Flora Purim é a inconfundível voz do jazz fusion
Como a cantora brasileira dedicou sua vida ao jazz que misturava estilos e virou sinônimo do gênero no mundo todo
Flora Purim é um daqueles nomes de artistas brasileiros que fizeram mais sucesso nos Estados Unidos do que no Brasil. Natural do Rio de Janeiro, Flora teve uma criação musical, já que seus pais eram ambos músicos. Seus primeiros registros são, ainda no Brasil, cantando Bossa Nova em Flora e M.P.M., nos anos 60.
Naquela década, a Ditadura Militar no Brasil dividia músicos entre fazer canções de protesto ou fazer músicas que cantavam sobre qualquer coisa, “e que tudo mais fosse pro inferno”. Flora ficou no primeiro time, lutando contra a censura, mesmo que essa lhe fizesse ter vontade de ir embora do Brasil. Segundo ela “quis fazer o mesmo percurso do Rio São Francisco, desaguando para fora do país”.
Flora chega aos Estados Unidos em 1968, e nos próximos anos que se seguiam, viria se tornar sinônimo, junto de outros músicos, da fusão de jazz e outros estilos que seria chamada de “jazz fusion”. Flora foi recebida nos EUA como uma voz versátil, poderosa e talentosa, capaz de criar composições diversas e que levava a liberdade como tema constante em suas criações. Logo nos primeiros anos, trabalhou com Duke Pearson e Stan Getz, levando-a a conhecer e trabalhar com Gil Evans – que seria a porta de entrada para os relacionamentos musicais futuros com Chick Corea, Stanley Clarke e Joe Henderson. Desse encontro, o Return to Forever seria feito, um dos principais grupos do jazz fusion na história.
Outro relacionamento musical se tornaria amoroso: Airto Moreira, percussionista também brasileiro, chegava nos Estados Unidos para acompanhar sua amada Flora Purim na vida e na música. Airto também faria parte do Return to Forever, assim como de outros projetos da Flora ao longo da carreira.

Com os músicos de fusion, Flora aprimorou ainda mais seu alcance musical, abrindo leques e possibilitando novas formas de criar e cantar. Mas foi com os brasileiros Airto Moreira e Hermeto Pascoal que Flora descobriu um jeito próprio de criar palavras, misturando vocabulários brasileiros e americanos, fazendo uma marca registrada dentro de um gênero tão aberto a novas experiências.
Em 1974 lança seu primeiro álbum solo, Butterfly Dreams, que tinha Stanley Clarke como arranjador. Esse foi um projeto que possibilitou Flora a criar como quisesse, uma vitrine única para seus talentos. Nessa década, Flora foi eleita, por quatro vezes, a melhor cantora feminina de jazz, pela DownBeat. Ela também recebeu prêmios pela Record World e pela Cash Box, revistas especializadas de música, tendo sua influência comparada a Billie Holliday no final dos anos 40.
Nos anos 70, Flora contribuiu de forma massiva para a música, colaborando com músicos como Carlos Santana, Hermeto Pascoal, Herbie Hancock, Mickey Hart, João Gilberto, Dizzy Gillespie e muitos outros. Nessa época era considerada a “rainha do jazz”, por seu alcance vocal de seis oitavas.
O disco seguinte, Stories to Tell, trazia seus talentos ainda mais pra frente. De fato, a década de 70 foi o grande momento da Flora, apesar de dividir esses louros com prisões por acusações relacionadas a drogas e ter sua liberdade condicional só em 1975. Nada disso fez Flora diminuir o passo e nem deixar de criar, e seu disco pós-prisão foi o Open Your Eyes, You Can Fly, trazendo novamente a liberdade e a autenticidade como temas centrais de seus trabalhos.
Uma reflexão a ser feita é que Chick Corea, sabendo dos talentos que tinha em sua banda, levou ao mundo excelentes músicos, dois deles brasileiros, com seus projetos de fusion. Airto Moreira e Flora Purim se tornaram sinônimos do movimento, cada um em sua função. Apesar da relevância dos dois ser muito maior nos EUA do que no Brasil, isso não esconde os talentos brasileiros que estavam migrando por conta da Ditadura, buscando mercados mais abertos à época.

Nas décadas seguintes, Flora Purim se dedicou a álbuns solos e participações diversas em álbuns de outros artistas, de jazz ou não. Por seu vasto repertório vocal, Flora podia brincar com os solos de improviso, como também podia cantar letras complicados em idiomas diferentes. Em 2022, lança If You Will, disco solo depois de 17 anos sem um um álbum. Em 2023, foi indicada ao Grammy por esse álbum, na categoria Melhor Álbum de Jazz Latino.
Flora tem 84 anos, vive no Brasil e atualmente cuida de seu marido, Airto Moreira, com quem dividiu tudo, da vida à fama. Um legado de uma voz inconfundível e de um talento indiscutível.
if You Will é o álbum mais recente de Flora