O corpo branco pelo olhar de Maxwell Alexandre

Nova individual do artista carioca, pintor preto, figuração branca., chega à Galeria Almeida & Dale, em São Paulo

O corpo branco pelo olhar de Maxwell Alexandre
Sem título [Untitled] , 2024

No último final de semana, Maxwell Alexandre inaugurou sua primeira exposição individual na Almeida & Dale, em São Paulo. Pintor preto, figuração branca., reúne cerca de 60 obras do artista visual carioca, que se propõe a repensar o gênero “figuração preta” nas artes, olhando para a constante presença de corpos brancos em espaços de bem-estar e lazer. O material apresentado é um desdobramento de duas séries: Clube (2024 - 2026) e Cubo Branco (2025 - 2026).

Em 2020, Maxwell começou a frequentar o Clube de Regatas do Flamengo, localizado na Gávea e vizinho da Rocinha, maior favela do país, onde o artista nasceu e foi criado. Nesse espaço, historicamente associado à branquitude, Maxwell começou a observar a presença central mas não nominalmente citada. O resultado foi uma mudança significativa no seu fazer artístico, já que sempre se preocupou em representar pessoas pretas, e agora passou a registrar e criar um novo conceito, o de “figuração branca”, termo que nomeia a exposição.

Em tempos de discussão sobre a separação entre arte e artista, é interessante ver uma conceituação que tensiona a criação e o criador, já que obras de artistas negros são lidas e interpretadas como “artes pretas”, enquanto a de um artista branco assume papel universal, sem preocupação sobre racialidade. Essa percepção comum nas artes visuais, mas não só, é reconfigurada por Maxwell que, através do novo termo, quer não só nomear como evidenciar essa construção como algo intencional.

Toda a inventabilidade que a série “Clube” propõe com o conceito de “figuração branca”, não está baseada somente em um ponto, é uma soma de intenção, com análise histórica e consciência do próprio tempo e suas implicações. A invenção “figuração branca” e o novo gênero da pintura só podia acontecer agora.

Ainda nessa proposta de estirar símbolos e conceitos, as obras oriundas da série Cubo Branco, têm como ponto de partida o espaço neutro das galerias, em branco, e que passa a ter códigos e construções simbólicas a partir da montagem. Se a galeria é, hoje, parte fundamental e estrutural das artes contemporâneas no ocidente, logo, ela contribui para um sistema que apaga de forma violenta aquilo que por ela não é considerado belo. Assim, seus elementos aparentes como parede, molduras e estruturas cenográficas são o que ganham o destaque, justamente para criar um diálogo entre obra, público e mercado.

Para quem acompanha o trabalho de Maxwell, sabe que muito antes da exposição chegar, os conceitos, ideias e processos criativos são compartilhados em tempo real nas redes sociais através de prints do bloco de notas, vídeos e fotografias. Como resultado, além da expectativa criada, o artista constrói toda uma literatura ao redor do projeto principal, mas não se engane, é fundamental ver as obras para real assimilação, como ele mesmo defende:

A literatura que produzo em torno de minha pintura é uma coisa, a pintura em si, é outra. As duas coisas tem autonomia pra caralho.

Parece que minha melhor exposição é sempre a próxima. Mais uma vez estou entregando o meu melhor! Pra quem tá achando chato todo o texto e ideias em volta do trabalho, cola na exposição pra ver as obras... esquece todo o conceito, as palavras, todo esse papo de antropologia e sociologia que fiquei publicando no Instagram, vão ver as pinturas, vão ver a exposição montada. 

Se você gosta de pintura de verdade, vá até a galeria Almeida & Dale. Tem pintura boa em São Paulo.

Serviço:
Maxwell Alexandre : pintor preto, figuração branca.

De 11 de abril a 30 de maio de 2026
Almeida & Dale - Rua Fradique Coutinho, 1430
Segunda a sexta Sábado: 11h às 16h
Entrada gratuita


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