Matesu celebra a música eletrônica em seu novo EP
SP-150 chega três anos depois do último projeto do produtor, e é uma celebração de sua trajetória
Hoje, 24/04, marca o lançamento de SP-150, novo EP de Matesu, produtor musical natural de Cruzeiro, no interior de São Paulo. O projeto conta com oito faixas que se propõem a traçar um retrato da cena eletrônica da capital paulista, indo dos 130 aos 150 BPM com influências de gêneros como techno, dubstep, house e volt mix.
Matesu é um dos grandes nomes da cena de grime e da música eletrônica underground nacional, estando envolvido em processos de mixagem e masterização de projetos importantíssimos ao longo dos últimos anos, além da sua atuação com o coletivo BLACKMESA e com o selo bloodworm trax.
O lançamento de SP-150 encerra um hiato de três anos desde o último projeto do produtor, e se propõe a registrar a sua evolução técnica ao longo desse período: "todo projeto que eu acabo lançando é uma tentativa de provar, pra mim mesmo, uma maturidade sônica. No ano passado fez 10 anos que eu mexo com produção musical, e eu sinto que ainda tem muita coisa pra melhorar, muito da minha sonoridade que eu preciso desenvolver", explica Matesu.

"É esse momento de captar – tal como uma fotografia é captar um momento que te chama atenção, que você gostaria de materializar, eu acho que a música também pode ter esse poder, de materializar um contexto que você tá vivendo."
O seu contato com a música eletrônica veio cedo – aos 11 anos, tanto pela internet como pelas trilhas sonoras de jogos: "aquela máxima, de jogar FIFA Street e ouvir um grime; ouvir um drum 'n bass no jogo de corrida e nem saber o que era isso". Pesquisando como conseguia, desenvolveu o seu estudo e encontrou na produção uma maneira de se expressar.
Essa história está representada no EP, que é fortemente marcado por um sentimento de maturidade. "Eu cresci com isso, foi uma obsessão muito forte, de todo dia sentar e mexer no programa com uma persistência que eu nunca tive na minha vida, nem pra estudar pra alguma coisa séria. Eu ia mal nas aulas, mas eu tava sempre sentado mexendo, na época no FL Studio, aprendendo", explica Matesu, que acrescenta: "são 10/11 anos produzindo, e agora, vivendo tudo isso, é isso que eu vou imprimir. É isso que eu vou dejetar de mim, da minha criatividade – tanto em termos de design, quanto em termos da própria sonoridade".

Vivendo a cerca de 220 km da capital paulista, Matesu se introduziu na cena em um momento de muita efervescência e troca entre produtores. Durante a pandemia, quando o grime começava a se espalhar pelo país, ANTCONSTANTINO organizou algumas lives de batalha de beats que contavam com artistas dos mais diferentes cenários – um verdadeiro caldeirão de produtores que passaram a se relacionar e construir as suas identidades sonoras.
"Eu acho que tem muito a ver com essa fase da pandemia, que o Antônio começou a lançar aquelas lives, e foi por causa disso que ele me apadrinhou e eu entrei nesse mundo – se não fosse por isso, não faria sentido. Eu sou de Cruzeiro, eu estou longe de São Paulo. Ninguém aqui escuta grime, UK garage."
Alguns anos depois, em 2023, o produtor se deslocou até São Paulo, finalmente conhecendo essas pessoas no mundo real e materializando o que, até então, só acontecia por meio do computador, como explica ele: "eu passei, até então, 7/8 anos da minha vida produzindo sem nenhum conhecimento de como eram as pistas, sabe? Nunca tinha ido num rolê de pista, pego um sound system – só produzindo, a música só tocava no meu fone. E quando você vai pra cidade grande, você escuta tudo isso em uma proporção muito maior, e vê o público e as pessoas que realmente vivem nesse nicho."
À partir da experiência das festas e das dinâmicas da noite de São Paulo, SP-150 começou a ser construído, como um registro pessoal dessa paisagem sonora.

"Aquele caldeirão de UK music meio que destilou no Brasil. Tá em todos os lugares agora, mesmo nos rolês tradicionais de funk. Essas sementinhas foram germinando. Não se tornou algo esplêndido, enorme, mas os produtores, as figuras chaves da cena têm esse conhecimento – sobre garage, sobre jungle. Acho que essas sementes foram bem longe, e nas figuras certas."
A música eletrônica vive um momento muito forte no Brasil. Ao mesmo tempo em que recupera as suas raízes e se fortalece nos nichos, ela tem se espalhado pelo mundo e alcançado uma certa expressividade – o EP também reflete isso.
"Grande parte dele vem de um apreço pela sonoridade dessa nova escola de produtores que a gente tem. É uma inspiração que eu colho muito, por exemplo, do Crosstalk, do Chediak, que são dois grandes ícones da produção nacional, que conseguem levar pra fora do país e adiante, mesmo, em termos técnicos. Acho isso maravilhoso."
O projeto gráfico do EP também ficou na conta do Matesu, e explora uma temática que já vinha aparecendo nas artes do BLACKMESA e em outros projetos. "Eu não sei o que tem em mim, mas eu sempre achei muito foda sinalizações gráficas, de burocracias, do estado. A primeira vez que eu peguei o metrô, eu fiquei maravilhado vendo aquele design, aquela parada realmente é muito bonita, muito bem feita. Eu fiquei obcecado com toda a produção da parada, com a formalidade. E eu sempre trouxe isso pro meu design", explica ele.

"Eu já tô há tanto tempo mexendo, lidando com isso, que pra mim é a coisa mais normal do mundo. Eu sou parte disso. Agora é crescer com isso, trabalhar com esse tipo de produtor, de artista, lidar com esse tipo de cena, com as dificuldades da cena. Fui realmente produzindo, aprendendo, com isso fazendo parte da vida."
SP-150 é um aceno para aquele momento quando toda essa cena que existe hoje ainda era só ideias. Na época da pandemia, outro ponto que foi levantado dentro da cena do grime foi a importância de se manter ativo no Bandcamp. As Bandcamp Fridays são um evento em que, por um dia, todos os valores arrecadados com as vendas são direcionados para os artistas – e se tornou cultural colocar trampos na pista nessa ocasião.
"Lançar esse EP é resgatar aquela emoção de preparar alguma coisa pro Bandcamp Friday e soltar. Era bonito, em plena pandemia, todo mundo sexta-feira lançando coisa, todo mundo ouvindo."
É com esse peso que chega SP-150, já disponível nas plataformas digitais. Ouça e acompanhe o trabalho de Matesu, da BLACKMESA e da bloodworm trax nas redes sociais.