Samico (Recife, PE, 1928 - 2013)
No próprio site você responde o porquê do idioma original do projeto ser em inglês, mas gostaria de saber um pouco mais sobre essa decisão e também como isso ajudou e tem ajudado a atingir novos públicos de não-brasileiros.
A decisão de publicar o projeto originalmente em inglês foi bastante consciente. Moro no Canadá há alguns anos e trabalho em ambientes internacionais. Nesse contexto, percebi que quase não existia uma porta de entrada para pesquisadores, designers e instituições de outros países conhecerem a produção visual do Nordeste brasileiro.
O objetivo nunca foi substituir o português, mas ampliar a conversa. O inglês funciona como ponte. Muitas pessoas que chegaram ao arquivo de fora do Brasil talvez nunca tivessem contato com esses artistas, gravadores, cordelistas e designers se o conteúdo estivesse disponível apenas em português.
Isso abriu caminhos para matérias internacionais, colaborações, contato com pesquisadores estrangeiros e instituições interessadas nessa produção. Ao mesmo tempo, faço questão de preservar nomes, títulos e contextos originais das obras, porque a identidade cultural do material continua sendo o centro do projeto.
Como você enxerga a presença de outras formas de design, essas que são por vezes lidas como “folclóricas” ou “rudimentares”, dentro do mercado? E existe uma diferença entre suas experiências no Brasil e no exterior?
Acho que existe um erro de leitura quando essas manifestações são chamadas de rudimentares. Muitas delas são extremamente sofisticadas. Só operam por outras lógicas, diferentes das que o mercado e a academia costumam reconhecer como “design”.
Cresci em Arapiraca, no interior de Alagoas, cercado por cartazes de feira, fachadas pintadas à mão, folhetos de cordel e muitas outras expressões visuais populares. Durante muito tempo aquilo parecia apenas parte da paisagem. Só depois percebi que era uma linguagem visual muito rica, com códigos, soluções e inteligência própria.
Talvez a principal diferença entre Brasil e exterior seja que, fora do país, encontro com frequência uma curiosidade maior por essas manifestações. Muitas vezes elas são vistas como fontes legítimas de inovação visual e cultural. No Brasil, por razões históricas e sociais, ainda existe uma tendência de valorizar referências importadas antes de reconhecer a força do que foi produzido localmente.




Obras de Caetano Dias (Feira de Santana, BA, 1959) - Pintor, Fotógrafo, Escultor e Artista Visual
Hoje o arquivo funciona de forma colaborativa, certo? Como tem sido esse processo de receber material de outras pessoas?
Tem sido uma das partes mais bonitas do projeto. Embora o arquivo tenha começado comigo, ele rapidamente deixou de ser apenas meu. Famílias, pesquisadores, colecionadores, artistas e instituições passaram a entrar em contato oferecendo materiais, compartilhando histórias e ajudando a identificar autores e contextos que eu jamais conseguiria descobrir sozinho.
Nesse caminho, tive a oportunidade de conhecer pessoas muito especiais. Uma delas foi Marina Nabuco, pesquisadora do Instituto Brincante, que possui um acervo enorme de cordéis físicos em São Paulo. A Marina foi uma das pessoas mais incríveis que encontrei nessa jornada. O amor dela pelo cordel é contagiante.
Também conheci o Eduardo Beu, do Nervo Óptico, um artista visual, pesquisador e dj que é o nosso curador da edição brasileira e que está me ajudando com o lançamento no Brasil. O Edu é um amante da poesia e da cultura nordestina, e tem sido uma presença muito importante nesse processo.
Tudo isso muda a natureza do arquivo. Ele deixa de ser apenas uma coleção e passa a funcionar como uma rede de memória coletiva. Muitas vezes, o valor de uma contribuição não está só na peça enviada, mas na história, no afeto e na relação que vêm junto com ela.
Imagino que o arquivo seguirá sendo construído com o tempo e a várias mãos. Quais os próximos passos do projeto?
Quero continuar expandindo o acervo, aprofundar pesquisas sobre autores pouco documentados, realizar entrevistas, produzir textos críticos e criar mais conexões com instituições culturais e educacionais.
No fundo, o objetivo continua sendo o mesmo do início: tornar visível uma história que sempre existiu, mas que muitas vezes ficou à margem das narrativas oficiais sobre design e cultura visual brasileira.

O CASCA não é um projeto sobre nostalgia. É uma tentativa de mostrar como essas referências continuam vivas e como ainda podem inspirar novas gerações de criadores.
Por ser colaborativo, o projeto conta com a ajuda de todos e todas que tiverem materiais relacionados às artes visuais e gráficas do Nordeste brasileiro. Além disso, Victor também produz conteúdos em texto sobre artistas relacionáveis e suas contribuições, fazendo do CASCA uma verdadeira enciclopédia sobre o tema.
O livro, Visual Culture of Northeast Brazil, teve sua edição especial para o mercado brasileiro anunciada hoje e já se encontra em pré-venda. Mais do que uma tradução, a publicação é uma edição expandida com contribuições de Xico Sá, DJ Dolores, Lirinha, Fausto Fawcett, Cristhiano Aguiar, Chico Homem de Melo, Isabelly Moreira e Eduardo Beu. Indico fortemente adquirir o seu.