O jogo de espelho que Roberto Campadello criou para conhecer a si e ao outro

Persona - O Jogo das Mutações, é uma obra pouco conhecida dos anos 1970 que mistura arte, música e conceitos psicofilosóficos

O jogo de espelho que Roberto Campadello criou para conhecer a si e ao outro

Imagina chegar na Bienal de São Paulo em 1973 e dar de cara com um quadrado de vidro dourado no meio do labirinto de pavilhões. Na entrada, uma regra: tirar os sapatos. Lá dentro, quase nada, tirando uns cubos de papel com desenhos estranhos, paredes que devolvem o seu reflexo meio fantasma, e um sujeito esperando do outro lado do vidro. Se você perguntasse para o responsável da obra o que ela significava, provavelmente ele responderia: "Senta e sente."

O Brasil estava afundado na ditadura militar havia quase 10 anos, a Tropicália já tinha ficado na página anterior da história e quem não queria encarar o quartel precisava encontrar formas de existir. As capas de disco e os cartazes viravam espaço de experimentação visual, com nomes como Rogério Duarte, Elifas Andreato e os irmãos Peticov. No som, a psicodelia existia em discos que circulavam em tiragens pequenas e que raramente chegavam às paradas. Apesar disso, tinha espaço para esquisitice.

Foi nesse caldeirão que nasceu o PERSONA – O Jogo das Mutações, criado pelo artista plástico Roberto Campadello. Na prática, é uma caixa com um espelho dourado, duas velas, um pôster de instruções e uma trilha sonora, que serve para duas pessoas se fundirem num único reflexo. Entre os conceitos por trás estão o I Ching, um oráculo tradicional chinês, a ideia de persona de Carl Jung, e a guitarra de Luiz Carlini, do Tutti Frutti.

A capa do jogo, assinada por Rômulo Fialdini

Campadello nasceu em Veneza em 1942, cresceu na Venezuela, mas veio bem jovem para o Brasil. Já andava pelo circuito paulistano antes do projeto que citei e seu nome aparece no 15º Salão Paulista de Arte Moderna, em 1966. Fazia retratos, e um deles, o de Elis Regina, sumiu porque a cantora não parava quieta.

A virada de vida veio em Londres, onde conheceu o I Ching e decidiu traduzi-lo. O texto, que era tipo um oráculo chinês, estava na moda. John Cage o usava para compôr desde os anos 1950, Philip K. Dick usou o livro para escrever O Homem do Castelo Alto (1962), e em 1975 Brian Eno e Peter Schmidt lançariam as Oblique Strategies, um baralho de consulta criativa para destravar sessões de estúdio. Campadello foi pelo lado visual. Criou os STEPS, seis desenhos (Nascimento, Morte, Homem, Mulher, Alma e Espírito) que podem ser lidos pelo lado positivo ou pelo negativo e funcionam como um baralho Yin Yang para consultar o oráculo. Tudo isso é só o começo de uma viagem quase (ou literalmente) lisérgica.

A 12ª Bienal de São Paulo, aberta em 1973, era uma festa estranha. Rolava no meio da ditadura, que já tinha impulsionado um boicote na edição de 1969 e a curadoria sofria pressão dos artistas por recusar 90% dos trabalhos de brasileiros inscritos. Como resposta, os rejeitados montaram uma mostra paralela, a “Bienal dos Recusados”. Nos bastidores, o filósofo Vilém Flusser tinha proposto transformar a edição num laboratório, e parte dessas ideias sobreviveram mesmo depois de ele romper com a Fundação.

No meio disso, Campadello levantou a “Casa Dourada”, um quadrado de vidro dourado com um octógono de espuma de nylon no centro. O vidro escolhido era especial porque dependendo de onde está a luz, ele vira uma janela ou um espelho. Quem está no claro, por exemplo, vê o próprio rosto e quem está no escuro enxerga o outro lado. O barato é que se você equilibrar a iluminação dos dois lados, surge uma zona mista, em que o rosto das duas pessoas se sobrepõe. O jogo nasceu dessa brincadeira ótica.

Persona nasceu como as máscaras do teatro grego, com o título emprestado de Jung e sua a fachada social, o personagem que a gente interpreta no dia a dia. Jung, aliás, aparece nos dois lados da história. Foi dele o prefácio da tradução inglesa mais conhecida do I Ching, onde apresentou a ideia de sincronicidade, e que deu ao oráculo a visibilidade para o ocidente.

Na real, são muitas referências. Em 1966, Ingmar Bergman filmou os rostos de duas mulheres que se fundem pela metade num plano clássico do cinema, para o filme Persona. Lacan descreveu a fase do espelho, o momento em que a criança se reconhece como um indivíduo que ainda não é. No vidro dourado, o reflexo é de duas pessoas. Donald Winnicott, em O Brincar e a Realidade (1971), representa o brincar como um espaço entre duas pessoas onde algo novo pode acontecer. A caixa de Campadello vai bem por aí. A palavra que ele inventou para o resultado é "vocêu".

Instalação de bienal costuma morrer na desmontagem, só que a de Campadello ganhou segunda vida, quando ele foi convidado a levar a Casa Dourada para o Sesc Pompeia, um ano depois do sucesso na Bienal. Depois ganhou uma terceira, como produto. O Persona virou uma caixa com espelho, velas, instruções, trilha sonora, e foi parar em livrarias, exposições e até em loja de departamentos. Campadello achava interessante que uma ideia dividisse prateleira com mercadoria, em lojas que são símbolo do consumismo.

Em 30 de junho de 1975, Rita Lee e o Tutti Frutti lançaram Fruto Proibido. Em dezembro do mesmo ano, Luiz Carlini e dois colegas de banda estavam no Estúdio Mídia, em São Paulo, gravando outra coisa. Detalhe que o Mídia era um estúdio de locução publicitária, e não de música.

Carlini era um garoto da Pompéia que tinha começado como roadie dos Mutantes e fundou o Tutti Frutti em 1973. Sabe o solo de "Ovelha Negra"? É dele. Carlini conheceu Campadello no Sesc Pompeia em 1974 e recebeu o convite para compor uma trilha para o projeto. Ele conta que fez tudo em um final de semana, na casa do artista, e ficou atrás de algo místico, espacial e meio sombrio para acompanhar as falas do Roberto. Na época ele estava na onda do LSD, o que facilitou na hora de construir harmonias psicodélicas.

A ficha técnica é assinada por uma galera de peso. Carlini tocou as guitarras, efeitos e gaita, Lee Marcucci o violão, Franklin Paolillo percussão e Campadello fez a locução. Carmen Flores, esposa de Roberto, canta em duas faixas. Cada uma corresponde a um elemento do I Ching: Céu, Terra, Trovão, Água. Montanha, Vento, Fogo e Lago. A capa traz a mulher-gato, e a imagem foi feita com sobreposição de slides pelo fotógrafo Rômulo Fialdini para imitar o espelho do jogo.

A primeira versão da trilha saiu em fita cassete, numa tiragem baixa. A segunda trocou a fita por um disco de 10 polegadas e não chegou a ser um mega sucesso, mas Campadello deu entrevistas ao Fantástico e ao O Pasquim.

Depois o projeto ganhou endereço. Entre 1979 e 1995, o Persona funcionou como bar em dois endereços da Rua 13 de Maio, no Bixiga. O primeiro existiu em parte do antigo Teatro 13 de Maio, onde os Secos & Molhados lançaram o primeiro disco, em 1973. O segundo ficava do outro lado da rua, num prédio que já tinha sido o Espaço Infinito, bar da artista Sulamita Mareines. Quando Roberto chegou, o lugar estava detonado, mas ainda tinham espelhos por lá. Se olhar pelo ótica Jungiana, parece sincronicidade, mas fato é que o conceito de Persona virou o projeto da vida de Roberto

O jogo parou de ser feito quando surgiram problemas na fabricação do espelho, mas deu tempo de fazer pouco mais de mil cópias. A edição em fita é considerada a primeira e ainda vinha com duas faixas extras, e a de 10 polegadas, a segunda, só com as 8 originais do I Ching.

Cara da primeira edição de Persona

Com o tempo, o álbum ganhou fama de peça rara e estranha. Achei nas pesquisas uma descrição do disco como um dos mais raros e esquisitos da discografia popular brasileira. Lá fora, uma loja europeia especializada o trata como um dos objetos mais cobiçados do experimentalismo latino-americano. Campadello se mudou para Visconde de Mauá, no Rio, e passou os últimos anos pintando STEPS e criando mandalas com Carmen. Morreu em maio de 2014.

Em 2021, a história voltou. O selo Nada Nada Discos, de Mateus Mondini, dedicado a resgatar a psicodelia brasileira mais obscura, lançou o disco com o italiano Black Sweat Records. Era a primeira vez em 12 polegadas, com áudio remasterizado na Europa a partir das masters originais e as duas faixas bônus. O box completo trouxe de volta o espelho, velas, pôster e um livreto com textos da família do artista. O Persona hoje também existe como estúdio fotográfico, em Visconde de Mauá, tocado por Carmen Flores, esposa de Campadello e pelos filhos.

Luiz Carlini morreu em 7 de maio de 2026, aos 73 anos, depois de uma carreira que passou por Rita Lee e por centenas de gravações. A data bate com a da morte de Campadello, doze anos antes.

Apesar de não muito conhecido, Persona conversa com o presente, principalmente se pensarmos na volta do vinil, dos jogos de tabuleiro, das cabines de foto em festa e das experiências presenciais que exigem corpo. Num mundo de selfies, em que o espelho serve para olhar para si, Campadello propôs um espelho que só funciona com outra pessoa do outro lado. Acho que a brincadeira continua valendo.

Documentário dirigido por Mateus Mondini e Bento Araujo sobre o Persona


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