Em Dois Desertos, João Pimenta Gomes transforma Los Angeles em matéria sonora
Entre o cristal Baschet, o improviso e o cinema, o artista português investiga a distância entre uma cidade real e aquela que se projeta sobre ela
O artista visual e músico português João Pimenta Gomes lança nesta quinta, 1º de outubro, Dois Desertos, álbum gravado em um único dia durante uma passagem por Los Angeles. Editado pelo selo Amor In Sound, o disco nasceu sem agenda nem roteiro, da experiência de observar uma cidade estrangeira sem a urgência de pertencer a ela.
"Este disco foi feito a partir de uma liberdade muito grande, guiada pelos encontros. O que se ouve é um registro do que aconteceu naquele momento"
A produção é de Mario Caldato Jr., produtor brasileiro radicado em Los Angeles, conhecido pelos trabalhos com Beastie Boys, Marcelo D2 e Seu Jorge. Ao lado de Abe Rounds (bateria e percussão) e Gabe Noel (contrabaixo e cello), Pimenta Gomes gravou nove faixas a partir de partituras simples, algumas com apenas a harmonia escrita. Caldato Jr. também mixou o disco ao vivo, manipulando efeitos e volumes em tempo real e registrando tudo diretamente em um two-track final.

No centro de Dois Desertos está o cristal Baschet, instrumento em que hastes de vidro, friccionadas com os dedos umedecidos, fazem ressoar chapas e "pétalas" de metal. Pimenta Gomes descreve seu som como "um rastro, quase como uma sombra". Em vez de assumir a melodia, o instrumento cria uma paisagem ao redor do contrabaixo e do cello, que conduzem temas originais e, em alguns casos, trechos de fados tradicionais tratados de forma aberta. O cristal é também protagonista de um vídeo inédito do cineasta francês Vincent Moon, realizado pelo Petites Planètes.
Essa ideia de paisagem passa pela própria cidade. "A impressão que tenho de Los Angeles, vindo da Europa, é muito específica. Existe uma visão utópica do que seria a cidade e de como vivem as pessoas que por ali passam", diz o músico. Model Shop (1969), de Jacques Demy, e o filme-ensaio Los Angeles Plays Itself (2003), de Thom Andersen, estão entre as referências de um disco interessado tanto na cidade real quanto naquela construída pelo cinema e pelo imaginário de quem a observa de longe.

O nome do álbum vem dessa mesma percepção. Inicialmente chamado Eagle Rock, nome do bairro de Los Angeles onde fica o estúdio, o trabalho acabou se tornando Dois Desertos.
"O deserto é um lugar muito belo e visual, basta mencionar a palavra e somos transportados até lá. É algo que se vê, e também carrega a ideia de vazio, um horizonte onde não se chega, uma ideia de utopia. Na música que eu faço, essa utopia é importante. Não existe exatamente uma conclusão do disco. É alguma coisa que está em desenvolvimento."
Nascido em Lisboa em 1989, Pimenta Gomes desenvolve uma prática que atravessa sintetizadores modulares, imagem, vídeo e objetos, investigando as relações entre som, espaço e corpo. Essa trajetória já passou por São Paulo, na coletiva Esfíngico Frontal, com curadoria de Germano Dushá, na Mendes Wood DM, em 2023. O lançamento do disco coincide com a abertura de New Age, sua nova exposição no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa. É a segunda vez que ele ocupa o museu, depois de Poly-Free, em 2022.
Disco e mostra partem do mesmo cristal Baschet e de uma prática em que som, objeto, espaço e imagem raramente existem separados. Na exposição, o artista desmonta conceitualmente o instrumento e usa suas "pétalas" metálicas para trabalhar sons de voz em uma nova composição. Em Dois Desertos, essa pesquisa ganha a forma de uma música suspensa entre improvisação e composição, entre Los Angeles e Lisboa, entre a cidade que se vê e a que se imagina.