Freu Silva e a arte da observação cotidiana
Com ou sem a influência do skate, a arte do Freu Silva veio como uma válvula de escape - e nunca mais saiu de sua vida
No skate, assim como outras atividades físicas que demandam dedicação para a evolução, existe um estado mental que tira o foco das pessoas de outras coisas. Muitas vezes a gente encontra skatistas que “só sabem andar de skate”, que dedicaram sua vida toda à atividade, seja pelo bem ou pelo mal, mas que não exatamente tem outro dom ou ofício.
O Freu Silva não faz parte desse grupo. Bom, pelo menos não faz hoje, mas por muito tempo foi só o skate que prendeu sua atenção e seu foco. Artista visual de Diadema, hoje suas artes são grande parte da sua rotina e, consequentemente, da sua atividade nas redes sociais – foi por aí que o trabalho do Freu apareceu forte e vem chamando atenção.
A gente trocou uma ideia com ele, falando de arte, skate e redes sociais.
Fala, Freu, tudo bem? Como você define sua arte hoje? Onde ela está na sua vida?
Opa, e aí, tudo certo?
Hoje busco uma liberdade a mais, sem me apegar muito, estou sempre em constantes mudanças. A arte na minha vida, assim como o skate, sempre foi como uma válvula de escape, de fuga, algo para eu me expressar e fugir um pouco da realidade.
Como é o seu processo criativo, das inspirações até chegar na tela?
Meu processo criativo depende muito do que anda se passando no meu dia a dia. Sou muito observador, posso ter ideias a partir de cenas de filmes, músicas, mas presto muita atenção no cotidiano, nas coisas que vejo na rua, onde quer que eu vá.
Sei que você tem uma raiz forte no skate. O quanto ele te influenciou e influencia na sua arte? Foi através do skate que você começou a fazer arte ou nada a ver?
Comecei a desenhar antes mesmo de andar de skate. Lembro de gravar desenhos no VHS pra depois pausar em alguma cena e copiar a imagem.O skate veio depois e me levou pra outro mundo, tanto que por um tempo até me fez me desligar da arte (risos).



Série de tinta acrílica sobre papelão
Ainda nessa ideia do skate influenciar seu rolê de arte, apesar dessa ligação, você não é aquele skatista-artista que desenha SÓ manobras, trucks ou algo do tipo - você vai muito além do skate em si. O que fora do skate mais te influencia a criar?
Parei de desenhar quando conheci o skate, ali com 11 anos, em 1999. Voltei a mexer com arte de verdade na pandemia, em 2020, e nunca tive muita ideia de pintar sobre skate.
Na pandemia comecei a assistir muitos documentários e filmes, e foi a partir daí que começou minha história com tinta e pincel.

Qual é a parada que você mais gosta de desenhar/pintar?
Estou em constantes mudanças, não consigo ficar estagnado em uma coisa só. Como disse, já pintei cenas de filmes, rostos de músicos que gosto, bastante rosto no geral.
Só que, de uma hora pra outra, me veio a ideia de pintar flores e hoje estou nessa. Não sei o que pode vir pela frente, já que estou sempre mudando, mas estou gostando bastante desse momento.







Flores são bem presentes nas artes do Freu
Falando um pouco de redes sociais, aqui na ISMO a gente já conversou com bastante artista sobre mostrar o processo da arte online, em reels ou tiktok. Tipo não é só sobre fazer arte, mas o COMO hoje parece ser importante. Como você vê isso nessa lógica de redes sociais?
As redes sociais me ajudam bastante, mas hoje em dia a gente também tem que ficar se reinventando o tempo todo, seja em vídeos ou no jeito de postar fotos, sempre de olho no que anda acontecendo. Só não cheguei ainda no momento de fazer dancinhas (risos).
As redes sociais ajudam ou atrapalham seu rolê de arte?
Acho que um pouco dos dois. Elas me ajudam bastante com vendas, a mostrar meu trabalho pra mais pessoas, conhecer novos artistas e ter mais inspirações.
Mas também atrapalham porque, quando você se distrai, acaba perdendo um bom tempo do dia ali. No fim, em primeiro lugar eu faço por amor. Se não for por isso, a frustração vem e a gente acaba parando de fazer o que realmente importa.


Murais nas ruas de São Paulo
Em relação a exposições, galerias, rolês artísticos. Onde está seu rolê inserido nesse meio? Existe espaço para artistas independentes?
Já fiz algumas exposições no ABC e também em São Paulo. Em São Paulo já fui convidado a trabalhar no Street League, onde skate e arte se juntaram ali. Sou de Diadema, um pouco afastado do centro de SP, onde existe grande parte das galerias, exposições e afins.
Nisso eu digo que as redes sociais ajudam bastante os artistas independentes que não conseguem fazer exposições. Sempre tem alguém de olho no que você está fazendo.

Grimaldi fez um review "chora Photoshop" em um mural do Freu
É mais treta fazer o corre de skatista ou de artista?
É aquela parada que falei sobre válvula de escape. Assim como a arte, o skate sempre foi isso pra mim também, me livrou de várias.
A diferença é que no skate você se machuca muito, tanto que estou parado por algumas lesões. Se não fosse a arte eu estaria perdido hahaha. Na arte você tem um conforto a mais sem se quebrar.
Mas é treta fazer o corre nos dois, cada um do seu jeito, com muitas dificuldades dos dois lados. Só que se fosse fácil também não teria graça. Fazendo com amor, dedicação e foco, as coisas vão acontecendo no seu tempo.


Freu e a homenagem pro seu amigo Nuno
