Gabriel Tropz e os tradicionais desenhos com sátira para divertir e refletir

O Tropz traz influências de uma infância com jornal de domingo e lápis na mão para, na internet e no físico, continuar fazendo desenhos que mesclam Duchamp, Allan Sieber, o absurdo e o atual

Gabriel Tropz e os tradicionais desenhos com sátira para divertir e refletir

Não faz muito tempo que a gente pegava jornais e revistas e se deparava com uma ou mais páginas de desenhos que traziam situações cotidianas, sociais e/ou políticas que nos prendiam ali naquela seção. De Millôr Fernandes, Angeli, Laerte a Ana Mei, Allan Sieber e André Dahmer, a arte satírica, humorada e reflexiva percorreu a história da notícia brasileira, sendo tão ou mais combativa do que muitas outras páginas de algum veículo jornalístico. 

O Brasil é tradicionalmente desenhista, no passado com O Pasquim sendo contracultura em estado puro, quadrinhos como A Turma da Mônica sendo beabá de aprendizado de leitura para crianças, com veículos de comunicação trazendo traços que irritavam políticos e, mesmo tudo isso soando como algo geracional, os desenhos pareceram achar um lugar no instagram para alcancarem as pessoas de outras formas. 

Um desses viralizou na Copa do Mundo de 2026 e trazia uma sátira bem atual: as bets, casas de aposta que viraram o terror incessante de transmissões dos jogos, virou assunto nos traços de Gabriel Tropz. O paulista que se diz o último beatnik e bastardo da psicodelia traz cartuns que brincam com os assuntos mais variados, refletindo sobre o ser e estar atual e trazendo uma ótica divertida ao que, por muitas vezes, nos persegue. 

A gente aqui na ISMO trocou uma ideia com ele para saber mais sobre o estado atual da arte cartunista e esse lugar na internet que ela habita, sem precisar de patrões de papel para existir – além de falarmos sobre processo criativo, é claro.


Fala Tropz, tudo certo? Como você define sua arte hoje? 

Salve, ISMO! Eu gosto de dizer que minha arte é democrática, e não digo isso porque espero que todos tenham o mesmo olhar que o meu na criação da ideia, mas porque gosto de pensar que qualquer pessoa consegue olhar para um desenho e tirar suas próprias conclusões, sem precisar de uma bagagem acadêmica. Curto falar de política, tirar sarro de costumes, mas também sou apaixonado por um humor rasteiro, besta e sem profundidade nenhuma. Ou seja, acho que sou só um cartunista (risos). 

Vi que na Copa uma arte sua estourou uma bolha de só seus seguidores, a das bets. Ao que você atribui esse alcance? O que você acha que fez essa tira atingir uma grande quantidade de pessoas? 

O assunto das bets estava muito quente e, de alguma forma, o cartum conseguiu conversar com públicos completamente diferentes. Se você entrar nos comentários vai ver de tudo: gente rindo pela sacada com o meme do "meu nome também é bete", defensores das apostas e uma galera debatendo o real impacto das bets nas vidas das pessoas. Além disso, o projeto brief impulsionou uma hashtag que deu uma potencializada bem massa no alcance, não só do meu trabalho, mas do de vários artistas. Acabei fazendo três cartuns sobre o tema copa do mundo; dois eram mais para esse humor mais questionável (risos), mas até eles renderam interpretações bem interessantes.

Nós temos 30+ anos e somos do tempo que víamos as tiras em jornais e revistas, só fomos ver a arte na internet depois de adulto. Hoje onde moram as tiras? Qual o espaço de veiculação pra esse tipo de material? 

Pois é... Rolou um desprestígio dos jornais e revistas, né? E, sinceramente, ainda é um sonho meu publicar em algum jornal/revista grande. Mas assim, hoje não é só o artista: praticamente qualquer profissional virou meio refém de produzir conteúdo e também ser influencer. Eu posto praticamente tudo no instagram, que ainda é meu principal canal - o problema é que ele também é pessoal, então toda vez que posto minha cara feia eu perco alguns seguidores (risos).

Mas meu maior retorno continua sendo nas feiras e nas publicações independentes, é ali que consigo experimentar formatos, testar ideias e conversar diretamente com quem compra meu trabalho. No fim, acaba sendo muito mais terapêutico do que uma busca por reconhecimento.

Quais são suas inspirações? Onde e quando você viu tiras e decidiu "pô, isso é uma coisa que eu também quero fazer"?

Eu sempre gostei muito de desenhar e, inclusive, era um problema, porque passava mais tempo desenhando nas últimas folhas do caderno do que de fato concentrado na aula. Mas lembro exatamente de uma virada: a primeira banda pela qual fiquei realmente obcecado foi Gorillaz - não era só a música: tinha os personagens, os clipes, os pôsteres, toda aquela história por trás da banda. Acho que ali caiu a ficha de que desenho também podia contar histórias e criar um universo próprio. Depois vieram a faculdade de publicidade, que me fez pensar muito em humor visual e síntese de ideias, e a de artes visuais, onde tive contato com artistas que literalmente dobraram meu cérebro, como Magritte e Duchamp, além de colegas incrivelmentes talentosos com quem convivi. E, claro, cartunistas como Robert Crumb, Adão Iturrusgarai e Allan Sieber.

Você faz parte de um circuito de feiras de vendas de obras físicas. Como é transpor esse trabalho do digital pro físico? Toda arte cabe no físico? Qual a melhor plataforma para fazer seu tipo de arte? 

 Essa tem sido uma das partes mais legais das feiras. Elas me obrigam a pensar onde cada desenho faz mais sentido. Tem arte que vira zine, tem arte que pede um print grande, tem tirinha que funciona melhor como livreto. Gosto justamente desse exercício de dar uma função para o desenho e transformar uma ideia em algo que alguém queira levar para casa. seja porque achou bonito, porque deu risada ou simplesmente porque quis fazer uma indireta para alguém. também vale comprar por puro mau gosto (risos). 


ISMO
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