A Mycrocosmos sabe que o skate é sobre usar calças

Com fortes raízes no skate de rua brasileiro, a marca de São Paulo continua vestindo o skatista depois de 10 anos de existência

A Mycrocosmos sabe que o skate é sobre usar calças

Skate é sobre calças. Uma vez li essa frase em algum fórum de skate e nunca mais esqueci a afirmação. Realmente, o skate tem uma ligação muito forte com calças. Baggy para os gangstas, skinny para os punks, mostrando a meia, com bolsos cargo, com ziper no joelho, de sarja, jeans… As modas das calças no skate foram muitas, em diferentes momentos. 

Nos anos 90, parecia que todo mundo usava o mesmo tipo de calça. Aí chegou a galera do Dirty Money e fizeram umas calças gigantescas serem moda no skate brasileiro. Depois nos anos 2000, existia uma incerteza sobre qual seria a moda da vez - os punks roubavam as calças da mãe, enquanto uma galera meio indie apostava em calças bege de corte regular. “Black shirt, brown pants” sempre foi meu kit favorito. 

Em 2015, nasce a Mycrocosmos Pants, marca do Rafael Silva e da Isabella Fiuza, que nasceu com o intuito de ser uma continuação daquilo que era vivido intensamente por skatistas de rua desde sempre - as calças. De São Paulo, os dois conseguiram ver um espaço a ser preenchido por uma marca que respirasse skate, entendesse a cultura e devolvesse o que o skatista precisava. De modo artesanal, na brincadeira que eles chamam de ALFAIATARUA, o Rafa e a Isa estão há mais de 10 anos nesse corre e a gente bateu um papo para falar de… calças, é claro. 

Parece pouco, mas 10 anos em um mercado que é influenciado pela internet é muita coisa, tem muita mudança de pensamento e de moda, muita influência externa, não só do meio em que se vive. Para o Rafa, em 2015, “o skate estava numa época em que estava um pouco sem estilo, e quando a gente falava de calças baggy, por exemplo, tinha gente que até torcia o nariz”. Nesse ano, o vídeo mais assistido foi o Vans Propeller, que tinha o Skater of the Year de 2015, Anthony Van Engelen, fechando o vídeo, e nesse mesmo full lenght, dava pra ver que o estilo de calças que predominava, era o das Dickies retas, cinzas e pretas. 

“Então pegamos um mercado novo, sabe? Éramos os únicos ali fazendo calça e criando essa cultura da calça no Brasil e, se pá, no mundo. Porque eu não via ninguém fazendo marca de calça em lugar nenhum do mundo, ainda mais costurando as próprias calças nessa época, sabe? O Instagram estava bem no início, e fomos crescendo organicamente, como é até hoje” - Rafa Silva 

A parte do AVE no Propeller e as calças mais retas

Outro fenômeno que impactou o mercado streetwear nesse período de existência da Mycrocosmos, talvez o que mais impactou a moda de maneira geral, foram as redes sociais, unindo estilo, desejo, autoexpressão e surgindo necessidades conscientes e inconscientes de nos mostrarmos através das nossas roupas. Para o Rafa, seguir tendências nunca foi muito a brisa da marca: “Sempre fiz o que acredito, sabe? Procuro criar as paradas da forma que eu acredito e isso está dando certo”. As calças da marca seguem um ideal de serem boas pra andar de skate, independente de serem baggy ou mais retas, mas elas prezam pelo conforto e usabilidade. Em resposta, a comunidade do skate abraçou a marca desde o primeiro dia.  “Nós não vamos nos render a fazer peças que não gostamos só para vender, manja? Não quero chegar nesse ponto (de fazer calças pelas trends). Felizmente, temos nossa comunidade, que usa nossas peças e ama a parada, sabe? Além da peça, eles gostam do conceito, da identidade e se identificam com a história da Mycrocosmos”, comenta o Rafa. 

A gente aqui está falando bastante da relação do skate com as calças, mas essa influência encontra um espaço de maiores possibilidades no streetwear. Quando a calça do skatista passa a ser consumida por outros grupos sociais, mais pessoas querem fazer parte do mercado, seja consumindo ou fazendo. De fato o skate sempre foi vanguarda na moda de rua e o Rafa acredita também nisso, quando diz “o streetwear é o que é devido ao skate - skate e moda sempre andaram juntos”. A importância do “se vestir” no skate sempre foi além do “estar confortável”, mas também conota uma noção de pertencimento. “A calça dizia muito quem você era, o que você curtia de música. Por exemplo, você via o mano de calça largona e já sabia que ele era do rap, gangsta; Aí olhava os caras de calça apertada, 'pô, esse mano é do rock'. Eu sempre vi a calça como o cartão de visita do skater”. 

O Dylan Rieder mudou o jogo no skate no quesito calças

Diante desse cenário de identidade e auto expressão, a Mycrocosmos foi e é fiel a um skate que acredita ser da melhor época, o dos anos 90 e começo dos anos 2000 e, inclusive, foi essa época que mais inspirou o casal Rafa e Isa a criarem: “Nos anos 2000 apareceram umas marcas da hora aqui no Brasa, fazendo umas coleções maiores e incluindo calça e berma, tipo a Latex, Hideout, Maha, Diet etc.”, comenta o Rafa. Essa inspiração pode ser vista tanto nos produtos da marca quanto nos vídeos, conceitos e escolhas pro time. 

A Mycrocosmos em 2026 continua artesanal, fazendo produtos sob medida e acreditando no processo do Faça Você Mesmo. “Aqui nada sai sem passar pelas nossas mãos”, diz o Rafa. Nesse processo de crescimento de marca, o casal foi fazer cursos, tanto de costura e modelagem quanto de empreendedorismo e fizeram uma marca forte na cultura do skate. “Todo mundo está crescendo o olho na cultura, mas o que eles fizeram pela cultura? Onde eles estavam quando o skate era marginalizado? Quando nós éramos vistos como vagabundos? É triste ver o que tá acontecendo com o nosso mercado, mas é isso, né? Tudo vai e volta, é um ciclo. Uma hora eles vão achar outra modinha pra focar, e nós estaremos aqui, firmes e fortes. Porque perseverança e atitude temos de sobra”. 

Baggy Jeans fazem parte do drop mais recente da marca. Confira aqui

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