'num riste': Janvi e vitorvulgo jogam a flecha para ver onde chega
Mesma idade, contextos diferentes e uma paixão em comum: o hip-hop. Em entrevista, Janvi e vitorvulgo contam sobre o processo de criação do EP
Era um fim de semana comum em Niterói quando Janvi foi fazer um show e conheceu pessoalmente vitorvulgo. A conexão foi tão imediata que, antes daquele fim de semana acabar, os dois já tinham marcado de se encontrar para gravar juntos.
Desse impulso nasceu 'num riste', um EP de quatro faixas lançado em 28 de maio pelos selos bgReal e Sujoground, que traduz em música o que seu nome sugere: algo em prontidão, em posição de desafio e lançado sem saber muito onde vai chegar, mas vindo de um lugar concreto.
O projeto não se preocupou em seguir fórmulas tradicionais do rap – tanto na produção de vitorvulgo quanto nas letras de Janvi. "Do nada a gente já se conheceu, já fez um som e eu acho que também o papo reto ali das linhas traz muito isso, de coisas que a gente precisa falar com urgência agora, que a gente tá lançando de uma forma no impulso mesmo, primitivo. Faz parte da entranha ali dos dois", conta Janvi.
De Foz do Iguaçu a Niterói
Janvi (27), paranaense de ascendência indiana, foi criada em uma quebrada de Foz do Iguaçu e começou a cantar ainda bem pequena, entre 6 e 7 anos de idade, no ambiente da igreja evangélica pentecostal – que funcionava como refúgio diante de um contexto familiar desestruturado.
O hip-hop entrou na sua vida por meio do skate, na pré-adolescência. Nos rolês, ela foi acolhida por skatistas mais velhos, que lhe apresentaram clássicos do rap nacional como Sabotage, Racionais MCs e Elo da Corrente. Esse contato mudou sua visão para sempre: Janvi percebeu que existia uma "outra linhagem do rap" que ia além das músicas "besteirol" que ela e os amigos da mesma idade costumavam ouvir. Depois disso, começou a experimentar com produção musical e a musicar versos de poemas que já escrevia.

Em Niterói, Vitor Vigo (27) – que assina como vitorvulgo – teve um contato mais tardio com a cultura hip-hop. Cresceu ouvindo jazz, por influência do pai, e no começo da adolescência foi guitarrista em uma banda de rock que criou com os amigos. Foi só na transição para a vida adulta que o rap chegou de vez, quando começou a prestar atenção na cena da sua própria cidade e a trocar indicações de músicas com conhecidos.
A virada de chave veio quando Vitor trabalhou na produção e identidade visual do documentário SpeedFreakS: Psicopata Camarada (Rafael Porto, 2021), mergulhando no acervo, nos arquivos e na história do rapper. Lidar de perto com esse material foi definitivo para estreitar a conexão do produtor com o hip-hop. Depois disso, não demorou muito para ele começar a produzir seus próprios beats e instrumentais.
Mesmo com trajetórias diferentes, Janvi e vitorvulgo chegaram ao mesmo lugar. E, mais importante, ao mesmo som.
O encontro e o conceito
vitorvulgo conheceu Janvi pela participação dela no disco Hiato Entre a Necessidade e o Ego, do rapper carioca Servo, lançado em 2024 pelo Sujoground. Mas o encontro de fato aconteceu naquele show que a paranaense fez em Niterói e os dois puderam conversar ao vivo.
'num riste' traduz essa afinidade instantânea. Para os artistas, o termo representa um ímpeto quase instintivo de fazer algo, a urgência de expressar emoções e ideias sem esperar o momento certo ou a estrutura ideal.
"Talvez eu ainda entenda por completo mais para frente, mas é essa a ideia que eu tenho disso: algo abrupto, quase instintivo, que tem que ser jogado mesmo, como se fosse uma flecha. Porque 'num riste' você tá arqueando alguma coisa, mas você joga sem saber muito onde vai. Você só sabe que veio de um lugar muito sólido. No caso da gente, é estar desapegado dessas fórmulas. Se o Vitor chegasse e falasse: 'Por que você não faz quatro barrinhas, um refrão aqui?' Tipo, não ia ter o EP, tá ligado?" – Janvi

"Quando a Janvi foi lá para casa gravar, eu lembro que a gente fez um beat na hora, eu peguei uma bateria de um [som], com um negócio de um outro [trabalho] que já tava meio pronto, botei uns barulhos de pratos, deixei o loop, ela gravou o verso dela, depois eu recortei. Foi bem desestruturado mesmo. Eu acho que no resultado final isso não fica tão aparente quanto foi, para ser sincero. Mas foi interessante isso". – vitorvulgo
O trajeto entre artes visuais, rap e skate
Os quatro videoclipes, um para cada faixa, foram criados de forma colaborativa e traduzem visualmente o trajeto que os dois artistas fizeram. Dirigidos pela artista Aurora Lima, a narrativa começa em um espaço etéreo e onírico em essa é minha chave, passa pelo cimento e o caos da cidade em num riste e praia do morcego, e finaliza no litoral niteroiense em liberdade é só um horário, feat com Rafael VZ.
"A gente entra no espaço onírico, vai para a cidade, para o cimento e finaliza esse trajeto na Praia do Morcego, que é onde começou tudo", resume Janvi.
As letras, assinadas pela rapper, refletem sua experiência enquanto mulher no hip-hop, transitando entre o skate, a criação de beats e de rimas. Como herança dessa imersão na cultura, Janvi pensa o rap como um espaço para que outras mulheres também possam criar e ocupar a cena.
Nos rolês de skate, nas colaborações com artistas femininas do ecossistema musical e, mais recentemente, em um curso gratuito e online de produção musical voltado exclusivamente para mulheres, ela foi construindo essa rede de apoio.
"Desde que eu cheguei em São Paulo, eu percebi uma coisa muito valiosa: todo mundo que é artista aqui quer trampar e tá disposto a fazer projeto. E principalmente falando das minas, as minas querem trampar. [...] Então, quando eu virei essa chave, pensei: 'Se eu começar a fomentar essa comunidade entre as mulheres que é tão difícil, talvez eu encontre outras meninas que nem eu que estão querendo fazer, mesmo que isso não envolva grana'. Porque a gente não tinha orçamento nenhum para fazer isso, não tinha apoio de ninguém, foi na raça". – Janvi
'num riste' reflete essa lógica nos bastidores e no centro das narrativas visuais, já que contou com a colaboração de diversas mulheres no casting e em funções como fotografia, direção geral, roteiro, direção de arte e styling. "Como isso tudo é natural e a gente viu que já tava dentro desse universo, a gente foi reforçando isso cada vez mais como a própria mensagem da parada", acrescenta vitorvulgo.
Janvi conta que, mesmo tendo certeza do nome do EP desde o início, ainda está ressignificando o termo. "Na minha cabeça era até difícil eu explicar. Porque o Vitor mesmo ficou tipo, 'mas que que é num riste? Por quê?' E tipo, até hoje eu também ainda tô ressignificando em vários lugares, mas eu sabia que tinha que ser esse nome".
'num riste' é daquelas obras que ganham novas camadas à medida que saem do estúdio e rodam o mundo, e talvez seja justamente aí que o nome faça mais sentido do que nunca.