Maglore escreve carta de esperança em novo álbum
Fluxo Natural é o sexto disco da banda baiana que, entre referências a grandes artistas brasileiros, entrega rock para antigos e novos fãs
Não é segredo para ninguém que para se manter relevante é preciso saber se reinventar. O problema é que quando falamos de bandas, sempre há o risco de mudar tanto a ponto de se perder e não conseguir nem atrair novos fãs, nem agradar a base de ouvintes. A Maglore faz parte do grupo que, há 17 anos, entrega o trabalho bem feito de equilibrar novas sonoridades a cada disco, e isso não é diferente em Fluxo Natural, novo álbum da banda que chegou hoje aos streamings.
Há alguns dias tive a oportunidade de estar presente na audição do disco, que também funcionou como um ensaio aberto, o primeiro deles com as músicas do novo repertório. A experiência de ver uma banda tão madura expondo suas vulnerabilidades foi muito importante para entender com mais profundidade a história que apresentam com o disco.
Nesse novo trabalho é possível ver tudo que faz a Maglore ser a Maglore: a sonoridade que construíram em quase duas décadas de carreira, as temáticas humanas, apaixonadas e otimistas, mas também um frescor que aponta para novos caminhos. A escolha foi modernizar olhando para o passado, se referenciando em estéticas dos anos 70, 80 e 90 em faixas que vão do folk ao rock progressivo, passando pelo indie, que tanto caracterizou o projeto desde Cores do Vento (2009), primeiro EP da banda.

Sobre os temas abordados, todos orbitam ao redor do título do disco, um fluxo natural que, segundo Teago Oliveira, vocalista e guitarrista da banda, faz dos desafios da vida insumos e ferramentas para se construir algo maior. Não existe uma faixa título, mas “Farol”, composta pelo próprio Teago, consegue resumir bem essa filosofia, quase como um guia conceitual. “Tem que seguir como um farol com tanta coisa pra guiar / Deixe perder, deixe estar, tudo que for e o que ficar”. A aceitação não é necessariamente vista como algo negativo, mas como parte de um processo para a construção de um futuro maior e melhor.
Isso se repete em outros momentos do álbum, que vai do micro, das experiências individuais, cotidianas, e seus cruzamentos com contextos macro, nacionais e globais, sempre brincando com contrastes e dualidades. Claro, a aceitação não é um movimento passivo, de observação da realidade como se está, e de um cruzar de braços perante o que tudo o que nos aflige, mas uma escolha, um posicionamento de ter clareza e ainda assim seguir em frente.
"O recado mais profundo do disco é do amor como algo que permanece. Não apenas de um jeito romântico, e mesmo com muitas imagens densas – impérios caindo, corpos modificados, chuva de concreto, pesadelos – o amor surge como âncora, como elo central." - Teago Oliveira

Outro tema que aparece muito durante o disco é o “ser brasileiro”, ser como indivíduo e ser como vivência também. Isso se mostra através de referências à figuras fundamentais da nossa cultura, e de contextos muito nossos, identificáveis. A primeira faixa, “Sulamericano”, por exemplo, é uma homenagem a Ney Matogrosso, artista crucial para nossa construção de identidade latina. Aqui a banda aborda a dureza de ser um sudaca, mas como isso também é uma vantagem, nos dá um molejo que serve de alavanca para driblar adversidades. A faixa ainda faz referência a outro nome importante da nossa identidade: Zé Rodrix, companheiro de Ney na formação clássica dos Secos e Molhados e que, em carreira solo, seguiu levantando a bandeira do sul global.
Mais uma reverência, agora na faixa “Para Lô”, como o nome já diz, é para Lô Borges e seu irmão Márcio, membros do Clube da Esquina. A sonoridade ainda se inspira na fase oitentista de Caetano Veloso, brilhante, dançante. Essas referências a grandes artistas, influências diretas da Maglore, não são novidade, e estão se tornando quase uma tradição, como é o caso de “Para Gil e Donato”, faixa que encerra o disco anterior da banda, V (2022).
Teago diz que o disco é essencialmente de rock brasileiro, e isso significa passar por relações sensoriais muito nossas, geográficas, culturais e corporais. É um álbum que se ouve muito sobre rio, mar, chuva, sol, fé, esperança, malandragem e futebol. É o jeitinho brasileiro, não de forma pejorativa, mas a partir de uma ótica que defende nosso jeito de viver como fruto de uma realidade que exige de nós malemolência, flexibilidade e sagacidade.
Filosoficamente, o trabalho tenta fugir do niilismo, a banda quer recusar o vazio e a falta de sentido que pode nos atingir ao observar os contextos sociais que, ao ligar a TV, abrir o celular ou conversar com amigos, por vezes, podem ser ações que nos deixam em desespero, nos colocam em conflito com notícias que não queremos ouvir. Fluxo Natural é justamente sobre a natureza que nos leva pra frente, que não nos deixa desistir e nos ajuda a lidar com cenários adversos da maneira mais positiva possível, mas sem alienação.

Foram dois anos de trabalho para compor, gravar e lançar o disco. Durante a audição, Teago conta que algumas faixas já até haviam sido gravadas, mas não batiam como deveriam bater, seja pela letra que não funcionava, ou o som que não casava. Foi necessário viajar, tirar rascunhos da gaveta, escrever novas canções e só então voltar para casa para juntar tudo. O disco foi gravado entre abril e maio no Estúdio Kapa, na casa de Teago.
Apesar desses anos de desenvolvimento, tudo é tão novo e recente, que a banda ainda está aprendendo a levar o álbum para os palcos. Logo no início da audição, foi prometido que não cantariam nenhum clássico da banda de discos anteriores. A ideia não era fazer um show ou apresentação, e sim ensaiar as novas faixas, testá-las com público, ver como soam ao vivo. E o resultado foi dos melhores possíveis.
Esse formato de ensaio aberto permite que a banda possa errar, ler as letras que ainda não foram decoradas, testar solos e improvisos vocais… Tudo isso aconteceu no palco da Casa de Francisca. A primeira faixa já começou com um erro de acorde, por exemplo, o que fez o público rir ao invés de reclamar. Entre as músicas, enquanto mudava a afinação da guitarra, Teago contava as histórias de composição de cada uma das faixas, explicava decisões criativas e antecipava o que tentaria fazer. Tudo funcionou muito bem.
Hoje, o disco está nas ruas e a agenda de próximos shows já está marcada, dessa vez, provavelmente sem erros ao vivo. Fluxo Natural é um abraço nos fãs da banda e uma carta de otimismo para quem talvez tenha perdido as esperanças no Brasil e no mundo.
Alguns cliques feitos durante a audição, na Casa de Francisca