O punk sertanejo Faça Você Mesmo de Cleiton e Cleo

A mistura de referências e influências de Cleiton e Cleo fazem uma sonoridade totalmente própria - e com raízes múltiplas

O punk sertanejo Faça Você Mesmo de Cleiton e Cleo
(foto: arquivos Cleiton e Cleo)

A dupla Cleiton e Cleo não é, necessariamente, só sertaneja. Aliás, reduzir o duo em um só estilo musical é uma diminuição que não cabe. Os irmãos Cleiton e Cleo trazem pro seu som referências diversas de uma vivência que começa em São Bernardo do Campo e passa pelo interior “caipira”, como eles mesmos falam, do Brasil. 

Hoje residentes de Arceburgo, Minas Gerais, os irmãos passaram por alguns locais até chegarem a seu estúdio caseiro, com uma interface de áudio, um notebook e um microfone. A proximidade da família, a carreira como professores e a vontade de voltar às raízes fizeram todo cenário para um novo álbum, que tem sido lançado aos poucos, mas de forma pensada - é ouvir e sentir. 

Participantes de grupos como O Plágio, Museu do Esquecimento e Cinema Invisível, Cleiton e Cleo hoje focam em sua carreira enquanto dupla. A gente bateu um papo com eles para conhecer mais sobre esse punk-rock-sertanejo-folk-samba, e muitos outros estilos, que eles fazem em sua música e sobre essa sonoridade tão própria que trazem em cada lançamento. 

(foto: arquivos Cleiton e Cleo)

Me contem um pouco sobre o processo de criação e gravação dessas músicas mais recentes da dupla. 

Cleo: Lá atrás a gente fazia testes, aqueles aparelhos antigos de dois decks de fita, passando de uma fita pra outra - a gente colocava um beat em uma e na outra, violão e teclado. Aí ia juntando os instrumentos, de forma analógica, um multitrack de aplicativo, sem aplicativo (risos). 

A gente começou a mostrar pra alguns amigos e eles ficavam doidos, percebemos que dava pra produzir assim. Quando chegou o computador, no começo dos anos 2000, a gente começou a pegar equipamentos e percebemos que tínhamos quase uma tecnologia dos estúdios dos anos 80, dava pra fazer um som legal. 

Conforme o tempo foi passando, a gente sabe que a indústria vai formatando o ouvido das pessoas, e nosso som ficava muito diferente do que a indústria tinha como padrão. O que a gente percebeu? A nossa sonoridade. 

Nossa formação foi ouvindo Beatles, Stones, Milionário e Zé Rico… Você compara essas músicas com as de hoje, elas estavam muito baixinhas, saem do padrão de hoje em dia. A gente percebeu que a sonoridade tem a ver com o estúdio, com o momento criativo - do jeito que a gente grava, a gente escolhe a hora que quer gravar, faz com calma, não precisa ter a pressão de estar pagando hora do estúdio. A sonoridade fica diferente, é um jeito mais livre de trabalhar. 

A gente começou a perceber que isso era bom quando outros artistas perguntavam onde a gente estava gravando, qual estúdio - e era tudo em casa. Um notebook, uma interface e um microfone. Desde o Cinema Invisível, as gravações que tem, foram feitas por mim, um beat, adapta a composição em cima do beat… 

Nesse último single, a gente tem um baterista, o Yuri, mas nesse mesmo processo. A gente não pensa em “fazer um samba” ou “fazer um sertanejo”... Isso sai, é inconsciente, é do momento. 

Cleiton: O Cleo foi quem me ensinou a tocar violão. Ele é mais novo, aprendeu primeiro e depois quis aprender com ele. A gente fez as primeiras músicas assim, aprendendo acordes, fazendo juntos. A partir daí a gente já criou um projeto chamado O Plágio e o Cleo foi fazendo esse jeito estranho de gravar. 

Hoje, mais de 20 anos depois, nesse nosso projeto, encontramos uma voz própria e era nisso que a gente queria se agarrar. Nos aprofundamos no que realmente somos nós. O processo de composição, depois o processo de compor o álbum, aquela sonoridade representa um tempo, um jeito, um lugar. 

Hoje vocês contam com um baterista. Como é dividir as composições com uma terceira pessoa? 

Cleiton: Quando a gente fez a banda O Plágio, era dessa nossa forma de gravar e compor. Mostrando pros colegas, foi surgindo músicos querendo participar. A gente fez um movimento de rock na nossa cidade, mas era um rock meio estranho… Quando entrou mais gente, mudou ainda mais o som, a gente nem tinha controle sobre isso. 

Eu e o Cleo hoje, a gente mal explica as paradas um pro outro, mostramos os acordes um pro outro e a gente já entende. Existe uma sintonia e a partir dela, fica mais fácil.

Quando entra outros músicos, quando dá certo enriquece, leva o trampo para um outro patamar. O Museu do Esquecimento, os caras eram grandes músicos, músicos de verdade (risos) e a gravação ficou muito interessante. No Cinema Invisível, eram músicos autorais e fica uma sonoridade legal também. 

Hoje, o Baby, que toca com a gente na bateria, a gente ficou pensando se ia virar o Cinema Invisível de novo, sabe? O Baby vem do Heavy Metal, é outro jeito de tocar, e a gente gosta de tocar vários ritmos, uma que vamos lançar é uma Guarânia e a letra tem uma crise existencial filosófica. Sai um pouco da normalidade! A gente busca uma sonoridade parecida com anos 70, influências da América Latina.

A gente não gostava de ouvir sertanejo com 15 anos (risos). Mas depois ouvindo Beatles, Mutantes, a gente começou a valorizar Milionário e José Rico! Depois, na faculdade, veio a influência do Nelson Cavaquinho - não tem ninguém mais punk que esse cara no Brasil! 

Essas bandas anteriores nossas, eram projetos nossos que viraram coletivos. Cleiton e Cleo é uma volta às nossas origens. 

A gente começou a ficar orgulhoso de ser chamado de caipira, sabe? A gente brinca que quem não é caipira, é da granja (risos). É do agronegócio. Foi uma forma também da gente se distinguir desse lugar desse sertanejo comercial. 

Quando a gente estava no O Plágio, queríamos ser rock’n’roll, usávamos calça rasgada… E quando a gente ia tocar, o pessoal Heavy Metal falava, nas nossas costas, que éramos uma dupla sertaneja. Na época a gente ficava mó bravo, mas todo mundo era caipira, os caras eram heavy metal caipira (risos). 

Cleiton e Cleo criou raízes no lugar do “não ter raízes” - uma mistura às vezes dolorosa 

Cleo: Na nossa música, o caipira fica triste, mas ele quer jogar um coquetel molotov também. Ele fica triste, mas pensa na reação. É muito comum na música caipira o lamento ecológico, de querer preservar natureza… No nosso, tem a possibilidade de reação - assim como nosso projeto é uma reação ao sertanejo universitário. 

Duas vozes, dois violões e um jeito DIY de compor e tocar (foto: arquivos Cleiton e Cleo)

E tem toda uma estética Faça Você Mesmo, uma coisa punk, no visual de vocês também, né? 

Cleiton: A forma como a gente faz clipe é a mesma como a gente faz música, pegando frames, cortando, fazendo nossos edits. A gente foi criado na MTV, tem muita referência de cinema. A gente sabe como é um videoclipe, mas profissionalmente talvez não sabemos fazer, mas sabemos criar uma narrativa e fazer do nosso jeito. É o espírito do punk, mas o conceito musical é aberto e abrangente. 

Adoro, por exemplo, o Daniel Johnston. Ninguém vai compor uma música igual ele ou ao Nelson Cavaquinho. É o jeito, é a identidade, pra nós é isso. 

Cleo: É tipo tocar guarânia, mas tocar a guarânia do Sepultura (risos). Na maioria das vezes, a música vem pronta de um ou de outro e a gente vai colocando arranjos. Hoje a gente coloca um metrônomo, colocamos voz e violão de guia e o Baby toca bateria à distância, a gente até acompanha quando dá, mas ele grava a bateria por lá. Hoje ele já nos conheceu melhor do que, por exemplo, nos projetos anteriores, então o que incomodava antes, por exemplo a mão pesada do Heavy Metal, hoje já dá uma estética própria nas nossas músicas. 

Cleiton: A gente não copia ninguém, mas a mistura vai dando uma mistura de Christian e Ralf e Pixies (risos). 

Onde vocês enxergam que mora a música de vocês em termos de gênero? 

Cleiton: Os artistas que admiro estão relacionados a vários ritmos, tipo Jards Macalé, Jorge Ben… Eles não tem um ritmo só! Talvez a gente esteja no lugar de Música Popular Brasileira, mas não pelo gênero, mas por sermos populares e brasileiros. Falar que somos sertanejos não é o todo, nossa formação de identidade é no rock… 

Isso conversa com a ideia de não ter raízes, né? 

Cleiton: Sim, a gente já abriu show pra Sofia Chablau, por exemplo. Já tocamos em SESC, em rolê de rock, em rolê de folk…

Cleo: A gente está tentando resgatar uma coisa mais contada. A poesia é muito presente na nossa criação musical. Os poetas musicais foram muito importantes para nós aprendermos sobre o Brasil de verdade. 

Fazer música é o único lugar onde a gente é livre de verdade. Se a gente vender esse lugar sagrado, onde vamos viver isso depois?

Bad Trip é uma das músicas mais recentes da dupla, do álbum a ser lançado em 2026


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