Franciscoskt mistura o urbano e o fantástico através do desenho

O artista paulistano transita entre os universos do skate, do grafitti, do audiovisual e da fotografia – mas é movido, essencialmente, pelo ato de desenhar

Franciscoskt mistura o urbano e o fantástico através do desenho

Francisco H., mais conhecido no Instagram como @franciscoskt, é um artista visual natural de Perus, São Paulo, que chama atenção pelo estilo único de seus personagens – sempre com o nariz triangular amarelo e o único chifrinho na cabeça – que aparecem em tudo que é canto, intervindo e se relacionando com diferentes ambientes – sejam eles digitais, analógicos, em foto, vídeo ou desenho.

Além da sua conta principal, Francisco desdobra o seu trabalho, também no Instagram, em @sktfrancisco, conta mais focada nas intervenções digitais e @shinkansen.films, novo projeto focado em fotografia analógica, além de produções audiovisuais no seu canal do YouTube, @rascunhandovidas, e um site/portfólio, construído como a área de trabalho de um Windows 98, que funciona como um espaço nostálgico e resgata a essência dos começos da internet.

Com referências que passam pelo cinema, como Michael Haneke e Gregg Araki, e pela música – se declara um fã de Mozart – Francisco é movido essencialmente pelo desenho. Autodidata, começou a desenhar copiando personagens de gibis e de desenhos da TV, e com o passar do tempo, depois de anos estudando desenho formalmente, foi desenvolvendo o seu estilo próprio e a versão final do personagem que aparece hoje em todas as suas produções. 

Desenhar, eu desenho desde sempre. Comecei como qualquer criança, vendo e copiando uns desenhos – gibi, os desenhos que eu via na TV. Onde eu tive uma visão diferente disso foi assistindo um programa na Band de sábado de noite que só passava clipe – num desses dias eu vi o clipe de Tomorrow Comes Today, do Gorillaz, e falei assim: ‘mano, os caras tão fazendo isso aqui – achava que era só nos desenhos essa parada’.

Hoje em dia, meus desenhos tem só um chifrinho – mas eu fazia, quando criança, com vários. A professora viu um dia esses desenhos e não gostou. Ela chamou a minha mãe, falou que precisava me levar numa psicóloga. A psicóloga viu e falou: ‘esse moleque tem que desenhar, bota ele num curso’. O cara que fazia os cartões de visita dela era professor de desenho. Eu devo ter ficado uns 5 anos nesse curso, e depois fui pra outro – fiquei mais uns dois, três anos. E aí não tava casando mais esse negócio de fazer os desenhos com construção – fazer a esfera, tem que ter a linha do olho, a linha do nariz – porque eu já tinha na minha mente como eu queria desenhar.

Fiquei uns dois, três meses sem desenhar e era a época do Tumblr ainda. Eu fiquei salvando um monte de referência e construí o meu estilo. Virou meio que essa marca, dos narizinhos amarelos, um chifrinho só. Esse personagem, na verdade, é de uma foto que eu tinha salvo e falei: ‘muito foda essa expressão’. Eu gostei do jeito que eu tinha feito o cabelo, a franjinha, e fui fazendo mais”, conta ele.

Esses processos se deram paralelamente aos corres no graffiti e no skate. Sempre observando a cidade com atenção e procurando maneiras de se relacionar com o ambiente, Francisco começou a misturar esses universos, imaginando intervenções desses personagens no contexto urbano.

“No grafitti, acho que eu comecei até que tarde. Eu comecei a pintar na rua em 2014 – tinha aquela loja aqui em São Paulo, KING CAP, e tinha uns eventos lá também, exposições – e eu comecei a enxergar essas coisas de outro jeito. Tem visões que só quem pinta e só quem anda de skate vai entender. Você tá andando num lugar, aí você para pra ficar vendo a escada, pra ficar vendo um prédio – como que o cara subiu ali? No caminho da minha casa pra estação, se tiver uma guia pintada diferente, eu vou saber – é o jeito que eu vou observando as coisas da cidade. ‘Esse carro não tava lá amassado ontem’, aí ele aparece amassado e eu vou atrás pra ver o que tá acontecendo e acabo pintando ele.

Eu acho que o outro perfil (@sktfrancisco), que é mais voltado pra intervenção em foto e vídeo, é um pouquinho de como eu enxergo isso. Como lá atrás eu vi essa parada do Gorillaz, que tinha intervenções em vídeo e foto pra divulgar os trampos, acabou virando isso pra mim também. Eu saio, tiro foto e falo: ‘pô, acho que fica da hora um personagem aqui; tô imaginando um personagem sentado em cima desse carro aqui’. E a maioria é tudo maior que o cenário em si – tem uns que tão pegando ou encostando em pessoas menores, alguns são do mesmo tamanho”, explica o artista.

O trabalho de Francisco não depende de materiais ou contextos muito específicos – ele vai se aproveitando do que tem à disposição, se apropriando e tirando o melhor de todas as ferramentas e objetos que aparecem pela frente, sem depender ou se limitar ao funcionamento de nenhum deles: “são ferramentas diferentes pra fazer o mesmo trabalho. Uma hora você tá com a caneta, outra hora você tá com a caneta que treme, outra hora você tá com a lata de spray. Desenhar você já sabe – se você aprender a ferramenta, acabou. E eu tô sempre nessa parada de aprender novas ferramentas.

Eu sempre fui do ‘menos é mais’. Eu não tinha condição de ter uma câmera pica, então eu tinha uma mais barata – e sempre foi esse bagulho de gastar menos e entregar resultados bons. Até as canetas que eu pego, eu aprendo a recarregar, e uso até esfarelar. São poucas coisas que eu vou atrás de manutenção, de um profissional. Já estraguei algumas coisas, com certeza, mas a gente vai aprendendo.”

Esse olhar ganha ainda mais sentido quando consideramos a forte descartabilidade que dita o funcionamento hoje tanto dos meios materiais quanto da criação de conteúdos e dos processos criativos. Francisco encontra maneiras de conciliar o seu processo artístico com o fluxo intenso das redes sociais e suas imposições – sem depender ou se entregar à elas.

"Tudo hoje é meio descartável. A galera tá falando que filme de duas horas é muito grande; falando que vai inventar séries que você consegue assistir mexendo no celular – é pra você prestar atenção, mano.

É difícil. Antes, no Instagram, você não precisava falar – era uma rede social de foto, bem mais simples. Hoje em dia você tem que falar, mostrar os processos, fazer várias coisas. Se a gente não fizer isso, a gente tá meio que morto digitalmente, né? Eu tenho tentado trazer mais esse negócio dos processos – fazer uns timelapse, aí eu ponho uns áudios engraçadinhos e é isso. Eu não gosto muito desse negócio de ficar falando nas redes sociais. 

Na pandemia, teve uma época que eu tava vendo muita notícia ruim na internet, tava atacando muito a minha ansiedade. Aí eu botei meu celular no modo avião e fiquei três, quatro meses sem celular – não avisei ninguém, eu só saí da internet. Uma galera até achava que eu tinha morrido. Quando eu peguei meu celular, fui nos stories e olhei a minha cara, eu falei: 'não, pera aí, tô me sentindo um idiota aqui. Eu não preciso ficar fazendo isso.’ E eu nunca mais consegui”, explica ele.

Pensando em outras maneiras de se relacionar com a internet e se manter ativo nela, o trabalho de Francisco se desdobra também no seu site, construído com uma estética nostálgica que nos transfere para um outro momento da tecnologia. O site, que funciona como portfólio e arquivo das suas produções, existe também como um espaço de resistência à efemeridade e superficialidade das redes sociais. 

Dentro dele, se encontram os diversos desdobramentos do trabalho de Francisco, organizados como pastas numa área de trabalho do Windows que foi o seu primeiro computador. Entre elas, o seu canal do YouTube, cheio de produções audiovisuais que capturam as suas vivências, especialmente no universo do skate.

“Eu sigo andando (de skate). Eu sempre desenhei, mas comecei a andar de skate com 15 anos – corria campeonato e tal – e chegou uma época que eu falei: ‘mano, me vejo dividido, vou ter que saber se eu vou andar de skate ou se eu vou desenhar’. Eu continuei fazendo os dois, só que levei o desenho mais a sério, porque achei que eu conseguiria desenhar por mais tempo do que andar de skate. 

Tanto que, depois, eu dei uma desencanada de campeonato, de entrar para as marcas, e eu evoluí muito mais. Quando você anda por diversão, acho que as coisas funcionam mais. O desenho sempre foi divertido, então, acho que eu evoluí mais rápido.”

FILME DO ANO foi lançado no final de 2022

Revisitando a sua trajetória e olhando para o futuro, Francisco relembra a importância de Marcelo, 1993agosto, parceiro de anos que veio a falecer em 2021, e foi figura essencial no seu desenvolvimento artístico e pessoal. Hoje, anos depois, Francisco vive da arte, viajando mundo afora e sempre se movimentando pelo desenho. Mesmo sem enxergar muita esperança no futuro, o saldo é positivo, e ele vai seguir desenhando.

“A gente sempre deu muito rolê junto, trampou junto, fez muita coisa junto. É muito triste falar isso, mas ele era o único cara que eu conseguia trocar ideia dessas loucuras. 3 horas da manhã, se eu tivesse uma ideia e chamasse ele, ele estaria acordado e ia pular na bala comigo. Por mais que ele não desenhasse, ele trouxe outra visão pra esses bagulhos de vídeo, de foto – lá atrás, ele era o cara do ‘menos é mais’. Quando eu fiz uma exposição solo em Barcelona, em 2022, eu fiz uma arte dele pra expor lá.

Eu entrei no NFT bem no comecinho, tipo nas primeiras semanas. Era um negócio bem especulativo, mas que salvou, porque não dava pra tatuar por causa da pandemia e quase não entrava dinheiro. Depois criaram o NFT Brasil, evento inicialmente voltado pra artistas, e fui um dos selecionados – foi minha primeira experiência expondo na Bienal de São Paulo. Acho que já rolou umas quatro vezes – na penúltima, além de ter o trabalho exposto no evento, acabei ganhando um concurso, foi bem legal.

Tirando esse evento, eu só consegui expor meu trabalho fora do Brasil, em Barcelona, que também foi muito louco – a exposição foi um sucesso e eu não tava esperando que fosse. Em 2024, eu fui pro Japão, e eu queria há muito tempo – no curso de desenho, comecei a fazer os bagulhos de mangá, consumi muito e comecei a sonhar com isso. Uma hora aconteceu, e foi muito doido.

Todas essas viagens, foi o meu desenho que me levou – é muito louco pensar nisso. Eu tô aqui porque eu desenhei, tá ligado? Se não tivesse desenhado, se pá, nem tava vivendo nada disso.

Eu não sei o que esperar do futuro, as coisas tão muito incertas. Até pelo próprio país que a gente mora, não dá pra saber o que vai ser. Tem as nuvens, também, que os caras dizem que em algum momento vai ter um blackout e vai cair tudo – são muitas questões. Como que a gente vai saber o que vai ser daqui pra frente? Eu espero que eu ainda desenhe por muitos e muitos anos, e que eu consiga andar de skate por muitos e muitos anos, também. 

Eu não tenho muita lembrança de como era a minha visão sobre essas coisas quando eu era criança, mas eu acho que se eu conseguisse trocar ideia com o Francisquinho, ele ia achar bem louco o que eu tô fazendo.

As coisas que eu faço ou tão envolvendo os meus desenhos, ou skate, ou captação de vídeo. Eu desenho pra caralho, não paro. É o que me move, mesmo – é meio como andar pra frente.”

Acompanhe o trabalho de Francisco e da Shinkansen Films nas redes sociais, o canal rascunhandovidas no YouTube e não deixe de visitar o seu site aqui embaixo.

Francisco H. — franciscoskt | Artista visual de São Paulo
Artista multidisciplinar de São Paulo. Ilustração, pintura, graffiti, tatuagem, serigrafia, capas de disco e filmes de skate.

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